Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Modalidades

Senna, 25 anos depois

02 de Maio, 2019

O acidente comoveu milhes de pessoas que assistiram na televiso

Fotografia: DR

Quando Ayrton Senna chocou no dia 1 de Maio de 1994 contra o muro da curva Tamburello , no circuito italiano de Imola , não emudeceu apenas uma nação. O acidente comoveu milhões de pessoas que assistiram na televisão, ao vivo, a triste despedida do carismático e polémico ícone.
Vinte e cinco anos depois, assinalados ontem a imagem  do piloto continua associada a marcas comerciais e campanhas sociais: ele é o último grande ídolo brasileiro , para muitos inclusive maior do que o mítico Rei Pelé. “Vivíamos os anos 80, com hiperinflação, a ditadura militar tinha terminado pouco tempo antes, não fazia muito sentido sentir orgulho do Brasil, mas o Senna saiu pelo mundo levando a bandeira como um símbolo que encheu de orgulho tantos brasileiros”, diz Alexander Grünwald, jornalista especializado em automobilismo.
Segundo Grünwald, o legado de Senna foi “transformar o desporto”. O seu diferencial, além de ser um piloto excepcional, foi o de atender outros aspectos como a preparação física e mental, entender o veículo e a tecnologia e cuidar da sua imagem.
Uma pesquisa realizada em 2014, no vigésimo aniversário da sua morte, mostrou que 47% dos moradores de São Paulo, sua cidade natal, consideravam Senna o maior nome do desporto nacional. Pelé aparecia em segundo lugar, com 23%.
“O Pelé viveu uma época em que as pessoas ouviam os jogos de futebol pelo rádio ou liam no jornal. Elas não viveram esse período com a mesma intensidade e emoção. Já com o Senna, os domingos eram com a família” na frente da televisão, explica Grünwald.
Ontem foi foi celebrado um “Senna Day” no autódromo de Interlagos, em São Paulo, com atividades esportivas e culturais. O paulistano conquistou três vezes o título da Fórmula 1 (1988, 1990 e 1991) com a McLaren , equipa na qual brilhou de 1988 a 1993, vencendo um Grande Prémio de cada três (35 em 96 participações). Os primeiros anos na escuderia foram marcados por sua famosa rivalidade com o francês Alain Prost , companheiro de equipa, que depois de tantas brigas travadas em público, ajudaria a carregar o caixão de Senna, visivelmente emocionado. Esse antagonismo é talvez o ponto mais controverso da sua biografia, abordado em livros e documentários. “Claro que não era perfeito (…) teve rivalidades dentro da pista, mas seus aspectos positivos superaram os negativos”, defende o jornalista Fred Sabino, editor de F1 .
“Determinação” e “dedicação” são as palavras mais repetidas quando as pessoas próximas ao piloto falam de sua trajectória. São também os valores exaltados pelo Instituto Ayrton Senna, que a sua irmã Viviane fundou em 1994 para oferecer oportunidades a crianças em situação de pobreza.
Documentários e livros mostram um Senna comprometido de forma mística com sua carreira. Em entrevistas, o piloto fala sobre sua fé católica e sobre como era crucial para o automobilismo manter um trabalho mental tão rígido que, segundo ele, permitia em certos momentos que se elevasse a outra dimensão enquanto pilotava.
Em vídeos, Senna aparece carismático e sorridente. Em forma e atraente, em alguns momentos parecia genuinamente exaltado, feliz até as lágrimas ou duro devido à tensão. Outras imagens exibem um jovem da classe alta brasileira que desfrutava dos prazeres da vida de campeão de um dos desportos mais caros do mundo.
 “Houve algumas vitórias depois de Ayrton Senna, tivemos uns 15 anos de conquistas, mas a falta de estrutura interna do automobilismo brasileiro não permitiu esse desenvolvimento. Senna foi o terceiro piloto em uma linhagem de campeões (…). Mas no automobilismo existe essa coisa cíclica. Os nomes que vieram depois acabaram sofrendo um pouco com as reclamações de um fanatismo que estava acostumado às vitórias”, comenta Sabino.