Jornal dos Desportos

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Revelaes ofuscam brilho do tnis

24 de Janeiro, 2016

Djokovic foi lembrado a respeito do facto do Open da Austrlia ser patrocinado por uma das principais agncias de apostas da Europa

Fotografia: APF

O sérvio Novak Djokovic tem estado a dar cartas  no Open da Austrália 2016. No entanto, a performance em quadra ficou em segundo plano diante das denúncias feitas por BBC e BuzzFeed a respeito de acerto de resultados no ténis mundial nos últimos dez anos. E até mesmo Djoko admitiu já ter sido alvo de propostas.

"Não se aproximaram de mim diretamente. Eu fui contatado por pessoas que trabalhavam comigo na época", disse o sérvio à imprensa na Austrália. "É claro que recusamos. Aquilo nem chegou a mim. O cara que tentou falar comigo não falou diretamente", assegurou.

Segundo o sérvio, a proposta para entregar o jogo seria de USD 800 mil euros. O tenista, no entanto, não afirmou quando foi sondado a respeito da oferta. "Nos últimos seis, sete anos, não ouvi nada parecido. Pessoalmente, nunca fui abordado directamente, então não tenho mais nada a dizer a respeito. Aquilo fez-me sentir mal, porque não quero estar ligado a este tipo de coisa. Há quem chame isso de oportunidade; para mim, é um acto de anti-desportivismo, um crime no desporto, sinceramente", criticou.

Em conferência de imprensa, o líder do ranking da ATP fez duras críticas à acção de apostadores em competições. "Não há espaço para isso em nenhum desporto, especialmente no ténis", afirmou. "Sempre me ensinaram e sempre estive rodeado por gente que respeita os valores do desporto.

Foi assim que cresci. Felizmente, para mim, não preciso me envolver com estas situações", acrescentou.

Nas suas declarações, Djokovic foi lembrado a respeito do facto de o Open da Austrália 2016 ser patrocinado pela William Hill, uma das principais agências de apostas da Europa. Entretanto, evitou fazer uma crítica contundente ao parceiro comercial do torneio.

"É uma linha ténue", disse. "Independente de você querer ou não ter companhias de apostas envolvidas em grandes torneios no nosso desporto, é difícil dizer o que é certo e o que é errado", acrescentou, dizendo que ainda não tem que "tomar uma posição clara sobre isso".

Federer reforça coro contra manipuladores

O suíço Roger Federer, que também continua em grande plano na prova, endossou o coro contra as suspeitas de manipulação de resultados. O ex-líder do ranking defendeu um "combate agressivo" ao problema e declarou "não ter simpatia" por quem participa de esquemas.

"Eu gostaria ouvir nomes. Pelo menos seriam coisas concretas, sobre as quais você pode realmente debater. Foi o jogador? A equipa? Um atleta de simples ou de duplas? Em qual Slam? É absurdo responder sobre algo que é pura especulação. É muito sério e importante manter a identidade do nosso desporto. Não há nenhum espaço para esse tipo de comportamento e eu não tenho simpatia por essas pessoas", afirmou.


POLÉMICA
Televisão inglesa
denuncia escândalo


Nos últimos dez anos, pelo menos 16 jogadores entre os 50 primeiros do ranking da ATP podem ter protagonizado partidas arranjadas no circuito mundial, incluindo em Wimbledon e Roland Garros. A denúncia foi feita pela rede de TV britânica BBC, em investigação conjunta com o site BuzzFeed News. Entre os tenistas responsáveis por violar a Unidade de Integridade do Ténis (TIU, em inglês, uma espécie de regulamento da modalidade), estariam alguns vencedores de Grand Slam. Todos eles, segundo a BBC, continuaram a jogar.

À emissora, o presidente da ATP, Chris Kermode, assegurou que nenhuma evidência de resultado arranjado "foi ignorada por qualquer razão". Mesmo assim, diante das novas acusações, prometeu que a entidade irá "investigar qualquer nova informação".

O principal nome ligado às denúncias é o do russo Nikolay Davydenko, ex-número 3 do mundo. Aposentado desde 2014, Davydenko teria abandonado de propósito uma partida contra o argentino Martin Vassallo Arguello no torneio de Sopot (Polónia) em 2007 para beneficiar apostadores. Os dois foram inocentados de acusações iniciais, mas a investigação do caso levou a um caso envolvendo outros jogadores entre os principais nomes da ATP.

