Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Modalidades

Manter atitude e ousadia

Silva Cacuti, Rio de Janeiro - 12 de Agosto, 2016

Seleccionador nacional ignora todo o favoritismo das anfitriãs e refere que é um jogo para ganhar

Fotografia: APF

Duas selecções, a mesma ambição pelo terceiro triunfo e o mesmo torcedor. Este vai ser o pano de fundo do jogo de hoje, às 13H30, no Arena Futuro, para a quarta jornada do grupo preliminar A, entre as equipas nacionais de Angola e do Brasil.

 As brasileiras jogam em casa diante de uma selecção adaptada pelos seus cidadãos. Aliás, antes mesmo de se olhar para os placardes, a actuação dos espectadores será outro motivo de interesse neste jogo.

 Os brasileiros vão estar com coração dividido. Os adeptos angolanos, embora em menor número, terão a tarefa mais facilitada porque a sua paixão tem apenas uma direcção, Angola.

Filipe Cruz, seleccionador nacional, ignora todo o favoritismo das anfitriãs e refere que é um jogo para ganhar.

"Vamos trabalhar para ganhar", disse ao Jornal dos Desportos. A equipa vem de uma derrota, em meio a rumores de factores extra campo. Sabendo da ausência de um profissional que pudesse recuperar os níveis motivacionais aconselháveis, Filipe Cruz admitiu que "a equipa precisa de um psicólogo".

Hoje o treinador tem que improvisar. Mesmo que lhe disponibilizem um destes profissionais, nada vale. Não há tempo. O adversário está aí, há que defender e atacar. A equipa precisa, sobretudo de melhorar os aspectos defensivos. Precisa voltar a ter Teresa Almeida " Bá" no seu melhor.

O Brasil combina a apurada técnica ao físico, é uma equipa muito rápida e terá o suporte doseou público. Qualquer equipa que ganhe garante definitivamente os quartos-de-final, sem depender da comutação de resultados.

Noutros jogos a Roménia defronta a Espanha, enquanto a Noruega pode afundar mais Montenegro.


REACÇÃO
Atletas  combatem actos racistas durante os Jogos


Cansados de insultos e ataques racistas, muitas vezes por parte de compatriotas, atletas brasileiros que participam dos Jogos do Rio resolveram contra-atacar. "Esta medalha é para todos os que disseram que eu tinha que estar numa jaula", declarou na segunda-feira, com lágrimas nos olhos e a medalha de ouro no pescoço, a judoca Rafaela Silva, de 24 anos, instantes depois de consagrar-se vitoriosa na categoria dos 57kg.

"Sirvo de exemplo para crianças da comunidade, que só por serem negras já são mal vistas. Você passa na rua e a mulher já tira a bolsa perto de você achando que você vai mexer", desabafou a atleta, desclassificada em Londres-2012 por um golpe ilegal e então vítima de uma onda de ataques racistas nas redes sociais.

Cerca de 52% dos 204 milhões de brasileiros são negros ou mulatos, e sofrem com os ecos da escravidão até os dias de hoje. A maioria é de pobres e carece de educação de qualidade. Os jovens negros também são as principais vítimas de mortes violentas no país.

A claque brasileira pode ser muito dura com os seus atletas. Muitos jogadores sofrem insultos racistas no gramado ou na internet, inclusive por parte dos torcedores do seu próprio clube caso o seu desempenho não seja satisfatório.

Nos estádios olímpicos de Rio-2016, nas bancadas há basicamente brancos. Os negros são o pessoal de limpeza, agentes de segurança e os próprios atletas.
Depois de sua desclassificação em Londres, Rafaela passou por um período de depressão. "Não foi a derrota que me afectou. Foi o racismo", explicou. Mas, para chegar até o ouro, Rafaela se lançou a uma nova disputa: combater o racismo com a arma de sua nova popularidade.

"O macaco saiu da jaula em Londres e foi campeão no Rio de Janeiro", disparou em numa conferência sobre racismo. Ela lamentou que quando saem notícias na imprensa sobre negros, geralmente é "sobre um negro assaltando alguém". "Agora não é um negro que está assaltando, e sim a dar alegria ao povo brasileiro. Quero mostrar que temos coisas boas e não apenas ruins", insistiu.

O governo preparou uma cartilha bilíngue intitulada "Olimpíadas sem racismo" para distribuir nos complexos olímpicos do Rio. "Precisamos lutar (...) Quero o povo negro no comando deste país. Quero ver negro deputado, senador, governador, médico, engenheiro, juiz, ministro de Estado", afirmou na mesma conferência Luislinda Valois, a primeira juíza negra do país e hoje secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do governo interino de Michel Temer.


FRENTE ANGOLA
Brasileiras acautelam euforias


A capitã da selecção brasileira de andebol, Fabiana Diniz "Dara" considera que o jogo de hoje às 13H30, no Arena Futuro, diante do conjunto angolano não vão ser favas contadas.

A jogadora que foi influente (5 golos) na vitória brasileira no torneio de Londres2012, chegou até a elogiar as angolanas. "As pessoas que não conhecem acham que Angola é uma equipa fraca. Não é. Faz boa campanha, venceu seus dois jogos e em Londres fizemos um jogo duríssimo contra elas, quando vencemos por três golos. Vamos respeita-las como respeitamos todas. Elas são muito forte fisicamente e evoluíram muito na parte técnica", destaca a brasileira.

