Jornal dos Desportos

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Mundial antecipou a renúncia de Bento XVI

02 de Março, 2014

Pontífice queria garantir que o sucessor assistia às JMJ, no Rio de Janeiro

Fotografia: AFP

O Mundial de futebol, que vai realizar-se no Brasil em Junho, levou indirectamente o Papa emérito Bento XVI a antecipar em um ano a renúncia, em Fevereiro de 2013, contou ontem o seu secretário particular à imprensa alemã.

O arcebispo Georg Ganswein disse ao suplemento semanal do diário “Suddeustsche Zeitung”, da Baviera do Sul, que Bento XVI resignou mais cedo do que pretendia, depois de as Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ), no Rio de Janeiro, inicialmente previstas para o Verão de 2014, terem sido antecipadas para o Verão passado, para não coincidir com o Mundial de futebol.

Isso "passou-se exactamente assim", declarou Ganswein.  O Papa tomou, em Agosto de 2012, a decisão de renunciar ao cargo, um acto histórico, que anunciou ao secretário particular em Dezembro do mesmo ano.

Bento XVI queria garantir que o sucessor assistia às JMJ, no Rio de Janeiro. "A minha reacção espontânea foi dizer 'não, Santo Padre, não tem esse direito'. Mas foi uma reacção emotiva e rapidamente percebi que ele não me estava a dizer aquilo para tomar uma decisão, mas porque a sua decisão já estava tomada", explicou Ganswein.

Apenas quatro pessoas foram informadas da decisão do Papa emérito. Os cardeais presentes quando o Papa anunciou a renúncia, em latim, levaram algum tempo a perceber o que se estava a passar, acrescentou.

"Alguns rostos estavam petrificados, outros incrédulos, desamparados, chocados. Eles olhavam uns para os outros, perguntando-se 'percebi bem?'", disse.  O exemplo de João Paulo II, que concluiu o pontificado doente e a sofrer, foi determinante na decisão de Bento XVI.  "Continuar como o seu antecessor terminou, ou mesmo imitá-lo, não era uma opção" para Bento XVI, sublinhou.

Sobre Jorge Mario Bergoglio, Ganswein considerou "um grande presente" a "alegria religiosa" que levou ao Vaticano.  "Ele trouxe consigo uma religiosidade musical, que nós  devemos voltar a aprender. E isso pode fazer-nos bem", garantiu Ganswein sobre Francisco, num encontro com o biógrafo de Joseph Ratzinger, Peter Seewald.

Na opinião de Ganswein, as diferenças entre Bento XVI e Francisco são óbvias, mas são mais de "personalidade, estilo, gestos" que substanciais.
"Todos os temas principais de Francisco, a alegria, a esperança, o amor, a misericórdia, foram temas dominantes de Bento XVI", declarou.

Para o arcebispo, que chegou a ser capa da revista norte-americana Vanity Fair, Francisco "é um homem de gestos", alguém que realiza acções "que não se esperam dele", enquanto Bento XVI era um homem que se ouvia com atenção para assumir as suas palavras.