Jornal dos Desportos

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Os reis do Rio de Janeiro

19 de Setembro, 2016

Daniel Dias é o maior nadador paralímpico da história ao chegar ao 24º pódio

Fotografia: AFP

Ontem, caiu o pano dos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro de 2016. Para a história ficaram as recordações dos principais actores. Cada um a seu jeito, levantou a plateia. Foram momentos únicos quer na pista quer no pódio. O sorriso de felicidade repetiram-se várias vezes nos lábios das estrelas. Basta espreitar com mansinho, para se aperceber da presença constante dos ucranianos e australianos no pódio. Se nos Jogos Olímpicos, a conquista de cinco medalhas de ouro por um único atleta é um recorde "ímpar", nos Jogos Paralímpicos, mais de cinco medalhas de ouro são feito bem mais comum.

DANIEL DIAS (BRASIL)
- 9 MEDALHAS

Antes da abertura, veículos internacionais, como os jornais USA Today e The Telegraph e a rede de TV CNN, falaram com o brasileiro sobre a comparação. Era, para quase todo o mundo, a resposta brasileira a Michael Phelps. O que fez nas piscinas foi ainda mais do que o norte-americano. Foram nove medalhas, seis delas individuais. Mais do que ser o maior medalhista dos Jogos do Rio de Janeiro, o brasileiro tornou-se, também, no maior nadador paralímpico da história, ao chegar aos 24 pódios. O antigo recordista era o australiano Matthew Cowdrey, com 23.

MAKSYM KRYPAK
(UCRANIA) - 8 MEDALHAS:

Até Londres'2012, a Ucrânia era uma potência paralímpica graças a um centro de treino na Crimeia. A região, porém, foi ocupada pela Rússia num conflito armado e os atletas paralímpicos estão sem lugar para treinar. Aos 21 anos, Krypak mostrou que os problemas na preparação foram superados. Foi o grande nome da selecção da Ucrânia que terminou em terceiro lugar nos Jogos, com oito medalhas, cinco delas individuais. Krypak compete na classe S10 da natação, para atletas com um dos membros inferiores amputados ou para paralisias cerebrais leves.

IEVGENY BOGODAIKO (UCRANIA) - 8 MEDALHAS
O segundo jovem ucraniano que tomou de assalto a natação dos Jogos Paralímpicos, Bogodaiko conquistou oito medalhas, seis em provas individuais (na classe S7, para atletas com mobilidade reduzida ou amputações mais sérias nas pernas).
Em comum com Krypak, os dois estrearam em eventos internacionais no Rio de Janeiro e aumentaram a surpresa pelas conquistas em conjunto de 16 medalhas. Bogodaiko, aliás, deveria estar um lugar acima na lista, bem ao lado de Daniel Dias com nove medalhas: estava na lista ucraniana de estafeta 4x100m livre 34 pontos, mas acabou fora da escolha final. A Ucrânia ficou com o ouro na prova. Bogodaiko conquistou três medalhas de ouro, três de prata e duas de bronze.

DENYS DUBROV
(UCRÂNIA) - 8 MEDALHAS

A completar o trio de ucranianos com oito medalhas da natação, Dubrov é o único que chegou aos Jogos conhecido pelo universo paralímpico. Em 2015, ganhou duas provas (100m borboleta e 200m medley) no Mundial de Glasgow e já era favorito. Aos 27 anos, é o segundo nome da Ucrânia na classe S10 – a mesma de Krypak. Dubrov, porém, foi o único do clube das oito medalhas que disputou uma prova no Rio'2016 e saiu sem medalha: foi quarto colocado nos 100m livre. Conquistou três medalhas de ouro, três de prata e duas de bronze.

IHAR BOKI (BIELORRUSIA) - 7 MEDALHAS
Se Daniel Dias é o atleta com mais medalhas dos Jogos Paralímpicos, o posto de maior vencedor é de Boki. Foram seis ouros (além de um bronze), sempre em provas individuais. Aos 22 anos, é a segunda participação nesse evento em que o nadador brilha. Em Londres'2012, foram seis medalhas e cinco ouros. O bielorusso compete na classe S13, para deficientes visuais. É a classe de numeração mais alta, que aceita atletas que tem alguma visão, mas são considerados legalmente cegos. Boki teve oportunidades de classificação para os Jogos Olímpicos: em 2015, foi o mais rápido do seu país nos 200m e 400m livre, numa lista que inclui atletas sem deficiência. No Rio de Janeiro, conquistou oito medalhas de ouro e uma bronze.

