Jornal dos Desportos

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O milsimo golo de Pel

05 de Setembro, 2019

Fotografia: AFP

No início de Setembro de 1969, Pelé andava inquieto e a inquietação propagava-se por entre os seus companheiros, da equipa do Santos. Tudo, por causa da estatística. Não tinha dia, em que qualquer jornal brasileiro não trouxesse a público,  a contabilidade dos seus golos. E, nem toda batia certo. Era isso, que o irritava.
Édson Arantes do Nascimento não continha a ansiedade de marcar o seu golo mil. No dia 3, marcou num jogo de brincadeira, entre a selecção do Brasil e uma selecção de Minas Gerais. Houve quem dissesse que era o golo 983, todas as competições e particulares incluídos, tinha quem dissesse que era o golo 982 e quem garantisse que era, apenas, o golo 981.
Nas redacções, os jornalistas atarefavam-se com a contabilidade. Os registos eram consultados ao milímetro, os arquivos eram virados do avesso, tinha até quem fizesse entrevistas a Zaluar, o guarda-redes do Corinthians de Santo André, que na tarde de 7 de Setembro de 1956 sofreu o primeiro golo marcado por Pelé, com a camisola do Santos, tinha o garoto 15 anos. Zaluar tinha orgulho nesse golo sofrido. Chegou a mandar imprimir cartões de visita, que dizia: \"Zaluar, o primeiro guarda-redes a sofrer um golo de Pelé\". Não tinha ninguém a igualar tal feito, também o guarda-redes que sofresse o golo mil estava destinado a ter o nome na história do futebol.
Até final de Setembro, Pelé chegou ao golo 991. Só faltavam nove. Ou seria 990, faltava, por isso, dez ?! Pelé não queria sequer ouvir falar de números.  Entrava em campo furibundo, como um touro na arena, fosse contra o adversário que fosse. Na Inglaterra, na vitória do Santos frente ao Stoke, fez gato sapato de toda a defesa inglesa, mas só marcou um golo.
Dois dias depois, ao encerrar uma digressão pela Europa, caiu esfaimado sobre a rectaguarda de uma selecção de jogadores do Génova e da Sampdória,  somou mais dois na conta pessoal. A equipa do_Santos venceu a partida, por 7-1, e o público genovês ficou abismado com a categoria de gente como Carlos Alberto,_Clodoaldo, Rildo, Joel e acima de todos, de Pelé.
Pelé corria freneticamente atrás do golo mil, quando o Santos regressou ao Brasil,  para dar início ao Campeonato Paulista. Por mais golos que marcasse, nunca fugia das diversas estatísticas que se foram  construindo em seu redor. Em Maio de 1995, por exemplo, o jornal Folha de São Paulo encontrou um golo marcado por Pelé, pela selecção militar contra o Paraguai,  para o Campeonato Sul-americano, o que faria que o golo mil tivesse surgido cinco dias, antes do tão celebrado dia 19 de Novembro de 1969.
Entrava-se na saga dos golos perdidos. Um deles seria na Costa do Marfim, numa excursão levada a cabo em 1966. Era um golo estranho, porque contra o Santos, já que Pelé jogou no segundo tempo pela selecção costa marfinense. Por outro lado, os brasileiros contam 95 golos com a camisola canarinha e a FIFA só reconhece 77, pois, não incluiu os golos apontados contra selecções regionais, ou em jogos entre selecções e clubes.
A discussão seria fastidiosa, se pelo caminho não tropeçássemos com episódios caricatos. É que na sua demanda dos mil golos, Pelé jogou por mais de uma vez como guarda-redes, ou seja, o mais longe possível da baliza contrária. Dir-se-á que poderia ter enchido, facilmente, o saco com auto-golos, mas não era coisa que lhe ficasse bem e ia esbarrar com todo o respeito que o povão tinha por ele.
Nesse amigável com a Costa do Marfim, por exemplo, actuou toda a primeira parte como guarda-redes do Santos. A cena mais fantasmagórica teve lugar em_João Pessoa, no dia 14 de Novembro de 1969. O jogo era, igualmente amigável, com o Botafogo da Paraíba. Num instante, o Santos fez 3-0, com um dos golos a ser marcado por Pelé. Era o golo nº 999. Os espectadores estavam delirantes e não passava despercebido que os botafoguenses facilitavam como podiam, para terem o privilégio de sofrer o milésimo golo de Pelé.