Jornal dos Desportos

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Sayovo fala de projectos desportivos

Augusto Panzo - 20 de Julho, 2019

Antigo internacional angolano est preocupado com a falta de material

Fotografia: Jos Soares | Edies Novembro

José Armando Sayovo é uma figura que dispensa apresentações, devido às performances alcançadas a nível do país, no capítulo desportivo, onde a sua folha de serviços é simplesmente invejável, em função dos títulos conquistados quer a nível nacional, quanto internacional na modalidade do atletismo. Agora no passivo, e com o intuito de deixar o legado aos mais jovens, quer na classe de pessoas deficientes, como na de pessoas convencionais, José Sayovo tem vindo a apostar em várias frentes, com destaque para a filantropia, onde criou a Associação dos Amigos do Sayovo (ADAS), através da qual está a implementar núcleos desportivos, no município de Cacuaco. Isso,  levou o Jornal dos Desportos a manter uma entrevista com o antigo campeão mundial, em que aborda diversos aspectos relacionados com esses projectos.

Jornal dos Desportos: Ouve-se falar muito da existência de núcleos desportivos criados por si,  a nível do município de Cacuaco. Quantos são, exactamente, neste momento?
 José Armando Sayovo: \"Neste preciso momento contamos com dois núcleos, um no Distrito Urbano dos Mulenvos de Baixo, e outro a nível do Ponto 3, na comuna da Funda, uma posição onde, como é sabido, constitui um dos principais centros de acolhimentos dos deficientes de guerra\".

JD: Como lhe surgiu essa ideia?
 JAS:
\"A ideia surgiu do facto de eu ser desportista, em primeiro lugar, e não quero terminar,  no facto de ter sido campeão a todos os níveis,  sem deixar nenhum legado aos outros cidadãos, no futuro. Preciso de deixar um testemunho e para que isso seja possível, é necessário que me empenhe bem nessa causa desportiva, principalmente para com os deficientes, que pertencem à classe que me projectou. Quero procurar captar talentos no seio dessa criançada e juventude dos arredores de Luanda, onde existem muitos deles escondidos, que podem suceder ao próprio Sayovo no futuro\".

JD: Por que razão aposta, igualmente, nas pessoas convencionais, ao invés de cingir-se  àquelas que têm deficiência?
 JAS:
\"Ok. Para conhecimento de todos, antes de eu sofrer o acidente que me causou esse trauma, em 1998,  em Mbanza Kongo, eu já praticava desporto. Era um exímio praticante de futebol e só terminei no atletismo, em função da situação a que  me referi. Então, como gosto do atletismo e do futebol, achei por bem,  juntar as duas coisas no meu projecto\".
JD: Que projectos concretos o Sayovo tem sobre esses núcleos?
 JAS: \"Bem, os projectos são vários, embora,  tenha mais destaque para a massificação do desporto, uma vertente em que tenho algum domínio, em função daquilo que se sabe sobre a minha pessoa,  quanto às performances que já alcancei nessa vertente, sobretudo no desporto adaptado\".

JD: Então,  esses projectos estão apenas virados para este tipo de desporto?
 JAS:
\"Não. Os meus projectos são completamente abrangentes. Para além do desporto adaptado, também estou apostado em movimentar o desporto convencional. Quero com isto dizer que ao invés de me apegar apenas aos deficientes, também consta no meu programa a massificação do desporto com pessoas normais\".

JD: Neste capítulo, em que modalidades pretende trabalhar concretamente?
JAS: \"Para além do atletismo, uma disciplina em que tenho uma boa experiência, é minha intenção olhar também para as modalidades de andebol e de futebol onze. Nesta última disciplina, a minha ideia é de massificar o futebol onze em muletas e sem muletas no seio das comunidades de Cacuaco\".:

Pensa trabalhar com pessoas de todas as idades nesses seus projectos ou apenas com os mais pequenos?
 JAS: \"Bem, trabalhar com todas as idades seria muito bom, mas a minha aposta fundamental recai  nas crianças,  cujas idades vão dos dez aos 13 anos e desta idade aos 17 anos, em todas as modalidades que citei\".

JD: Tal como deve saber, para a implementação desse tipo de projecto, o mentor tem de pensar em infra-estruturas condignas, em primeiro lugar, isto é, boas quadras, bons campos e boas pistas de atletismo. Como está Cacuaco neste capítulo?
 JAS: \" Neste capítulo,  acho que Cacuaco não está assim tão bem. Temos dificuldades de  quadras, assim como de campos, razão pela qual prevemos ter um encontro com as autoridades administrativas, por força das dificuldades que temos nessa vertente. Pretendemos saber se apesar desse nosso cepticismo, podemos encontrar alguns recintos existentes nesta municipalidade, das quais talvez não temos conhecimento. Ainda assim, contamos com alguns recintos como a quadra dos Mulenvos de Baixo, no conhecido bairro das 500 casas brancas, tal como nos avançou o treinador com o qual temos estado a trabalhar, que dá para remediar, no que diz respeito ao andebol\".

JD: Mas só conta com as infra-estruturas a nível de Cacuaco -sede, ou também está a pensar nas das outras circunscrições deste município?
JAS:
\"Como eu vivo na Centralidade do Sequele, também estou a pensar manter contactos com as autoridades administrativas desse Distrito Urbano, para ver se conseguimos outros recintos nessa zona residencial , onde como deve ser do vosso conhecimento, há um considerável agrupamento populacional. E, como se trata de uma área propícia para o desenvolvimento do atletismo, creio que dá muito bem para essa actividade. Aliás, tenho escutado que o Benfica de Luanda tem lá as suas instalações. Neste âmbito, vamos ter de mandar uma carta de solicitação à direcção desse clube, para ver se podemos utilizar o espaço,  para  em princípio trabalhar apenas no atletismo, pois, na minha óptica, acho que ali dá muito bem para desenvolver este tipo de actividade. Futuramente, solicitaremos um terreno próprio à administração, para a construção de uma quadra e um campo para as modalidades de andebol e de futebol\".