LAKEISHA PATTERSON (AUSTRALIA) - 6 MEDALHAS

A primeira mulher da lista de maiores medalhistas, Lakeisha estreou-se nos Jogos Paralímpicos com seis medalhas, o mesmo número de Michael Phelps. Já tinha subido cinco vezes ao pódio no Mundial de 2015, em Glasgow. A australiana nada na classe S8 (os números de 1 a 10 englobam atletas com mobilidade reduzida, com classes mais altas sendo as de menor comprometimento), mas a classificação deve mudar nos próximos anos: além de paralisia cerebral, desenvolveu Mal de Parkinson precoce que está a evoluir. Conquistou duas medalhas de ouro, três de prata e uma de bronze.

ELLIE COLE (AUSTRALIA)
 - 6 MEDALHAS

Aos 24 anos, aposentou-se do desporto em 2012, após seis medalhas nos Jogos de Londres, mas voltou atrás. “Em 2013, operei os dois ombros e o médico disse que nunca mais poderia nadar. Essa ideia fez-me perceber que tenho muita sorte de poder competir. Por isso, fiz de tudo para voltar”, contou. A volta não poderia ser melhor, com o melhor desempenho da delegação australiana nos Jogos (ao lado de Lakeisha Patterson), com seis medalhas, duas de ouro, três de prata e uma de bronze.

WENPAN HUAN (CHINA)
 - 6 MEDALHAS

Nenhum país é tão forte nos Jogos Paralímpicos quanto a China, mas só um chinês aparece na lista de maiores vencedores do Rio'2016. Na natação, o motivo é simples: os chineses optaram por mandar muito mais especialistas (atletas que competem em provas específicas) do que super-medalhistas. Huan, de 21 anos, foi uma das poucas excepções. Desconhecido antes do evento, ganhou cinco ouros com direito a recorde mundial. O nadador tem paralisia cerebral e compete na classe S3. Conquistou também uma de prata.

JESSICA LONG (EUA)
 - 6 MEDALHAS

Aos 24 anos, Jessica chegou aos Jogos com 12 ouros olímpicos e 17 medalhas no total. Deixou o Rio de Janeiro com seis medalhas, mas longe da nadadora que dominou os pódios em Londres'2012 ou Beijing'2008. Nadadora da classe S8, nasceu na Rússia sem a fíbula, calcanhares e tornozelos. Por causa disso, foi deixada num orfanato e adoptada por um casal norte-americano. No Rio de Janeiro, conquistou uma medalha de ouro, três de prata e duas de bronze.

TATYANA MCFADDEN (EUA) - 5 MEDALHAS
Tatyana tem uma medalha a menos do que Phelps ganhou no Rio de Janeiro. É uma das maiores maratonistas de cadeira de rodas da história: foi a primeira atleta, incluindo corredores sem deficiência, a ganhar as quatro grandes maratonas do planeta (Nova Iorque, Boston, Chicago e Londres) no mesmo ano. Conquistou quatro medalhas de ouro e uma de prata.

PRESIDÊNCIA DO APC

Angolano anuncia candidatura 

O presidente do Comité Paralímpico Africano, o angolano Leonel da Rocha Pinto, vai recandidatar-se para mais um mandato à frente da organização continental. O facto foi anunciado durante a Assembleia Ordinária do APC realizada no dia 14, à margem dos XV Jogos Paralímpicos que terminaram ontem no Rio de Janeiro.

No fórum, assistido por 32 representantes dos 44 países participantes do evento, decidiu-se pela realização da Assembleia  Eleitoral em Fevereiro de 2017, altura em que vai ser feita a formalização da intenção do também presidente do Comité Paralímpico Angolano (CPA). Numa candidatura em aberto, Luanda, a capital de Angola, surgiu como principal palco do conclave por ausência de outro estado interessado.

A reunião do Rio abordou pontos como: a comunicação, Jogos Africanos, competições regionais, Jogos Paralímpicos, além de relatos sobre as experiências de membros de Comités Paralímpicos Nacionais com resultados devido ao apoio dos respectivos Governos.Leonel da Rocha Pinto foi eleito em 2010 para o cargo em substituição do egípcio Nabil Salem. Entre as acções destaca-se a melhoria da comunicação,entre os membros, aproximação com os Governos e instituições internacionais como CSSA) e UNESCO.

