Jornal dos Desportos

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Perdedora dolorida

05 de Janeiro, 2017

Ronda Rousey perdeu pela segunda vez na carreira.

Fotografia: AFP

Uma semana depois, ainda estão as lembranças do final do ano 2016, que giram à volta do octógono que acolheu a estrela Ronda Rousey e a aspirante Amanda Nunes. A ícone norte-americana e mundial da UFC deixou a Arena como entrou: rápida e calada. A dor foi forte que remete os interessados na busca de explicação.

O que se desconhece é se na próxima aparição em talk show, o capítulo da carreira de Ronda vai ser escrito. Ronda Rousey teve um regresso amargo no octógono. A carreira no UFC parece ter terminado em questão de segundos. A norte-americana construiu a reputação no primeiro round diante de oponentes inconscientes que tinha ganho por K.O.

Antes da sua primeira derrota na carreira diante de Holly Holm, em Novembro de 2015, acabou com cada uma das suas quatro adversárias em 66 segundos ou menos. Onze das 15 vitórias no MMA (profissional e amador) aconteceram no primeiro minuto do primeiro round.

No dia 30 de Dezembro de 2016, os papéis inverteram-se. Amanda Nunes partiu para cima de Ronda tão logo começou a luta. A brasileira soltou golpes atrás de golpes antes do árbitro Herb Dean entrar em cena, e parar o combate, após 48 segundos. Foi um fim triste de uma carreira surpreendente da lutadora que podia aposentar-se como uma das maiores estrelas na história de MMA, e figura mais transformadora da luta feminina.

Ronda parecia não estar familiarizada com o octógono, seguia o roteiro que desenhou durante a semana que antecedeu a luta quando continuou o seu boicote aos meios de comunicação, e recusou-se a conversar com repórteres de MMA, que a cobriam quando ninguém sabia quem era.

A atitude de Ronda durante a semana da luta, parecia mais fabricada do que focada. Não parecia ser a mesma. Parecia estar a agir como os colegas esperavam, muito mais do que a pessoa que o mundo conheceu e ama nos últimos cinco anos.

Fama, pressão, e altas expectativas podem mudar as pessoas. E, a transformação de Ronda de campeã invencível, a perdedora dolorida foi talvez, o aspecto mais triste do que pode ser o capítulo final da carreira no MMA. As derrotas são inevitáveis no UFC, mas como uma campeã lida com essa perda, é muitas vezes mais reveladora do que como lidar com as vitórias.

Não era assim que os sonhos de Ronda deviam ser cumpridos. Novamente, o que Ronda se tornou não era realmente um sonho. Era um sub -produto do sucesso que sonhava  ter no octógono. Tornar-se uma marca global. Ganhar patrocínios de todos os lados: desde Reebok a Pantene. Estar em grandes filmes e ser a host do "Saturday Night Live" não estavam realmente no seu radar quando morava num carro há oito anos.

O objectivo de Rousey no ano passado era aposentar-se invicta, fazer uma transição perfeita para o próximo capítulo da sua vida, onde ia tornar-se uma actriz que rendesse as maiores bilheteiras do mundo.

Jamais vai aposentar-se invicta. O sonho terminou há 13 meses, quando Holm chocou o mundo com um K.O. no segundo round ,na Austrália. A derrota foi tão devastadora e embaraçosa para Ronda que revelou pensar mesmo em suicídio. Pensou que ela não era nada; que ninguém se importava com ela, por perder e era um fracasso.

É natural sentir que a sua auto-estima estivesse ligada ao seu sucesso no octógono, quando é chamada "a mulher mais malvada do planeta". A carreira de Ronda no octógono pode parecer estar acabado, mas não vai desaparecer do centro das atenções ,se optar por aposentar-se.

Vai fazer a transição para uma carreira de actriz e pode até mesmo  reavivar a sua personagem invencível na WWE e ser a grande manchete da equipa, como fez no Wrestle Mania, ao invés de continuar nos pay-per-views do UFC. Ronda Rousey ainda é uma atracção. O UFC 207 atraiu uma multidão de 18.533 pessoas na Arena T-Mobile, o maior público que já testemunhou um card do evento em Las Vegas.

APÓS MASSACRE
Ronda Rousey recebe suspensão médica

Após ser derrotada pela brasileira Amanda Nunes, no UFC 207, Ronda Rousey recebeu 45 dias de suspensão médica pela Comissão Atlética de Nevada. A norte-americana fica sem contacto com os treinos, durante 30 dias, por precaução. Ronda Rousey foi massacrada pela brasileira em 48 segundos. Com a vitória devastadora, Amanda Nunes manteve o cinturão do peso -galo do UFC. Após o revés, Ronda declarou que precisa ‘ter algum tempo para reflectir e pensar sobre o futuro'.

Outros dez atletas que participaram do UFC 207 também receberam suspensões médicas pela Comissão. Após perder o cinturão para Cody Garbrandt, Dominick Cruz foi suspenso por 45 dias, também sem entrar em contacto com os treinos, por 30 dias. Quanto a Cody Garbrandt teve uma suspensão de um mês.

