Jornal dos Desportos

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Hula vende atletas

Gaudncio Hamelay, Lubango - 11 de Outubro, 2018

Jovens huilanos podem emigrar para Luanda

Fotografia: Jornal dos Desportos

Uma bola. Um desejo. Um sonho. Ingredientes de um desportista de sucesso. Na Huíla, o espaço que separa o desejo do sonho é bafejado pela frustração. Frustração por ver o sonho a desfalecer de mansinho, depois de muitos anos de prática de andebol. Uma realidade que se espalha em cada uma das casas de Lubango. Um jovem ou uma jovem está sem chão. Perdeu uma vida. Uma vida sem sustentação.
 Até a bola, um trapo de pano, perdeu o valor de utilidade. As almas estão desprovidas de sonhos altos. Os activos formados ao longo de uma geração estão, agora, à mercê de clubes interessados. Salatiel Domingos, coordenador técnico da Associação Provincial de Andebol da Huíla, assegura que estão a ceder jovens atletas por falta de clubes da categoria sénior. O convite é dirigido aos clubes de Luanda e de Benguela, os dois principais pólos de desenvolvimento do país.
\"A Huíla é a terceira potência, depois de Luanda e de Benguela. Os nossos atletas estão à altura das encomendas para actuarem noutros clubes nacionais. Temos potencial e não devemos nada a outras províncias\", gaba-se Salatiel.
O responsável associativo justificou que a decisão foi tomada para que os atletas tenham a carreira desportiva mais prolongada. Para evitar a situação, Salatiel Domingos apela às instituições do Estado a promover o andebol em todos os pontos do país e \"não só em Luanda e em Benguela\".
A Associação Provincial de Andebol da Huila está mergulhada em dificuldades. A situação desgasta a cada dia a esperança de sonhar. No grito de Zeca Fumbelo, presidente da Associação Provincial da Huila de Andebol, ecoa a dor: \"Não quero falar o que vivemos para não magoar; não quero dizer tudo o que passamos, senão, vamos ultrapassar o que está na nossa mente\". É verdade. Uma mente sofrida que se recusa estar em silêncio. As dificuldades \"são imensas\".
Perante as contrariedades, as mãos e as mentes também se recusam a estarem  em repouso. O amor, que se move no íntimo, fechou os olhos às dificuldades e abriu-as para devolver a alegria aos corações de muitas crianças, adolescentes e jovens. É assim que, à volta da única bola da Associação, estão os rostos inocentes e sonhadores. Zeca Fumbelo confirma em tom desesperado: \"Trabalhamos com o material usado e fazemos tudo o que estiver ao nosso alcance para fazer o andebol na Huila\".
O sacrifício de mover as crianças e os adolescentes tem alto preço. Sem recursos próprios, socorre-se dos \"bolsos dos dirigentes da instituição\". O andebol pratica-se com bola. Na Huila, \"a aquisição do esférico é onerosa\". Por essa razão, a Associação \"tem apenas uma e única bola\".
\"Os nossos clubes, às vezes, não têm capacidade financeira para comprar bolas, pois, são muito caras\", revela Zeca Fumbelo.
Pobreza total. As equipas huilanas estão sem dinheiro para responderem às exigências. As participações das agremiações locais nas competições nacionais têm suporte em Zeca Fumbelo e mais quatro membros da Associação. A título de exemplo, é a equipa de andebol da Huila que esteve presente nos Jogos Escolares Regionais disputados no Namibe. O grupo não se fez representar com bola da Direcção da Educação.
\"Nós, Associação, tivemos de fazer das tripas o coração para formarmos a equipa que participou no Zonal Escolar Sul. É um sacrifício que fizemos para manter activo o andebol na Huila\", desabafou Zeca Fumbelo.
O dirigente revelou também que a Associação local assume a inscrição de atletas dos clubes na Federação Angolana de Andebol. Tudo \"para a modalidade não morrer, pois, conhecemos as dificuldades dos nossos clubes\".