Jornal dos Desportos

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Jos Sayovo ainda referncia

Orlando Ferreira - 13 de Setembro, 2016

O tricampeo de Atenas2004 Sargento-Chefe das Foras Armadas Angolanas

Fotografia: M.Machangongo

Nunca passou pela cabeça do cidadão José Armando Sayovo e mesmo  de ninguém, que a perda de visão fizesse dele hoje uma estrela, e uma referência mundial do desporto paralímpico. A conquista de três medalhas de ouro nos 100, 200 e 400 metros nos Jogos Paralímpicos de Atenas, em 2004, encheram de orgulho a Nação Angolana.

O feito, foi uma clara demonstração de perseverança, e de fé. Mesmo sem a visão, a vida não tinha acabado. O desporto foi a saída para servir a Pátria. Numa frente diferente e importante. De um grande desconhecido, hoje Sayovo é um nome que dispensa apresentação. Para cimentar o reconhecimento, foi institucionalizada uma prova pedestre que leva o seu nome.

Hoje está conformado, mas algo satisfeito com tudo que lhe aconteceu, reconhece que talvez se não fosse o acidente pudesse continuar a ser o humilde militar das Forças Armadas, confinado a um aquartelamento algures por este imenso país.
O Rio de Janeiro acolhe os Jogos Paralímpicos de 2016, as lembranças apoderam-se de José Sayovo. Numa conversa amena, a figura desportiva angolana mais conhecida no mundo, descreve as emoções vivida em Atenas'2004.

"Aqueles jogos mudaram totalmente a minha vida. De um cego pobre e mal pago, tornei-me numa estrela de referência mundial. Foi de facto com grande emoção e mesmo sem poder ver a nossa bandeira a subir no mastro, naquele momento, senti que todo o esforço feito estava a ser recompensado. Acreditei que a Nação estava comigo, e que valeu a pena a aposta feita", disse.

A dinâmica desportiva encontrou respaldo no sentimento patriótico. Sayovo encontrou a família real no desporto e os treinos compensaram a dor sofrida. Vinha directamente da frente de combate para o hospital militar e "não tinha a família comigo".

Eram tempos difíceis, mas a determinação de servir a pátria continua no íntimo. A desmobilização é um direito que vai abraçar nos próximos tempos. Longe das matas, Sayovo continua activo nas Forças Armadas Angolanas. É Sargento -Chefe.Hoje, aos 42 anos de idade, as pistas servem para a manutenção física. A competição passou à história. As prioridades estão viradas para a família. Uma bênção que desfruta com muito carinho. No passado, "era complicado" conciliar o desporto e a família.

"Quando estávamos lá fora, pensávamos muito na família", recorda com um sorriso nos lábios, antes de acrescentar: "Temos vontade constante de ligar para saber como estão os nossos familiares na terra". A saudade era tanta, mas não afectou o rendimento e os objectivos. "Fruto da experiência que carregava, evitava ligar para não correr o risco de receber uma informação indesejável", revela.

Depois de Atenas'2004, o mundo esperou a repetição da proeza em Beijing'2008. José Sayovo desvenda as razões da queda de produtividade: "O atletismo é um pouco complicado. Para quem entenda, deve ter a referência dos tempos que fiz entre 2004 a 2008.

Significa que cada vez mais o desporto para deficientes está a evoluir exponencialmente. Em 2004, nos 100m, fiz o tempo de 11s37,  recorde mundial  dos Jogos Paralímpicos de Atenas. Mas, em 2007, fui para o Brasil no Campeonato do Mundo, fiz 11s30, o que representou uma baixa significativa nos meus resultados anteriores. Estes resultados foram superados por um  brasileiro, que fez a marca de 11s26. Nos Jogos de Beiging'2008, melhorei os resultados ao alcançar os 11s23.

O mesmo o brasileiro voltou a superar-me com  11s03. Nos 200m foi a mesma coisa. Superei o recorde de 2004 com 22s69, mas não foi possível trazer a medalha de ouro para casa. O brasileiro fez um tempo de longe superior ao que alcancei".

