Jornal dos Desportos

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Kikanga embaixador de África em Portugal

João Francisco e Augusto Fernandes - 14 de Maio, 2015

Kikanga embaixador de África em Portugal

Fotografia: Kindala Manuel

Tony Kikanga nutre um amor único pelo país de origem. Embora a residir em Portugal, país que o lançou para o boxe profissional e o acolhe, o campeão mundial mantém laços de consanguinidade muito fortes com a Pátria de Agostinho de Neto. Gosta de subir ao palco com as cores vermelha, amarela e preta, essa mesma que a 11 de Novembro de 1975, o malogrado General Imperial Santana  içou na praça da independência.

“Tenho tudo para ser cidadão português: a minha esposa é portuguesa, os meus filhos idem, o próprio país também já me deu um documento como cidadão português, pelos feitos em Portugal. No entanto, sou conhecido no Mundo como o Kikanga -o angolano- , Kikanga - a coisa preta-, Kikanga - o terror de Angola- e assim por diante”, disse.

A recusa em ser tratado como português vem de uma experiência “amarga” de um seu compatriota. Tony Kikanga assegura, que Manuel Gomes fez vários combates como cidadão português e chamam-no “Manuel Gomes - o português”.

“Quando me chamam Tony Kikanga, português, eu não entrava no ringue e exigia que me chamassem Kikanga - o angolano, embora representasse um clube português”, disse.

O campeão mundial disse que convidava o pessoal da Embaixada de Angola em Portugal e de outros países africanos para assistir aos seus combates. Perante o cenário, “como poderia permitir ser tratado como português?”, questiona.

“Sou um orgulho não só de angolanos, mas de todos os africanos residentes em Portugal e no mundo inteiro. Quando um africano estivesse perdido no Porto, a Polícia local levava-o à minha casa. Para as autoridades policiais, todo o africano é primo do Kikanga”, argumenta.

A imagem de Tony Kikanga é uma marca de referência, que obriga a não fugir das suas origens. A responsabilidade que carrega aos ombros, obriga a manter o nome em qualquer parte do mundo.

“Num combate internacional, depois de derrotar Jorge Hoite, da Colômbia, a organização fez soar o hino português. Rejeitei imediatamente e mandei substitui-lo pelo o nosso 'Oh pátria nunca mais esqueceremos...' para a desilusão de muitos que queriam o contrário”, ressaltou.

A ousadia de ostentar as cores de Angola nos seus combates custou caro a Tony Kikanga. “Por causa disto, perdi algumas oportunidades na vida”, revela.

No dia seguinte ao combate, o presidente do Boavista entregou-lhe a carta de dispensa com uma linguagem mordaz: “estás fora do Boavista: seu ingrato e nunca metas mais o pé aqui”.

A atitude precipitada da direcção do Boavista resulta da autorização que o governo português tinha dado para adoptar a nacionalidade portuguesa. O clube da cidade de Porto desconhecia que Tony Kikanga não tinha dado entrada de tais documentos. Perante a integridade do pugilista angolano, o Bovista abriu um inquérito para criar dificuldades ao campeão. Sem orientação jurídica, Tony Kikanga recorreu à Embaixada de Angola em busca de auxílio. “Infelizmente, fiquei desiludido com a nossa Embaixada por não me ter ajudado nessa situação”, recorda.

Munido de sentimento patriótico, Tony Kikanga manteve a fé, a confiança e garantiu a si mesmo: “Sou angolano e sempre serei; não importa se em Angola  tratam-me  ou não como um campeão, que sempre levantei bem alto a Bandeira de Angola, através de desporto individual. De uma coisa tenho a certeza: a História compensar-me-á”.

A compensação não se fez tardar. Os clubes interessados aproveitaram a deixa do Boavista. Em 2002, a direcção do FC Porto mostrou-se disposta a assinar um contrato. Como “há males que vêm por bem”, Tony Kikanga passou a auferir cinco mil euros, mas três do que pagava o Boavista. “A minha vida tomou outro rumo e organizei-me aos poucos”, teceu.

Como pugilista profissional, Tony Kikanga ostenta 62 combates, em que contam 20 derrotas. A maior parte dos combates não foram registados por motivos vários. O atleta combatia na categoria de 90kg, a pedido dos patrões, e não era a sua categoria. Kikanga encaixa-se bem nos 79kg.

