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Progresso martiriza ex atleta

Silva Cacuti - 21 de Janeiro, 2017

Sem vínculo com o Progresso do Sambizanga e sem salários, Mpay Sidony, vive na

Fotografia: Jornal dos Desportos

Tudo começou em Janeiro de 2015, quando depois de baixar um lugar na classificação do campeonato nacional sénior feminino e conseguir o terceiro lugar na Taça dos Clubes Campeões, a direcção do Progresso do Sambizanga lançou-se, de corpo, para uma campanha que visava o topo do andebol feminino nacional e continental.

"O nosso objectivo é entramos na luta para melhorarmos as classificações do ano passado. Achamos que o quarto lugar do campeonato nacional e terceiro do africano já não são compatíveis com o investimento feito pela nossa equipa", dizia na altura, José Carvalho, director-geral da agremiação sambila.

A equipa foi às compras e numa só sentada apresentou cinco internacionais angolanas como reforços e juntou a pivot camaronesa Mpay Sinkot Sidonie, que tinha sido observada durante a participação na Taça dos Campeões em que jogou pelo Abo Sport do Congo.

A atleta que ajudou a selecção dos Camarões a jogar, diante de Angola, a final do torneio dos Jogos Africanos de Brazzaville, ficou ligada ao clube por dois anos com um contrato que estabelece um valor de salário, em dólares, outro, em kwanzas, para despesas de alimentação, estando o alojamento sob responsabilidade do clube.

A parte que quisesse desfazer o vínculo devia, reza o contrato, comunicar com certo tempo de antecedência, e o clube, fez este procedimento. A atleta é livre.

Apesar de ter convites para França, onde surgiu o interesse do Nantes e o Abo Sport do Congo, a atleta ainda está no país e aguarda que lhe sejam pagos dois meses de salário em atraso.

Sem vínculo com o Progresso do Sambizanga e sem salários, Mpay Sidony, vive na "rua da amargura" e pede que lhe seja pago o que é devido.


BOM INÍCIO
Um corredor longo e estreito, cerca 10 de metros de comprimento contra pouco mais de metro e meio de largura, leva à entrada do anexo onde mora a andebolista internacional camaronesa Mpay Sidony, na Rua de Benguela, no bairro São Paulo.

Com esforço, um sorriso surgiu e a textura triste do rosto da andebolista mudou para revelar a satisfação que tinha em receber-nos
"Entrem", disse enquanto recolhia vasilhas de cremes que, cortados, denunciam a carência de cosméticos na casa. Desarrumada, só percebemos as razões quando Sidony nos disse que teve de mandar embora a empregada porque não tinha comida, nem dinheiro para pagar.

"Quando receber vou lhe ligar para vir buscar o dinheiro, conforme estou, se não tenho dinheiro nem água como vou ter empregada?", questionou sem precisar resposta. Num canto, na parte que corresponde à sala, estão as malas com os seus pertences. Vive com tudo arrumado e pronta a sair. A geleira, funcionava, para manter em pedra duas garrafas de água de torneira no congelador. Não guardava frutas, embutidos, nada! Na cozinha também não havia vestígios de comida. Dizem os nutricionistas que manter uma alimentação adequada antes, durante e após o treinamento é uma das chaves para o sucesso nas competições, porque ela afecta o desempenho físico.

"Os meus vizinhos sabem que estou nesta condição e alguns me ajudam com água para beber e às vezes comida, porque o dinheiro que recebo para alimentação antes dava para alguma coisa, mas agora não dá para comprar quase nada", disse.

Sidony, mãe de um rapaz de oito, que diz ser para quem se esforça trabalhando, conta que tem dois meses de salário por receber e um mês da prestação para alimentos (20 mil kwanzas).

"As transferências estão difíceis, às vezes tenho que receber em kwanzas para adquirir dólares na rua para manter o meu filho".

Mais para o interior, a casa de banho é repugnante pela banheira encardida, arrepiante pela sanita entupida. "Está assim há cerca de sete meses, já falei com a pessoa responsável no clube e sempre me diz que vai tratar, até hoje. Eu sou mulher e viver numa casa nestas condições com risco de infecções...", lágrimas interrompem a sua reflexão.

A camaronesa revelou que quase toda a direcção sabia da sua situação e que ninguém resolvia o assunto.  "Falava com um e me passava para outro, não atendiam o meu telefone", lamentou.

A amarga experiência de Sidony dos últimos dias não desvaloriza a aprendizagem e enriquecimento do perfil de andebolista. "Voltaria a jogar em Angola, mas nunca mais no Progresso. Angola é o melhor país do andebol africano e estes dois anos que joguei aqui me serviram de grande aprendizagem, enriqueceram o meu currículo e é por isso que já tenho propostas", revel-ou.

Contactado, na quinta-feira, José Faria, da direcção-geral do clube disse que o assunto da atleta estava a ser tratado e que a questão do atraso salarial era geral a nível do clube.


CONGO BRAZZAVILLE
Abo Sport interessado
na pivot Mpay Sidony


A pivot camaronesa Mpay Sidony que representou o Progresso do Sambizanga, nos últimos dois anos, pode assinar pelo Abo-Sport do Congo. Segundo apuramos, a equipa angolana pagou, ontem, os dois meses de salários atrasados da atleta que segue hoje para Brazzaville, a fim de analisar a proposta do campeão congolês.

"Estou  expectante, o que me aconteceu aqui fica para trás, sou uma profissional e vou seguir o meu caminho. Deixo para trás uma parte importante da minha carreira, nestes dois anos aprendi muito, joguei ao lado de grandes nomes do andebol africano, fiz amizades e gostaria de voltar um dia a Angola como atleta, mas, claro que noutro clube, nunca no Progresso", disse.

Mpay acredita que as coisas podiam ter corrido melhor para o Progresso do Sambizanga, mas "quando tiraram o treinador Armando Gumbe da equipa, sem perceberem, estragaram o ambiente de trabalho que se tinha criado e ficava difícil alcançar os objectivos".

Um dos momentos altos da sua carreira, conta, foi jogar a final do torneio dos jogos africanos em Brazzaville, diante de Angola.

"Depois surgiram problemas no clube, deixei de fazer parte das opções do treinador e não pude fazer parte do campeonato africano em Angola, mas vou trabalhar para ver se ganho confiança do nosso seleccionador e tentar estar no grupo do mundial", disse.