JD: Se tivermos em conta que tudo isso requer apoios, em que pé os seus projectos estão nessa vertente?
JAS: \"Para ser sincero, nós não temos nenhum apoio,  nesta altura. Precisamos de bater algumas portas, para ver se nos apoiam,  para que as crianças possam praticar o desporto. No entanto, posso dizer que essa necessidade é mais premente para as crianças da Centralidade do Sequele e dos Mulenvos de Baixo, uma vez que as da comuna da Funda não têm muito essa dificuldade, porque lá existem alguns campos que têm sido usados pelas mesmas\".

JD: E, quanto à questão de material desportivo?
 JAS: \"Aí é mesmo onde estamos mal. Precisamos desse apoio de forma incondicional, para que possamos levar avante os nossos projectos. Temos alguns equipamentos, mas são insuficientes. Não chegam para a demanda que temos,  em termos do número de praticantes com que contamos, sobretudo nas disciplinas de atletismo e do andebol\".

JD: Mas isso é abrangente à modalidade do futebol?
 JAS: \"Sim. Conforme já  disse antes, mesmo no futebol também estamos a viver dificuldades para a massificação. Estamos carentes de bolas e de chuteiras. Precisamos mesmo que nos ajudem neste aspecto. Temos equipamento para treinos, mas não temos para os jogos\".

JD: Sonhar não é proibido, mas grandes realizações precisam da componente financeira,  em dia. Como está o grupo de trabalho nesse capítulo?
 JAS: \"Simplesmente mal. Financeiramente estamos mesmo sem soluções, praticamente. Temos estado a remediar as nossas actividades, com o bocado que tenho conseguido arranjar nas minhas “cambalhotas”.

JD: E, como pensa ultrapassar essas dificuldades?
 JAS: \"Na realidade, a minha primeira preocupação é de lançar um repto às pessoas de boa-fé, para que me ajudem nessa questão, sobretudo à classe empresarial de Cacuaco. Gostaria também de fazer um apelo extensivo à essa franja da sociedade de Luanda e mesmo do país no geral, porque o nosso projecto é de massificar,  não apenas o desporto convencional, mas sobretudo para com as pessoas portadoras de deficiência. Queremos ajudar os outros, que se encontram numa condição de deficientes, mas que possam explorar da melhor forma as respectivas eficiências\". 

JD: Falou que também está apostado no desenvolvimento do futebol em muletas, nos  projectos. Que passos concretos já foram dados nessa vertente?
 JAS: \"Bem, apesar de ser pouco divulgado para que as pessoas tenham conhecimento, no capítulo de futebol em muletas, nós vamos bem. A título de exemplo, a nossa equipa já participou em dois campeonatos nacionais, respectivamente, no ano passado e neste ano em curso. Deixa-me acrescentar ainda, que da mesma forma que apostamos no futebol, também o fizemos no basquetebol em cadeiras de roda. Por essa razão, faço um apelo aos empresários, principalmente, àqueles que gostam do desporto, para que nos dêem a mão, de maneira que a dar mais impulso ao nosso projecto\".

JD: Qual é  a real situação social, actualmente?

JAS: \"A minha situação social continua estável. Não tenho muitas razões de queixa, apesar da actual conjuntura económica do país. Vivo normalmente como vivem os outros cidadãos, e às vezes até melhor que outros,  que se encontram na minha condição, fruto daquilo que já conquistei no desporto\".

JD: Mas há quem diga que o Sayovo está a passar mal…

JAS: \"Negativo. Eu não estou a passar mal. Conforme já disse antes, em função da conjuntura económica do país, não sou uma excepção. Mas passar mal, como muitos querem fazer crer, isso não é verdade\".

JD: Então,  o que se passa de concreto?

JAS: Bem, uma coisa é passar mal, ao ponto das pessoas insinuarem que devo ser ajudado com uma cesta básica, e outra é pedir uma oportunidade para conseguir algo que possa me ajudar nos meus projectos.

JD: Em que posição se encontra o Sayovo?

JAS: \"Eu estou nesse segundo ponto, porque preciso de uma viatura com capacidade para 30 lugares, para me ajudar na movimentação dos atletas do Núcleo Desportivo Sayovo, que é a minha equipa, durante as competições ou mesmo apenas durante os treinos. Como sabe, a maioria dos atletas que apoio são deficientes. Então, precisam de um meio rolante que os facilite nas deslocações. Só isso\".

JD: Fale-nos um pouco sobre a Taça Sayovo…

JAS: \"A Taça Sayovo é uma prova muito abrangente, porque participam  atletas de todos os extractos sociais. Mas para lhe ser sincero, não tenho nenhuma novidade sobre a “Taça Sayovo”. Aliás, ela deixou de ser realizada há mais de dois anos\".

JD: Deixou de existir e nada  foi comunicado?

JAS: \"Exactamente. Ninguém me disse nada e nem sei em que pé está essa competição. Até tenho estado a interrogar-me por que razão já não se realiza? Se tem elevados custos para os cofres do Estado ou então, o que se passa concretamente?\".

JD: A falta de realização dessa prova prejudica a sua pessoa?

JAS: \"De maneira nenhuma. Eu não recebo e nunca recebi nenhum tostão do dinheiro dessa competição\".

JD: Mas isso é sério?
JAS: \"Claro que sim, porque não tenho necessidade de mentir\".