"É um grande desafio estar diante de adversários com mais de 30 centímetros de altura que nós e com mais rodagem competitiva. Mas mesmo assim, sempre dei trabalho aos adversários que me venceram", disse.

Tony Kikanga começou nas categorias de 72kg, subiu para 76kg e depois, 79kg. Os empresários queriam-no ver a combater nos 90kg, como Jean Mark, Philipe Michel, Amed Aly, David Chenand, o campeão Mundial da WBC, Mouamed Jean Mark (que já lutou com o ucraniano e campeão do Mundo da categoria Vitali klisso e outras figuras do boxe mundial).

HOMENAGEM
Kota Lucas e amigos
são "nacionalistas"


Tony Kikanga beneficiou de uma homenagem promovida pelos amigos num restaurante, cujo gesto marcou-o para a vida. O campeão mundial lamenta a posição de algumas pessoas ligadas ao boxe que não compareceram ao evento.
“Não tenho palavras para descrever o que senti naquela homenagem, sobretudo, por ter sido proporcionada por um grupo de amigos que nem sequer são empresários no verdadeiro sentido da palavra. O 'kota' Lucas e todos os que directa ou indirectamente intervieram para que aquela homenagem fosse possível, são uns verdadeiros exemplos de nacionalistas e só posso dizer muito obrigado”, agradeceu.
A ausência das entidades ligadas ao boxe angolano, concretamente a Faboxe, na cerimónia deixou-o perplexo.
“Não consegui perceber as razões que levaram a ausência dos membros da direcção da Faboxe, mesmo por terem sido convocados. As minhas conquistas beneficiam aquele órgão. Vi toda a gente ligada ao desporto, como homens de futebol, como General Pedro Neto, do hóquei em patins, andebol e outras modalidades”, lamentou.
Tony Kikanga suspeita que pode ter pesado a consciência na hora de se juntar aos “homens de bem”. Para o campeão mundial, “a iniciativa devia partir da Faboxe, mas não está interessada no Kikanga”.

APELO
AO EMPRESARIADO


Tony Kikanga ressalta, que “em Angola, o boxe limita-se à selecção nacional e ao Interclube”. Pelo andar da carruagem, “ela (selecção) pode desaparecer nos próximos tempos, caso as mentes dos empresários não se abram para a modalidade”.
A nação angolana deve “produzir outros Kikangas”, tendo em conta os níveis que o pugilista da Terra Nova atingiu no contexto mundial. Para o efeito, “os empresários devem apoiar e inculcar na mente o amor ao boxe”.

Tony Kikanga ressalta que o boxe é uma actividade rentável, desde que se aposta com seriedade. Todo o investimento passa pelo amadorismo e depois atinge o profissionalismo. Angola é um país com milhares de potenciais candidatos ao título mundial, mas estão escondidos por falta de patrocinadores.

FUTURO
Tony Kikanga já desenhou o papel que vai fazer, depois de pendurar as luvas. O campeão mundial vai dedicar-se ao jornalismo desportivo, como redactor, em detrimento de repórter de imagem, um sonho de infância. Nos próximos tempos, vai matricular-se para frequentar o curso de jornalismo e solicita a Matias Adriano, director do Jornal dos Desportos, um lugar de trabalho (risos).

BOXE MUNDIAL
Sobre o boxe mundial, Kikanga assegura que está a evoluir e os Estados Unidos da América perderam a hegemonia desde o tempo de Evander Holifilde, Mike Tyson e outros. O pugilista remata que as novas regras e os preparadores físicos espalhados pelo mundo ajudam no crescimento do boxe mundial.

Sobre Angola, Kikanga ressalta que o país está atrasado nessa modalidade por não dispor de um campeonato nacional ou Taça de Angola. “O Time Elite e outras equipas estão a desaparecer por falta de ringues, equipamentos e outras condições. O material de boxe é barato. Os responsáveis da Faboxe têm de tirar a modalidade do pântano”, enfatiza.