A transferência da sede do Cairo para Luanda, bem como as conversações com os Governos para a ratificação e cumprimento do estipulado na Convenção das Nações Unidas que reconhece a dignidade e o valor inerentes e os direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana como o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo constam também do programa de acção.
O CPA foi fundado em 1987 na Argélia com a designação de Confederação Africana de Desportos Para Deficientes (ASCOD).

NO PÓDIO
Checo propõe casamento


David Drahoninsky, da República Checa, vai voltar dos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro com uma medalha de prata conquistado no tiro com arco W1 e uma noiva contrariada. Na última sexta-feira, logo após perder a final para o britânico John Walker, quebrou o protocolo do Rio'2016, pegou um microfone e fez a proposta: “Lida, não ganhei o ouro. Desculpe. Mesmo assim, você quer casar-se comigo?”

Lida, no caso, é Lida Fikarova, a namorada, que estava nas bancadas e desceu quando foi chamada. Quando Drahoninsky mostrou o anel de noivado, pareceu surpresa. Mas, na verdade, já estava à espera de algo assim.

“Ele queria surpreender-me, mas nas entrevistas falou que iria fazer isso. Li na internet”, contou ela, a rir. E a reposta foi a mais alegre: “Disse sim. Mas aviso: não gosto desse tipo de atenção”.

Bem-humorado, o noivo medalhista olímpico pediu desculpas.
“Sou um cara sortudo. A claque aqui foi fantástica, consegui a medalha e ainda fiz uma surpresa para a minha namorada.
O problema é que não gosta muito de surpresas. Os cinco dias que ainda vou ficar no Rio de Janeiro devem ser os últimos da minha vida. Porque, quando voltarmos para casa, vai matar-me”, disse o medalhista.

O tcheco chegou aos Jogos como o favorito à medalha de ouro. Era o actual campeão mundial, número 1 do mundo na sua classe e dono da melhor média de pontos por flecha entre todos os inscritos nos Jogos. Mesmo assim, caiu na final. Foi a sua terceira medalha paralímpica. Antes, foi ouro em Beijing'2008 e prata em Londres'2012.

A história de como o arqueiro chegou aos Jogos Paralímpicos é inusitada. Quando tinha 16 anos, era atleta do taekwondo. Um dia, após um treino particularmente difícil, foi dormir cansado. O problema é que é sonâmbulo. Naquela noite, a porta da sacada estava aberta. David caiu do terceiro andar e fracturou uma vértebra, perdeu o movimento das pernas e comprometeu a mobilidade do braço esquerdo; cerca de 70% dos músculos do corpo foram afectados.

GUIA SEM MEDALHA
Brasileiro protesta no pódio


A cerimónia de prémio no Engenhão foi marcada por uma polémica a envolver o brasileiro Felipe Gomes. Após ficar em segundo lugar nos 400 metros da classe T11 (cego total), o velocista realizou um protesto no pódio pelo facto do seu guia substituto Wendel de Souza Silva não receber medalha também. Visivelmente irritado, Felipe recebeu a prata e guardou-a no bolso. Na zona mista, reclamou.

“Na verdade, não fiquei zangado por ter ganho a prata. Fiquei chateado por Comité Paralímpico Internacional entender que corri sozinho. Por qual motivo o Wendel (guia) entrou comigo na final e na hora de ganhar a medalha só eu a ganho?", questionou.
"Não sou capaz de correr 10 metros sozinho, mas não entenderam assim. Não sei porque o meu guia não ganhou a medalha. Fiquei extremamente zangado e guardei a medalha”, declarou.

Felipe Gomes substituiu o seu guia para a final já que o oficial, Jonas Alexandre, sofreu uma lesão na coxa esquerda. O curioso é que Felipe e Wendel nunca haviam treinado juntos e nem sequer se conheciam pessoalmente.

"Nunca tivemos contacto nem pessoal e nem profissional. Foi da vontade de Deus. Deus tocou no coração do Felipe e do seu treinador e escolheu-me. Em 48 horas, fechamos a parceria e fizemos a melhor marca pessoal. Saio daqui muito satisfeito. O Felipe já estava preparado", declarou Wendel.