Os brasileiros Alex Cowboy e John Lineker ficam mais tempo afastados, com suspensões de 180 dias cada. Lista completa de suspensões médicas: Ronda Rousey suspensa por 45 dias, sem contacto com treinos por 30 dias por precaução; Cody Garbrandt suspenso por 30 dias, sem contacto com treinos por 21 dias por precaução; Dominick Cruz suspenso por 45 dias, sem contacto com treinos por 30 dias devido à laceração da sobrancelha esquerda; John Lineker suspenso por 180 dias ou até que o seu maxilar fracturado esteja recuperado e dispensado por um médico; independentemente, suspenso por 30 dias, sem contacto com treinos por 21 dias por precaução.

Ray Borg suspenso por 180 dias ou até que o seu tornozelo esquerdo esteja recuperado e libertado por um médico; independentemente, suspenso por 30 dias, sem contacto com treinos por 21 dias por precaução; Louis Smolka suspenso por 30 dias devido a lacerações perto dos olhos; Johny Hendricks suspenso por 45 dias, sem contacto com treinos por 30 dias devido à laceração do couro cabeludo; Marvin Vettori suspenso por 21 dias, sem contacto com treinos por 14 dias por precaução.

Mike Pyle suspenso por 60 dias, sem contacto com treinos por 45 dias por precaução; Niko Price suspenso por 180 dias ou até que o seu dedo principal do pé direito esteja recuperado e liberado por um médico; independentemente, suspenso por 30 dias, sem contacto com treinos por 21 dias por precaução; Alex Cowboy suspenso por 180 dias ou até que o nariz quebrado esteja recuperado e liberado por um médico; independentemente, suspenso por 60 dias, sem contato com treinos por 45 dias por precaução.

PESO-GALO DO UFC
Números de Amanda
apontam a agressão


Em 48 segundos, 47 golpes, 27 certos, 23 no rosto. Foi assim que Amanda Nunes desenhou um verdadeiro massacre para manter o cinturão do peso -galo do UFC. Foi esse o tempo que Ronda Rousey viu o seu regresso ao octógono tornar-se um pesadelo e transformar o futuro em incerteza.

A rapidez do combate principal do UFC 207 chama à atenção em vários aspectos. Nunca nenhuma lutadora conseguiu vencer por K.O. Ronda em tão pouco tempo. A sua última derrota, na última aparição, em 15 de Novembro de 2015, aconteceu aos 59 segundos do segundo round, num pontapé absurdo de Holly Holm.

Mas outros aspectos mostraram-se fundamentais: a velocidade dos golpes é algo que Amanda pode orgulhar-se. Por outro lado, a norte-americana, que sempre brilhou nas finalizações, não conseguiu levar a brasileira para o solo e mostrou-se das mais apáticas no octógono.

O placar é avassalador: 27 - 7. De acordo com o site FightMetric, Amanda acertou 27 dos seus 47 golpes (praticamente 1 por segundo) à adversária, um aproveitamento de 57 por cento. Dos 27, 23, ou 85 por cento, foram directos à cabeça da desafiante.
Ronda acertou a brasileira sete vezes nas 14 tentativas. Amanda chegou a 14 vitórias, dos quais 10 por K.O. e 4 derrotas na sua carreira como profissional.

No UFC, são sete triunfos e um revés, contra Cat Zingano, em 27 de Setembro de 2014. Depois da derrota, foram cinco vitórias consecutivas. A “Leoa” baiana também notabilizou-se por não ficar muito tempo em acção: 11 das 14 vitórias foram no primeiro round, 6 delas no UFC. Ao derrubar Ronda, tornou-se a atleta feminina que mais venceu lutas no primeiro round, na história, uma à frente da norte-americana.

O K.O. confirmou uma tendência no peso -galo feminino. Todas as 10 disputas pelo cinturão na história da categoria, terminaram antes do tempo, seja por K.O.: 5 ou por finalização, 5 outras . A luta é a continuação de uma tendência descendente na carreira de Ronda. Também de acordo com Fight Metric, a maioria dos seus números nas duas últimas lutas, as derrotas para Holm e Amanda destaparam uma queda em relação às seis vitórias anteriores.

Nas primeiras seis lutas da carreira, Ronda conseguiu 12 takedowns em 17 tentativas de levar as rivais  ao chão. As seis vitórias foram por submissão, em nove tentativas, 66,6 por cento de aproveitamento. Nas últimas duas lutas, teve apenas um takedown em duas tentativas.

No jogo de pés, os números são ainda mais evidentes. Mesmo sem ser a sua especialidade, somadas as primeiras seis lutas pelo UFC, Ronda tinha o placar favorável de 42 golpes certos contra as adversárias. Com Holm e Amanda, a história mudou. O placar ficou desfavorável, com a ex-campeã a ser atingida 38 vezes.