Segundo a BBC, os casos envolvem apostas oriundas da Rússia e Itália e incluiriam três partidas da chave principal de Wimbledon, embora as edições do torneio não sejam reveladas.

Também de acordo com a emissora britânica, autoridades do ténis mundial receberam um relatório que apontava o envolvimento de 28 atletas da modalidade em casos suspeitos, mas as descobertas não foram levadas adiante.

A TIU introduziu uma nova política anticorrupção em 2009, mas vetou na época investigações a períodos anteriores. "Nenhuma nova investigação a respeito dos jogadores mencionados no relatório de 2008 foi aberta", declarou um porta-voz da Unidade.

Nos anos seguintes, também de acordo com a BBC, "repetidos alertas foram enviados à TIU sobre um terço destes jogadores, mas nenhum deles foi sancionado".

Mark Phillips, um dos investigadores responsáveis por averiguar a partida Davydenko x Vassallo Arguello de 2007, afirmou que "há um núcleo de cerca de 10 jogadores que acreditamos que estão na raiz do problema". Phillips não cita nomes dos potenciais envolvidos, mas assegura que o material colectado é o mais forte que já viu em mais de 20 anos. "As evidências eram muito fortes", assegurou.

Os veículos responsáveis pela denúncia asseguraram contar com os nomes dos tenistas envolvidos nas investigações, – muitos deles estariam "no radar das autoridades do ténis por envolvimento em partidas suspeitas desde 2003". Os atletas tiveram as suas identidades preservadas, mas a BBC diz que oito deles estão no Open da Austrália 2016.


REVELAÇÃO
Forjadores e apostadores existem e andam aí


A informação divulgada pela BBC de manipulação de resultados no ténis nos últimos dez anos agitou o início do Open da Austrália. E para o brasileiro Bruno Soares o problema que mais uma vez veio à tona não é uma novidade para o desporto.

"A grande verdade é que não é de hoje que todo mundo sabe que existem suspeitas e tem gente envolvida com isso, mas se não citar nomes dos envolvidos fica difícil falar algo. Mas para mim, é algo bem simples. Se descobrir quem é, tem de punir", afirmou o duplista brasileiro.

Na sua reportagem, a BBC preferiu não citar nomes por não poder comprovar que os tenistas investigados pela Unidade de Integridade do Ténis (TIU, na sigla em inglês) realmente estiveram envolvidos na manipulação de resultados. São 16 jogadores que teriam participado do esquema, incluindo vencedores de Grand Slams, mas puderam continuar a competir mesmo após descobertos.

Em conferência de imprensa em Melbourne, o presidente da ATP, Chris Kermode, negou que a entidade tenha escondido estes casos e afirmou que pretende investigar qualquer denúncia que surja.

"Estas pessoas (que arranjam resultados) estão sempre aí, correndo atrás de ganhar dinheiro fácil e alguns jogadores acabam cedendo à pressão.

Cabe à TIU investigar. Se tiver prova, tem de suspender", disse Soares. "Este artigo (da BBC) está fazer um auê danado, mas como não citou nome de ninguém, não muda na prática", completou o brasileiro.

O mineiro afirmou também que nunca na sua carreira foi aproximado por alguém com oferta para manipular o resultado de um jogo seu. Líder do ranking mundial, o sérvio Novak Djokovic contou que já recebeu uma oferta de 200 mil euros para entregar uma partida.


CARTA ABERTA
Guga pede punição severa aos implicados identificados


Ex-líder do ranking mundial, Gustavo Kuerten usou o seu perfil no Facebook para falar sobre as suspeitas de manipulação de resultados no ténis divulgadas pela rede britânica BBC e exigiu punição aos envolvidos.

“Pela decência e justiça cultivadas pelo universo do ténis, acredito que sejam casos isolados, em que a punição deve ser severa”, escreveu o ex-jogador.

Guga revelou ainda que ao longo de toda a sua carreira nunca recebeu propostas para entregar uma partida. “Durante toda a minha carreira eu nunca fui assediado, mas o assunto já assombra o ténis há bastante tempo. Para mim, a manipulação de resultados, assim como o doping, representam a corrupção dentro do ambiente desportivo que precisa ser banida”, clamou o ex-tenista.

O brasileiro também defendeu a ATP (Associação dos Tenistas Profissionais) e afirmou que a entidade sempre foi rigorosa no combate à corrupção.

“Nos anos em que eu estive no circuito, a ATP sempre combateu o caso com muita seriedade. O assunto é extremamente preocupante, porque compromete a essência do desporto, a competição limpa, plena, o respeito às regras”, escreveu.