Jornal dos Desportos

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O desbravador dos congolenses

Augusto Fernandes - 01 de Outubro, 2017

Chico Afonso notabilizou-se na seleco nacional e no Petro de Luanda, onde foi tetra-campeo nacional.

Fotografia: Nuno Flashi

Chico Afonso notabilizou-se na selecção nacional e no Petro de Luanda, onde foi tetra-campeão nacional. Foi um defesa central que impunha respeito aos adversários e com um elevado grau de disciplina. Capitaneou diferentes equipas e partilhou os relvados com Ndunguidi, Jesus, Lúcio, Mendinho, Lourenço, Sabino, Ndisso, Sarmento, Saavedra, Lufemba e outros, antes e depois da independência nacional.
\"O nosso futebol foi revolucionado depois da independência graças ao 1º de Agosto”. As palavras são de Chico Afonso, defesa central que se notabilizou no Petro de Luanda e na Selecção Nacional. Um jovem formatado no bairro dos congolenses e com uma folha de serviços recheado de glórias: quatro títulos de campeão nacional.
O reconhecimento do 1º de Agosto tem uma razão. Em 1980, Chico Afonso ingressou no Petro de Luanda. Por essa altura, entraram também Lito e Afonso Joaquim. Vassili Moratev, conhecido por Vesco, era o treinador. Um técnico de máquinas da Macambira, fábrica Imperial de Borracha. Em fim de carreira, foi substituído por António Clemente.
A filosofia de jogo do brasileiro era toque rente à relva. Integrava a equipa, o Panzo, Jesus, Santana Carlos, Melanchton, Déde, Santos, Gabriel, Vieira Dias, Moreno, Macuéria e juntaram-se depois Teófilo Moniz, Bodu, Nsumbo, Lufemba, Haia, Dico, Antoninho, Tó Zé, Laika e outros. Era uma equipa de sonho. Chico Afonso, ido do Maxinde, trazia a experiência e integrou-se com facilidade.
Em 1982, Chico Afonso ganha com o Petro de Luanda, o primeiro título de campeão nacional no seu segundo ano. \"Foi um grande momento para nós. Marcou o fim do ciclo para o 1º de Agosto. A consagração ficou marcada com uma goleada histórica de 6-2 sobre o 1º de Agosto na Cidadela Desportiva\", disse com alegria.
Chico Afonso assume que \"aquele jogo marcou a rivalidade entre o Petro de Luanda e o 1º de Agosto que perdura até hoje\". Os adeptos da equipa militar \"esperam a desforra\", mas por  sorte está “encravada na garganta”, outra humilhação de 6-0 aplicada em 1988.
A derrota do 1º de Agosto (6-2) tem outra história. Na qualidade de militar e jogador do Petro de Luanda, Chico Afonso recebeu ameaças, no quartel, de alguns comandantes ao longo dos dias que antecederam o dérbie. Recorda-se, que um dos chefes chegou à Casa dos Desportistas (à Ilha de Luanda) sob  o pretexto de visitar os jogadores da selecção nacional, que aí residiam. Quando se deparou com ele, o comandante \"disparou ameaças sérias\". \"Intimidou-me e disse-me que ia levar porrada\", recorda.
Em resposta, disse-lhe calmamente: \"Posso não ganhar o jogo, mas também não vou perder\". A ousadia do soldado deu lugar a uma aposta. Combinaram para segunda-feira o acerto de contas no Quartel.
\"No dia do jogo, o comandante estava na tribuna VIP e viu o ruir daquele grande castelo. Foi um momento negro para os jogadores do 1º de Agosto e de toda a massa associativa. Ninguém quis acreditar no que estava a acontecer. Era o fim do ciclo da geração de grandes vedetas do nosso futebol\", afirmou.


