Jornal dos Desportos

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Mundial sem aplausos gera crticas dos atletas

03 de Outubro, 2019

Mundial que decorre em Doha est ser marcado por intenso calor e o trnsito infernal que caracteriza a capital do Qatar

Fotografia: AFP

O Qatar, península de 160 quilómetros no Golfo Pérsico, tem 2,6 milhões de habitantes, a maioria a viver em Doha, mas a sua população divide-se entre os 313 mil árabes, os ricos, e 2,3 milhões de trabalhadores pobres de raça negra ou asiática. O calor é sufocante durante as 24 horas do dia e o trânsito da capital infernal.
Esta realidade ajuda a explicar a ausência de espectadores no Estádio Khalifa - não existe uma classe média, a que mais frequenta os espectáculos desportivos -, para o qual consta terem sido vendidos 50 mil bilhetes, ao contrário dos 200 mil anunciados pelos organizadores, para um total de dez dias de competição...
Terça-feira, por exemplo, alguns milhares de trabalhadores etíopes da construção civil, que terão recebido bilhetes grátis, encheram uma das bancadas do recinto de 40 mil lugares para verem a dobradinha de Muktar Edris e Selemon Barega nos 5000 metros e finalmente ouviram-se aplausos. Mas pode ter sido uma excepção.
“É uma desilusão. Até vinha com o entusiasmo de promover o desporto numa nova região”, lamentou Ekaterini Stefanidi, bronze no salto com vara e que diz nem nos nacionais gregos ter tão pouco público. A estafeta mista dos Estados Unidos, vencedora os 4x400 metros, recusou mesmo a dar a volta de honra num estádio vazio.
Segundo a organização, as assistências “estão abaixo das expectativas”, mas isso deve-se a provas que coincidem com “a semana de trabalho” e têm horários adaptados à hora nobre das televisões europeias. Um argumento fraco, pois há competição entre as 16h30 e as 23h00 locais. O Mundial já teve as provas mais populares, as de 100 metros, mas apenas 13 288 pessoas aplaudiram o triunfo de Christian Coleman no sábado.
“É um campeonato estranho. Já não temos o Usain Bolt e queríamos ser nós a tornar o Mundial excitante. Mas não está nas nossas mãos”, desabafou o sprinter britânico Adam Gemili. Alguns atletas não ligam às bancadas vazias, como Justin Gatlin - “Quando estou em pista, não quero saber se são 100 ou 100 mil”, diz -, mas a maioria sustenta as críticas que já se estendem à IAAF.
“Foi um erro fazer-se um Mundial nestas condições. São condições mesmo extremas”, afirmou Jorge Vieira, presidente da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA), à TSF, lamentando tanto os lugares vazios como o calor que afecta maratonas e marcha.
A Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) foi uma das federações que há dias reelegeram, por unanimidade, o presidente da IAAF, Sebastian Coe, mas a escolha do Qatar fora do seu antecessor, Lamine Diack, já acusado de corrupção...
Para o futebol, que em 2022 vai ter mais gente nos estádios, mas pode vir a sentir problemas do género, uma história destas não é novidade!