Para Sayovo, a idade nem sempre é determinante nos bons resultados. Em Beijing, "um ucraniano de 42 anos de idade" fez-lhe companhia no pódio. Isso, reflecte "a capacidade de cada um".

Técnico e António da Luz incentivaram

José Manuel e António da Luz foram as pessoas que incentivaram José Sayovo para a prática do desporto. A presença de Ângelo Manuel Londaca, nos Jogos Paralímpicos de Barcelona, contribuiu para se inserir nas pistas. "Isso ajudou-me a dissipar o sentimento pessimista de que um deficiente visual não podia praticar desporto", afirmou. Inicialmente, as palavras de Londaca não tocaram no íntimo.

Primeiros dias de treino foram difíceis

José Sayovo recorda que o primeiro dia de treino "foi muito difícil". A falta de hábito e a exigência do desporto estavam a pesar na desistência. Com o decorrer dos dias, constataram que podia continuar: "aquilo parecia um bom passatempo". Com os treinos, descobriram outras motivações e "as coisas tornaram-se diferentes". Os quatro novatos inspiravam-se em Ângelo Londaca, depois de se reunirem à parte.


ATENAS'2004
Ouro foi a surpresa


As histórias da vida de Sayovo entranham-se no percurso sem fim. Nos Jogos Paralímpicos de  Atenas'2004, o angolano desembarcou como especialista da prova de 400 metros.

"Não me passava competir nos 100m ou 200m. Foi uma surpresa para o mundo e para mim próprio, ter ganho essas provas", desvenda o segredo.

Sayovo "não contava fazer aquelas marcas", pois "estava mais convicto na vitória nos 400m", especialidade que "tinha o domínio dos procedimentos". A decisão de correr nas duas primeiras provas foi tomada por José Manuel, o treinador. Os indicadores de treino davam garantia de fazer uma prova. O risco foi assinado.

Em 2001, no Egipto, Sayovo teve a primeira participação no Campeonato Africano. O seu nome levou a bandeira de Angola no lugar mais alto dos pódios, das provas de 100m, 200m e 400m. Três medalhas de ouro coladas ao peito.

ATENAS'2004
Ouro foi a surpresa


As histórias da vida de Sayovo entranham-se no percurso sem fim. Nos Jogos Paralímpicos de  Atenas'2004, o angolano desembarcou como especialista da prova de 400 metros.

"Não me passava competir nos 100m ou 200m. Foi uma surpresa para o mundo e para mim próprio, ter ganho essas provas", desvenda o segredo.

Sayovo "não contava fazer aquelas marcas", pois "estava mais convicto na vitória nos 400m", especialidade que "tinha o domínio dos procedimentos". A decisão de correr nas duas primeiras provas foi tomada por José Manuel, o treinador. Os indicadores de treino davam garantia de fazer uma prova. O risco foi assinado.

Em 2001, no Egipto, Sayovo teve a primeira participação no Campeonato Africano. O seu nome levou a bandeira de Angola no lugar mais alto dos pódios, das provas de 100m, 200m e 400m. Três medalhas de ouro coladas ao peito.

DETERMINAÇÃO
Imbatível nas pistas


A saga de triunfos de José Sayovo não ficou pelos êxitos menos conseguidos nos Jogos Paralímpicos de Beijing'2008. Embora não tivesse participações relevantes em 2009, o génio de Sayovo reaparece em grande, no ano de 2010. Em Julho, no  Africano de Marrocos, Sayovo foi igual a si mesmo: não deu hipóteses aos opositores. Nos 100m, não foi além dos 11s66, e nos 200m obteve o tempo de 23s82. Embora sejam tempos modestos, arrebatou as duas medalhas de ouro.

Ainda no mesmo mês, o mítico atleta invisual participou no Meeting Internacional em Tunis. Como  sempre, Sayovo foi demolidor: classificou-se em primeiro lugar nos 100m, com  11s50, nos 200, com 23s06 e nos 400 metros, com 52s10.

