Jornal dos Desportos

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Paulo Silva est agastado com a Fatiro

Gauncio Hamelay no Lubango - 15 de Abril, 2019

Paulo Silva � o primeiro angolano a participar de um torneio de tiro dos Jogos Ol�mpicos

Fotografia: Edi��es Novembro

A ausência de atiradores nacionais nas provas internacionais está a deixar inquietante Paulo Silva. O atirador do 1º de Agosto está apreensivo com a postura da Federação Angolana de Tiro num momento de realizações de torneios qualificativos aos Jogos Olímpicos de Tóquio'2020. A não inscrição de atletas angolanos nas provas disputadas em Dubai, México e Coreia do Sul aumentam a descrença na gestão da instituição.Em declarações ao Jornal dos Desportos, Paulo Silva sustentou que a Federação Angolana tem a obrigação de tentar estar representada em Tóquio'2020 por tiro ser um desporto olímpico. 

"Estou a olhar a situação com muita apreensão. Como atleta olímpico, estou preocupado, muito mais depois de representar o país nos últimos Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro'2016. A Federação tem a obrigação de tentar estar representada em Tóquio'2020", disse.O veterano atleta reconhece que obter a qualificação não é fácil, mas incentiva a direcção a disputar as provas qualificativas. Paulo Silva sustenta que o país já teve várias participações nos eventos internacionais.

"É uma posição que já tinha sido conquistada. Portanto, custa crer que as pessoas nada fazem durante o período de pré-olímpico. Os torneios qualificativos estão acabar e não se tenta participar de uma possível qualificação", reiterou.O atleta nacional mais titulado do tiro aos pratos em fosso olímpico recordou que recentemente foi realizada uma das provas espectaculares em Dubai, palco que testemunhou o seu recorde para Angola e obteve os mínimos olímpicos que lhe valeram o will card para marcar presença nos Jogos Olímpicos de Rio'2016. A ausência de atiradores nacionais deixaram-no "entristecido".

Paulo Silva assegura que brevemente vão ser realizadas duas provas qualificativas na Finlândia e noutro país a designar. Para o atleta, "até agora, não há interesse da Federação Angolana nem a vontade de participar dos eventos. Simplesmente, deixou expirar os prazos de inscrições de atletas".

O atirador do 1º de Agosto revelou que desistiu de participar de "uma prova importante" no ano passado, "custeada com recursos financeiros próprios", porque "houve a falta de interesse total da Federação Angolana"."Nas provas internacionais, a nossa participação passa pela Federação Angolana de Tiro, porque é a instituição habilitada a fazer a inscrição. Deve ter as quotas pagas, assim como outras despesas inerentes à prova. Os prazos de inscrição chegaram ao fim e tive de desistir", esclareceu.

Paulo Silva suspeita que "possivelmente os atletas vão ser mandados ao Campeonato Africano sem a preparação adequada e sem o estágio". E se for a estratégia encontrada para se obter a qualificação, "é a mais difícil" de chegar ao Tóquio'2020. "Só o campeão africano está habilitado automaticamente ao torneio" dos Jogos Olímpicos. Nesse quesito, os egípcios são o topo mundial e ganhá-los "é impossível"."Não há trabalho para a selecção nacional nesse momento e quer competir com os melhores atiradores do mundo?", questiona o atirador.

Com o actual rumo dado ao tiro nacional, Paulo Silva sente nostalgia das direcções anteriores da Federação. O descontentamento leva-o a enaltecer as equipas federativas que conseguiram elevar Angola à potência na África Austral e entre as melhores de África.O atirador do 1º de Agosto tem na sua galeria os troféus de campeão africano em Argel (Jogos Panafricanos), vencedor do Grande Prémio da África, bicampeão da África Austral e vice-campeão da região. O sucesso resultou das participações regulares nos eventos internacionais ao lado dos melhores do mundo.

"Conquistei prémios na Namíbia. Como eu, foram outros atiradores nacionais com uma boa evolução. Se não houver interesse, mesmo que os patrocinadores cedam dinheiros, que a Federação diz não ter, é desmotivante a postura da instituição para os melhores atiradores", criticou.

ESTRATÉGIA
Atirador defende mudança na dinâmica da instituição

O tiro nacional atravessa um momento menos bom na sua organização. Paulo Silva defende a implementação de outra dinâmica nas acções para se ultrapassar a situação. O atirador é apologista ao desenvolvimento com menos burocracia na gestão da modalidade.
O atleta olímpico revelou que internamente as coisas estão descomungadas. As competições domésticas não cumprem o calendário previamente aprovado para a época 2019 e "são realizadas assembleias para se tomar decisões completamente descabidas" como "a simples desclassificação de meia-dúzia de atiradores na primeira prova do ano desportivo". 

Por outro lado, as alterações entram em vigor de imediato sem obedecer ao rigor e ao princípio de cordialidade."As coisas não estão bem. Estou na modalidade há muito tempo e não vejo o tiro nacional com uma perspectiva muito positiva", disse.A época desportiva do fosso olímpico começou com a disputa do Grande Prémio Força Aérea Nacional, em Luanda. A segunda prova do ano seria o Grande Prémio Polícia Nacional, mas por razões alheias à organização está adiado para tempo a determinar. 

A Federação e o Interclube, responsável pela realização do evento, bem como outros agentes não encontram consensos na definição de datas. Dentro de duas semanas, a província de Benguela acolhe a terceira prova do calendário."A segunda prova não se realizou por causa da inundação do campo de tiro do Interclube. Apenas uma prova foi disputada desde a abertura da época. A terceira está prevista para Maio próximo em Benguela. O calendário de competições contempla apenas sete provas em 2019 contra as 10 do ano anterior. Com a alteração feita, está reduzida a apenas seis provas, o que contribui negativamente ao desenvolvimento do tiro nacional", disse.

Paulo Silva sustenta que a regressão do tiro nacional é sustentada também pela ausência nas provas internacionais."A partir do momento em que a selecção nacional e os melhores atiradores não disputam provas no exterior do país com os mais fortes, estamos a regredir aos níveis de há 30 anos. Eu, que pratico o tiro há muito tempo, e os antigos dirigentes da Federação defendemos que os nossos melhores competissem nos variados palcos. A estratégia deu frutos ao país", recordou. 
             
PROJECTO DESPORTIVO
Massificação ganha corpo na Huíla

Preocupado com o futuro do tiro desportivo nacional, Paulo Silva lidera um projecto de massificação na província da Huíla. O atleta do 1º de Agosto anunciou que a descoberta de novos talentos conta com o patrocínio da empresa asseguradora nacional Nossa Seguros. Na primeira fase, trabalha com quatro atletas com idades entre os quatro e os 22 anos.

"O mérito é meu e da patrocinadora, a Nossa Seguros. Os miúdos estão entusiasmados", disse.Paulo Silva sustenta que "embora as verbas sejam insuficientes para a realização de grandes treinos, o gesto deveria ter um tratamento especial na política de fomento desportivo". As entidades responsáveis deviam encarar o grupo como uma potencial selecção nacional de juniores.

"Assim seria a mais-valia para o desporto nacional. É através dessas selecções que potenciaríamos as de seniores. As entidades afins as levariam a participar das provas internacionais dos escalões de formação como incentivo e demonstrações das nossas potencialidades futuras", esclareceu.
O responsável de massificação do tiro asseverou que deixar a expansão e o fomento do desporto interno e local às mãos dos patrocinadores não é a política ideal para o desenvolvimento. Os empresários estão limitados no novo contexto económico e financeiro do país. Cabe ao Estado definir as políticas concordantes com o crescimento desportivo.