PERCURSO
De bola de trapos à final nos Coqueiros


Chico Afonso deu os primeiros chutos em bolas de trapo e de meias aos seus quatro anos de idade, no bairro Indígena. Depois dos pais se mudarem para o bairro da Cacimba, onde está erguida hoje a Cidadela Desportiva. Posteriormente, foram para o bairro dos Congolenses, no Bloco dos tocoístas, em finais dos anos 50 do século XX.
No novo bairro, Chico Afonso aumentou o gosto pela bola, influenciado por jogadores do Benfica do Congo. A equipa era formada pelos mais velhos do bairro, como Mirra, Troé, João Francisco, Mukuna, Tudi, Luís, Tunga, Daniel, Ti Lito e outros.
Chico Afonso fez parte do \"exército de rapazes\" que desbravaram o espaço do campo de São Paulo. \"Na época, era uma mata. Desbravamos para fazer um campo pelado de futebol. Depois, o Estado português decidiu torná-lo no campo municipal de São Paulo em 1964\", recorda.
Com a inauguração do campo, Chico Afonso disputou vários trumunus. Em 1971/72, a direcção do Benfica de Luanda decidiu contratá-lo para a equipa de juvenis, devido ao talento invejável. Encontrou Paulo Garcia, Chico Vigário e outros. Um dos nomes de que se recorda na equipa de juniores, era de Manuel Vicente, ex-vice-presidente da República de Angola.
A presença de Chico Afonso na equipa encarnada foi efémera. A pedido da direcção do Clube Desportivo Bairros Unidos, foi contratado pela Escola de Fernando Peyroteo em 1972/73 em companhia de Cavunge, Marinho e outros. Felizmente, ganhou o seu primeiro campeonato provincial.
\"O jogo da final foi disputado no Estádio dos Coqueiros com o União Desportivo de São Paulo, treinado por Nando Russo. Foi um dia memorável para a minha vida, pois se tratava do primeiro título da minha carreira futebolística. Joguei com Zé Domingos, Faustino, Óscar, São José, Quim Zé, António Pelinganga, Cassule e outros. Na outra equipa, havia o Massembela, um jogador muito talentoso\", recorda.


TRANSFERÊNCIA
Militar de coração tricolor


Por força das convulsões políticas e militares que conduziram à independência nacional, em 1974, Chico Afonso ingressou nas gloriosas FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola). Foi destacado para a zona Leste. Os campeonatos de futebol, em todas as categorias, estavam parados. Com o restabelecimento da prática desportiva, em Julho de 1980, Chico Afonso regressa a Luanda vindo de Saurimo.
Com a farda da FAPA/DAA, Chico Afonso é convidado a ingressar no Sporting Clube de Maxinde, treinada por Severino Miranda Cardoso \"Smica\". Lá encontrou-se com  Mendinho, Tonecas, Victor Airosa, Nando Galinha, João Vigário, Gamito, Afonso, Lito Gouveia, Van Dunen, Nico e outros. Jogou uma época e terminou em terceiro lugar.
\"Tivemos o privilégio de ganhar ao Atlético de Luanda por 5-0 na primeira volta. Aquele Maxinde era uma grande equipa. O 1º de Agosto tinha de suar muito para nos marcar um golo\", recorda.
Como jogador do Maxinde, o 1º de Agosto \"piscava-lhe o olho\", pois era militar. Naquela época, qualquer bom jogador em idade militar era chamado para representar \"aquele grande clube\". \"Até gostava da mística do 1º de Agosto, mas as coisas não avançaram, porque rumei para o Petro de Luanda, após o fim da minha relação com o Maxinde\", disse.


CURIOSIDADES

Clemente era
um faz tudo

Para Chico Afonso, António Clemente era mais que um treinador: \"era um grande psicólogo e excelente condutor de homens, que tinha soluções para tudo\". \"Foi um autêntico tapa- furos. Numa altura em que não tínhamos condições para alojar  jogadores, provenientes das províncias e não só, contratados pelo clube, foi falar com a direcção do clube e propôs a construção de quatro casas no Catetão, com dois quartos, uma sala e WC cada uma, para hospedar os jogadores. O próprio Clemente dirigiu as obras. Hoje, as referidas casas foram transformadas em escritórios\", lembra-se.
 
Penaltie \"falso\"
em Yaoundé

Na Liga de Campeões de África marcou-lhe o jogo com o Canon de Yaoundé, na capital camaronesa. No jogo da segunda mão, no Estádio Ahmadou Ahidjo, o Petro de Luanda estava empatado a duas bolas e o árbitro assinalou um penaltie contra a equipa angolana a escassos minutos do fim. O facto deixou  Chico Afonso irritado.
\"Tínhamos o jogo controlado, precisávamos de empatar com golos para passarmos a eliminatória. Emanuel Kundé caiu sozinho e pós-se aos gritos. O árbitro Sebastian Mbaya, da RDC, assinalou falta inexistente na nossa área. Perdi a cabeça e fui atrás do homem, pois  quis estrangulá-lo. Foi rápido a esgueirar-se e escapou-se das minhas mãos. Estava tão furioso. Quando a polícia tentou parar-me, empurrei-o e caiu. Mbaya fez algumas escoriações. Só de o ver no chão, percebi que tinha de parar, após notar a presença de boinas vermelhas. O árbitro nem teve a coragem de admoestar-me com um cartão amarelo. Foi uma autêntica batota, um roubo descarado\", lembra-se.