Em Agosto, no Quénia, marcou presença no Meeting deste país. Demonstrou uma forma atlética que o catapultou para os mais altos píncaros do atletismo africano e mundial. Sayovo obteve os tempos de 11s43, nos 100m;  22s62, nos 200, 53s17, nos 400. Fechou com chave de ouro o ano de 2010.

Em 2011, os maiores êxitos foram conseguidos no Mundial da Turquia. Contrariamente às performances alcançadas desde que Sayovo se fez às pistas, nos 100m não foi para além do segundo lugar, com registo de 11s72. Depois, foi compensado com a vitória nos 200m ao registar 23s92 e ainda no dos 400m.

 PERCURSO
A perda da visão


José Armando Sayovo é natural do Cuito, província do Bié. Ex -atleta paralímpico com passagem na infância entre as províncias do Bié e Huambo. Muito cedo, ingressou nas Forças Armadas Popular de Libertação de Angola (FAPLA), em 1987. Até perder a visão, passou grande parte da vida (cerca de dez anos) a defender a pátria e a integridade territorial.

Em 1998, aconteceu a tragédia que marcou para sempre a sua vida. Estava a cumprir o serviço militar, em Mbanza Congo, Província do Zaire, quando accionou uma mina no cumprimento de uma missão. Com o acidente, a  sua vida parecia ter terminado. O accionamento do engenho explosivo tirou-lhe "o bem que mais precisava para ter uma vida normal".

Num momento, tornou-se ambíolope. "Deixei de ser eu mesmo e pensei cá para os meus botões: a minha vida acabou!", recorda.
Foram momentos muito difíceis. Sayovo recorda que sofreu traumas psicológicos e perdeu a auto -estima e "o próprio significado da vida".

"Inicialmente, tentei o isolamento e afastei-me de tudo que circulava à minha volta. Depois da minha evacuação para o Hospital Militar Principal de Luanda, onde tive um tratamento médico durante quatro anos ou mais, comecei paulatinamente a reaver o sentido das coisas, com a prática do desporto", revela.

RECONHECIMENTO MUNDIAL
Embaixador da ONU

Os feitos do homem do centro de Angola transpuseram as fronteiras de Angola, com o reconhecimento a nível do conceito das Nações. Apesar de pobre e cego, com todas as perspectivas de vida praticamente coarctadas, Sayovo emergiu como um gigante que revolucionou a prática do atletismo, à escala mundial. 

Aos atributos do atleta angolano, valeu o convite para Embaixador das Nações Unidas. Em visita efectuada a Angola, o Secretário Geral das Nações Unidas (ONU), Ben Kimun, convidou José Sayovo a fazer parte da legião de Embaixadores das Nações Unidas, em defesa das causas humanitárias.

Embora não passe ainda  de uma mera intenção, não deixa de ser uma grande honra para José Sayovo, e quiçá para Angola, que mais uma vez deixa a marca nos patamares mais altos da diplomacia universal.

A confirmar-se o convite, José Sayovo pode juntar-se à basquetebolista Nacissela Maurício, indicada Embaixadora da UNUSIDA.


AGRADECIMENTO
Apreço ao CPA

José Sayovo tem os olhos de gratidão postos ao Comité Paralímpico Angolano, em especial ao seu presidente, Leonel da Rocha Pinto. Um homem de carácter humilde e com convicções viradas para o bem comum.

O antigo velocista agradece "sinceramente" o desempenho do CPA por tudo que tem feito, através da prática desportiva. É uma instituição que trabalha para a "melhoria das condições de vida dos deficientes".

Entre os objectivos primários do CPA, Sayovo descreve "a valorização da espécie humana". E justifica: "Temos hoje muitos deficientes a praticar o desporto e essa é a forma de os empregar com grande dignidade".

"O pouco que ganhamos, ajuda-nos a mudar significativamente as nossas vidas. Por exemplo, depois do acidente, sentia-me envelhecido na fase de recuperação. Actualmente, sinto-me rejuvenescido. É de justiça reconhecer esta parte", afirma.

José Sayovo reconhece a importância da imprensa na sua vida pessoal. Desde os momentos mais difíceis da sua carreira desportiva, sempre esteve perto dos acontecimentos que envolvem os atletas paralímpicos.