HISTORIAL
O segurança com punho do Boavista


A inserção no boxe profissional mudou a vida de Tony Kikanga, mas tudo começou como amador. Depois de tornar-se campeão de Portugal em 1996/97, o treinador do Boavista, “o velho Pinto Lopes”, prometeu - lhe o título europeu, caso se transferisse para a equipa do Porto.

 Tony Kikanga recorda as palavras do treinador no primeiro contacto: “Oh rapaz! Se fores para a minha equipa, posso fazer de ti campeão europeu. És muito bom”. A seguir, Pinto Lopes tirou um cartão do bolso e deu-lhe. “Liga-me”.

Tony Kikanga não levou à serio a conversa do “velho”. Três meses depois, decidiu ligar-lhe e solicitar as condições oferecidas pelo Boavista.

“Garantimos-te um quarto para morar, três refeições e 20 mil escudos por mês (200 dólares na época), além de um emprego”, soou do outro lado do telefone.

Sem pestanejar, Kikanga aceitou as condições e passou a integrar a equipa do Porto. Para compensar as horas extra-ringue, trabalhava como segurança de uma discoteca, três dias por semana, e recebia dois mil euros de salários. “Era muito dinheiro para quem tinha hospedagem e alimentação garantida”, recorda.

Com as cores de Boavista, Tony Kikanga conquistou cinco campeonatos consecutivos, várias Taças de Portugal e troféus regionais. O prestígio afectou todos os angolanos em Portugal. “Batia todos que me apareceram à frente e a minha imagem subia vertiginosamente”, disse com algum gabarito.

“Foi marcante e gratificante a forma como era tratado em Portugal. Sou um dos melhores pugilistas na minha categoria, para não dizer o melhor, quer na classe de amadores quer profissional”, assumiu.

Aos 23 anos de idade, com prestígio em Portugal, Tony Kikanga é convocado para a selecção portuguesa. O jovem deparou-se com um dilema: representar os tugas ou não. Perante a situação recorreu aos familiares.

"”Contactei a minha família e todos foram unânimes: és angolano e sempre serás. Não te iludas com dinheiro e outros aparentes benefícios”, revela.

Munido de sentimento patriótico, Tony Kikanga manteve-se fiel a Angola e na mesma altura, é convocado para representar a selecção de Angola, que disputou as qualificativas para os Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta, EUA.

O jovem desloca-se ao país e depara com o desprezo total das entidades competentes da Federação Angolana de Boxe. Com alguma mágoa, Kikanga revela que foi “tratado como um homem qualquer”.

A desorganização da Faboxe estendeu-se às confrades africanas. As adversidades vividas nos diferentes países do continente fizeram com que Tony Kikanga abandonasse o amadorismo e abraçasse o profissionalismo.

“Como profissional, já não interessa a nacionalidade. Vivo em Portugal há quase 30 anos e se quisesse, mudava”, justifica.
Tony Kikanga teve de se contentar com o sonho de um Jogo Olímpico e ver João Ntyamba, que vivia na Colômbia, a participar de seis edições da maior reunião desportiva do mundo.

PERFIL
Nome completo: António Pedro Kikanga
Filiação: Maurício Gaieta Kikanga e de Joana Pedro Makamba Tchiapulo
Local e data de nascimento: Rangel (Luanda), aos 9.8. 1973
Estado civil: Solteiro
Filhos: 4
Calçado: 43
Perfume: Very Very Valentin
Altura: 1,79
Peso: 83 kgs
Prato : Arroz, bife e feijão
Bebida: Água
Musica: Soul music e semba
Sabe dança: Sim.
Acredita em Deus: Sim.
Porquê: Deus é o criador de tudo o que existe incluindo eu
Religião: Cristã. Igreja Metodista
Se não fosse pugilista o que gostaria de ser: futebolista embora goste mais do rugby
Tem casa e carro próprio: Em Portugal . Só me falta em Angola
Cor preferida: preta
Amigo do peito: Soras da Terra Nova
Clube do Coração: Benfica de Lisboa e 1º de Agosto
Músico preferido: Bonga e Carlos Burity
Dançarina: Sálvia, dançarina do Matias Damásio
Futebolista: CR7 e Mantorras
Futuro de Angola: brilhante e causar  inveja a muitas nações
Cidade: Miami, EUA
Defeito: Teimosia
Virtude: Sou razoável
Sonho: Ser feliz