Jornal dos Desportos

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Maior tragédia da história do automobilismo

12 de Junho, 2015

As consequências da tragédia foram muitas como o abandono das competições por parte da Mercedes e a proibição das corridas em diversos países

Fotografia: AFP

Um dia negro na história do desporto a motor completou ontem 60 anos: o acidente que matou 83 espectadores e o piloto Pierre Levegh durante a disputa das 24 Horas de Le Mans de 1955.

As consequências da tragédia foram muitas, como o abandono das competições por parte da Mercedes e a proibição das corridas em diversos países.

Nenhum dia foi tão negro na história do automobilismo quanto 11 de Junho de 1955, exactos 60 anos atrás. Um grave acidente durante a 23ª edição das 24 Horas de Le Mans matou, de acordo com números oficiais, 83 espectadores e o piloto francês Pierre Levegh. Outros 120 ficaram feridos. Uma corrida jamais esquecida.

 O grid estava relativamente equilibrado, mas a britânica Jaguar e a alemã Mercedes eram francas favoritas à vitória na corrida mais difícil do mundo. O desafio não era enorme apenas pela necessidade de se passar 24 horas seguidas na pista, mas também pelas enormes velocidades atingidas em Sarthe – em um tempo em que a segurança não acompanhava o ritmo dos carros e dos pilotos.

Em 1955, nas longas rectas do circuito de Le Mans, os carros já atingiam a casa de 300 km/hora. Qualquer acidente, portanto, teria proporções enormes. Infelizmente, foi exactamente isso que aconteceu.

Foi uma tragédia que teve muitas consequências, dentro e fora das pistas, como o afastamento da Mercedes do desporto e até mesmo a proibição da realização de corridas em alguns países.

JAGUAR E MERCEDES
Na pista, dois campeões mundiais de F1 na década de 1950 começaram a competir freneticamente. O contexto da disputa, pelas marcas que eles representavam, ainda carregava componentes históricos bastante vivos na memória dos europeus: apenas dez anos se haviam passado desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e a antipatia entre ingleses e germânicos continuava bem quente.

O representante da Jaguar era Mike Hawthorn; o da Mercedes, Juan Manuel Fangio. A partir da largada, eles  competiram como se não se tratasse de uma corrida de 24 horas: travavam uma batalha digna de um GP, uma corrida "sprint". Foi assim que eles chegaram à 35ª volta, na terceira hora da corrida.

 Hawthorn era o líder, e recebeu da Jaguar na recta que antecedia a dos boxes um sinal para parar e reabastecer. Sem querer dar mais uma volta, ele cortou para a direita logo após ultrapassar o retardatário Lance Macklin e bateu.

 Os travões do carro britânico foram um detalhe determinante no acidente: ele já tinha a tecnologia do travão a disco, muito mais adequado às altas velocidades de Le Mans. Os demais, Mercedes inclusa, ainda usavam travões a tambor. Isso significava que não conseguiam desacelerar com a mesma rapidez da Jaguar.

 Uma vez que Hawthorn pisou no travão, Macklin desviou para a esquerda e  colocou-se à frente de outro retardatário, Pierre Levegh, que guiava a outra Mercedes de fábrica. O francês de 49 anos não foi capaz de desviar, acertou a traseira do Austin-Healey de Macklin e bateu.

No impacto com o muro, a Flecha de Prata  desintegrou-se. O eixo dianteiro e o bloco do motor  soltaram-se e, com a altíssima velocidade do carro, voaram  metros em direcção às bancada. Espectadores foram esmagados e decapitados. Para piorar, pessoas também foram queimadas pelas chamas que se espalharam. O facto de a Mercedes ter componentes de magnésio, um metal mais leve, mas altamente inflamável, corroborou.

CORRIDA QUE SEGUE

Trezentas mil pessoas estavam em Le Mans naquele dia, e a versão oficial é de que a corrida não foi interrompida porque os organizadores não queriam que as estradas ficassem congestionadas, atrapalhando assim o resgate das vítimas. 25 médicos estavam a postos no circuito, e nada preparados para algo como aquilo.

 Fangio e o seu companheiro de equipa, Stirling Moss, continuaram na corrida disputando a liderança com Hawthorn e Ivor Bueb. Oito horas mais tarde, a Mercedes decidiu  retirar-se da corrida com Fangio e Moss na liderança.

Um vídeo registado na ocasião do 92º aniversário de John Fitch, companheiro de carro de Levegh, reveladetalhes da decisão da Mercedes:
 “Quando eu estava ao telefone, um jornalista que eu conhecia estava a falar com um jornal e disse que as informações indicavam que 65 pessoas estavam mortas. Fiquei chocado, pois não sabíamos, estávamos nos boxes. Sabíamos que tinha sido terrível, não tanto. Desci para as nossas boxes. Falei com Rudolph Uhlenhaut, director da Mercedes, e falei o que tinha acontecido. Disse: "Rudy, talvez não seja a minha área, mas pensando no que aconteceu na guerra, a Mercedes não deve ganhar essa corrida em cima dos corpos de não importa quantos franceses.

Não é bom para as relações, não é bom para a Mercedes, não é bom para ninguém". Ele foi ligar para a cúpula, voltou e disse que os directores ficaram horrorizados. E então disse que ficou decidido que eles se iam  retirar. Moss ficou furioso comigo, pois ele e Fangio estavam na liderança e ele achava que eles iam vencer. Mas superou, hoje somos amigos.”

Ficth morreu aos 95 anos, em 2012. A Mercedes sugeriu à Jaguar que também se retirasse, mas a fábrica inglesa recusou-se e ficou na pista até ao fim, vencendo com Hawthorn e Bueb. As imagens dos dois comemorando com champagne no pódio provocaram muita polémica.