Outra jogadora do conjunto brasileiro, Dani Piedade, acredita que a sua equipa precisa melhorar em relação ao que apresentou contra a Espanha. "Caso não melhoremos o confronto com Angola poderá ser complicado", alerta. "Contra a Espanha nossa defesa não funcionou e o golo não saiu. Tem que melhorar para pegar Angola, que é a surpresa da Olimpíada. Se não melhorar, vai ser difícil", concluiu.S.C


OBS
Televisão criada pelo COI dá show


Há no Rio de Janeiro uma rede de televisão que oferece o que nenhuma outra poderia dar aos seus espectadores: imagens e som de absolutamente todas as competições que são disputadas nos Jogos Olímpicos, recolhidas em 9100 horas de transmissão ao vivo.

A "OBS", organização criada em 2001 pelo Comité Olímpico Internacional (COI) para produzir e transmitir imagens dos Jogos, não é uma entidade comercial e não compete no mercado. A sua principal missão é satisfazer às redes de televisão que o fazem. São elas que pagam a festa, definitivamente.

A venda dos direitos de transmissão representa não só a maior fonte de financiamento dos Jogos Olímpicos, mas também do Movimento Olímpico em geral. "A maioria das federações e dos comités olímpicos nacionais se sustentam graças a essa receita", lembrou o presidente-executivo da "OBS", o grego Yiannis Exarchos.

Para satisfazer de maneira imparcial as necessidades das 105 redes de televisão que adquiriram os direitos, a "OBS" (Olympic Broadcasting Services) tem que estar em todas partes, sem desculpas. "Temos a possibilidade de entrevistar absolutamente todos os medalhistas dos Jogos. Em Londres só não entrevistamos um deles. Nenhuma rede de televisão pode fazer isso, é algo que nos valoriza", comentou Exarchos durante entrevista colectiva.

Para conseguir cobertura total, a "OBS" tem 85 mil metros quadrados de instalações no Rio, além de ter instalado 25 mil quilómetros de cabos e contar com 5.800 funcionários, entre eles mais de 1.200 estudantes brasileiros que fazem estágios remunerados. Já a audiência global estimada dos Jogos é de cinco bilhões de pessoas em mais de 220 territórios.

As seguidas inovações da indústria televisiva obrigam a "OBS" a contínuas adaptações. Agora, eles tiveram que redesenhar toda sua identidade para adaptá-la às telas 16:9 (widescreen), que eram menos da metade dos televisores em 2012, nos Jogos de Londres.

Além de produzir o sinal das cerimónias e de todos os desportos, Exarchos explicou que os possuidores dos direitos demandam conteúdos adicionais como guias dos diferentes desportos, trailers, tomadas aéreas e cenas dos bastidores.


DESTAQUE
Do Cazenga para a passarela do Rio de Janeiro


Seria um exagero dizer que a Selecção Nacional de andebol é Teresa Almeida "Bá" mais algumas companheira, como aqui alguns adeptos entusiasmados assinalam a actuação da guarda-redes do Petro de Luanda e da Selecção. Até porque a equipa nacional está a funcionar neste torneio olímpico como um todo, muito solidário, principalmente nas acções defensivas.

Quando entre 1996 e 1997, Adriano Panzo, treinador de guarda redes do futebol do Petro de Luanda pegou Bá, pela mão e levou ao Catetão para aprender andebol estava longe de pensar que ia dar ao país uma desportista de excelência como testemunha a carreira da jogadora de 28 anos. O sucesso de Bá estava anunciado quando aos 16 anos integrou a equipa sénior do Petro de Luanda, lançada por Armando Gomes Culau, então treinador tricolor. Talvez por ter sido levada ao andebol por um guarda redes, Bá identificou-se com a baliza. Chegou a ser experimentada na posição de pivôt, mas sua sina era a baliza.

No Rio, depois de duas partidas  bá tem um registo estatístico de 22 defesas em 58 remates, o que perfaz 38 por cento.

Os especialistas da modalidade consideram positivo o desempenho de um guarda-redes a partir dos 30 por cento. Bá está ao mesmo nível de Amandine Leynaud, referenciada guarda-redes francesa, ou mesmo Mayissa Pessoa, do Brasil. A " Gordinha" como é tratada aqui, conquistou os brasileiros que até incluíram seu nome numa slogan de apoio à selecção nacional "ão, ão, ão, Bá é paredão!” e “P…, é a melhor goleira do Brasil".

Dona de uma grande envergadura física, Bá, 1,70 metros de altura e pouco mais de 98 kg é filha de pais com o mesmo perfil físico. Segundo um dos seus treinadores de formação ouvido pela nossa reportagem, é uma atleta disciplinada, "so nos apresenta dificuldades na questão da alimentação, por causa do controle do peso. nisto ela é um pouco desregrada, mas é uma atleta cuja alegria contagia o grupo", testemunhou.

O desempenho da guarda-redes angolana não passou despercebido a um espectador especial. Mansorou Aremou, presidente da Confederação Africana de Andebol  (Cahb)  referenciou a prestação da jogadora. "Estou muito satisfeito porque nas últimas competições notamos que a baliza estava a ser um dos pontos aproveitados pelos adversários de Angola, principalmente no campeonato africano da Argélia. Agora noto com satisfação que Angola trabalhou este aspecto, há outras atletas a jogarem bem, mas a guarda- redes tem sido preponderante", disse.