Jornal dos Desportos

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Sochi'2014 é o mais caro da história do olimpismo

08 de Fevereiro, 2014

A mais cara edição dos Jogos Olímpicos começou com a presença de várias dezenas de Chefes de Estado e de Governo

Fotografia: AFP

A cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, que decorrem em Sochi, marcou ontem o arranque oficial do mais importante evento desportivo realizado na Rússia desde o desmembramento da União Soviética, em 1991. A mais cara edição de Jogos Olímpicos, nos quais foram investidos 37 mil milhões de euros (cerca de 4,9 triliões de kwanzas), começou sob o signo dos protestos, sobretudo, contra a lei aprovada pelo Presidente Vladimir Putin em Junho que proíbe e pune a propaganda da homossexualidade perante menores e que motivou variadas tomadas de posição internacionais e ameaças de boicote institucionais.

Os responsáveis também não se livraram das acusações de corrupção e críticas aos efeitos ambientais das obras em Sochi, que a poucos dias do início dos Jogos Olímpicos apresentou uma série de deficiências em espaços públicos e de alojamento.

Apesar da chegada a Sochi ter sido acompanhada por manifestações em várias cidades estrangeiras e em São Petersburgo contra a lei antigay, a tocha olímpica terminou ontem o seu périplo no novíssimo Estádio Fisht, palco da cerimónia de abertura, à beira do Mar Negro, onde a chama fica acesa até 23 de Fevereiro.

Chefes de Estado e de Governo, num total de 44, estiveram presentes na cerimónia de abertura, com destaque para o Presidente chinês, Xi Jinping, e o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon.

O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, da França, François Hollande, e o alemão, Joachim Gauck, não estiveram presentes. O gesto é interpretado por analistas como forma de protesto contra alegadas violações dos direitos humanos na Rússia, denunciadas periodicamente por Organizações Não-Governamentais (ONG).

Sob fortes medidas de segurança, que envolvem 100 mil militares, os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi têm uma participação recorde de 88 países, num total de 2.800 atletas.

As primeiras eliminatórias de slopestyle de snowboard, de esqui acrobático feminino e de patinagem artística por equipas decorreram ontem.

BOA SORTE
DA LOTUS

No meio da polémica por conta da lei antigay na Rússia, a equipa de Fórmula 1 da Lotus deu nas vistas nas redes sociais com uma foto de dois homens a beijarem-se numa ilustração de um desejo de sorte aos atletas que disputam os Jogos de Inverno de Sochi. A postagem no Twitter segue uma tendência que se intensificou com a proximidade dos Jogos. Mais cedo, o Google elegeu como ‘doodle’ do dia uma imagem de ícones dos desportos olímpicos com fundos que formam um arco-íris, símbolo do movimento gay.


ORGANIZAÇÃO
Transporte gratuito para os visitantes

Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 começaram ontem, na cidade russa de Sochi, balneário de Verão localizado às margens do Mar Negro. A sede olímpica é famosa no seu país pelas temperaturas agradáveis, que pouco indicam a possibilidade da disputa de provas de esqui, snowboard e patinagem no gelo, por exemplo.

Mas não é apenas o clima ameno que marca os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi. Antes da cerimónia de abertura, que se realizou no Estádio Olímpico Fisht, a competição mostrou algumas das suas características mais marcantes.

Clima olímpico. A temperatura é amena na cidade e a movimentação pelas ruas é tranquila. Ainda assim, o clima em Sochi é definitivamente de Jogos Olímpicos. Com placas em russo e inglês, presença de voluntários, placas de patrocinadores e ampla venda de lembranças (nem sempre oficiais), a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 abriu as portas para o mundo dos desportos de gelo em neve.

Frio. A cidade é conhecida como um balneário de Verão para russos endinheirados. Então, como pode ser sede de Jogos Olímpicos de Inverno, evento que exige neve e gelo durante todos os dias? A resposta é fácil: os desportos de neve (como esqui e snowboard) são realizados nas montanhas de Krasnaya Polyana, cidade localizada a algumas dezenas de quilómetros da sede, enquanto as modalidades de gelo (hóquei, patinagem e curling, por exemplo) são disputadas em modernos recintos em Sochi, bastante próximos uns dos outros. O artifício é comum e deu certo na Rússia.

Hospitalidade. Não há dúvidas. Os russos de Sochi são bastante acolhedores. Mesmo que não entendam o seu idioma (qualquer que seja), são prestáveis quando orientam as entradas e direcções, nem que seja com indicações como ‘vlevo’ (esquerda) ou ‘vpravo’ (direita). A única dificuldade está nas filas, uma coisa que alguns russos não respeitam muito.

Segurança. Dois atentados à bomba no fim de 2013 colocaram a Rússia num certo pânico para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 – principalmente depois do grupo que reivindicou a autoria dos atentados prometer agir em Sochi. Por isso, não há movimentação na cidade que não seja feita sob vigilância. Toda a gente é revistada por forças de segurança antes de entrar nos comboios e nas instalações, ao mesmo tempo em que agentes da Polícia andam por todas as composições. Nos vagões, há avisos frequentes – em russo e em inglês – sobre pacotes suspeitos.

Transporte. Entre todas as principais sedes olímpicas, o Comité Organizador dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi garantiu transporte gratuito para todos os credenciados – incluindo o aeroporto, os terminais rodoviários, ferroviários e os principais pontos de hotéis. Comboios e autocarros especiais levam os visitantes até mesmo à cidade de Krasnaya Polyana, localizada a mais de uma hora de distância, para as provas de montanha. Tudo gratuito.


LEI ANTIGAY
Chefe da missão
dos EUA evita críticas


Os Estados Unidos evitaram ampliar ainda mais a delicada situação diplomática com a Rússia ao decidir não fazer novos comentários sobre a polémica lei antigay em Sochi. Pelo menos esse é o discurso do chefe da missão norte-americana, Scott Blackmun.

“Sobre a lei que proíbe a promoção de valores não tradicionais a crianças, já expressámos o nosso ponto de vista anteriormente. Agora, é hora de nos preocuparmos com os atletas”, disse Blackmun, durante uma conversa com jornalistas na Rússia.A Rússia aprovou recentemente uma lei que proíbe a “propaganda a relações sexuais não tradicionais”. Na prática, isto significa que quem realizar actos em que expressa a sua orientação sexual, como encontros de orgulho gay, pode ser multado ou até ser detido.

O Presidente Barack Obama, que não participou na cerimónia de abertura dos Jogos, já mostrou o seu descontentamento com o Presidente Putin e colocou três ex-atletas gays, como Billie Jean King, para acompanhar a delegação.

“Obama sabe que vamos mostrar ao mundo o melhor da América - diversidade, determinação e trabalho em equipa”, disse a porta-voz dos EUA, Shin Inouy. A situação sobre o tema é tão delicada que o presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, já avisou que não vai permitir que qualquer atleta proteste sobre o tema no pódio ou durante as competições.

Os países europeus também não escondem as críticas. O Channel 4, de Londres, alterou o seu logotipo por um dia ao incluir as cores da bandeira gay.

A expectativa agora é ver se algum atleta pode ou não repetir os gestos dos Panteras Negras em 1968, na Cidade do México, quando os norte-americanos Tommie Smith e John Carlos, medalhistas nos 200m, fizeram um gesto com punho fechado no pódio ao criticarem a segregação racial. Ambos foram expulsos da Vila Olímpica e da equipa norte-americana.