Jornal dos Desportos

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Sorrisos no adeus

Silva Cacuti - 02 de Fevereiro, 2014

Marcelina Kiala vai apostar mais tempo à família e ao trabalho depois de muitos anos de sacrifício

Fotografia: Dombele Bernardo

Desportistas, homens de cultura, empresários, políticos e, sobretudo, a nova geração de andebolistas, testemunharam, ontem, o acto simbólico que marcou o encerramento da carreira andebolística de Marcelina Kiala, de 35 anos, 20 dos quais vividos nos meandros da alta competição pelo Petro de Luanda, Dijon de França e selecção nacional.

Na hora do adeus, o cenário era incomum. Nele se misturavam a beleza e o requinte da sala à nostalgia, alegria e sentimento de satisfação pelo dever cumprido. À grandeza da homenageada corresponderam os participantes que se trajaram a rigor para a ocasião.

O multiusos de Luanda mostrou com exuberância a sua versatilidade e, de grande palco desportivo transformou-se numa das mais lindas salas de cultura da capital angolana. Marcelina Kiala fazia-se trajar numa calça jeans preta, blusa branca e sapatilhas azuis, traje e cores, aliás, que traziam quase todas as integrantes da selecção nacional sénior feminina de andebol.

Ao tomar a palavra, Marcelina Kiala, emocionada, a fazer esforço para conter a visita de uma lágrima, disse que "não tinha muito a dizer". Com esforço, arrancou algumas palavras e no improviso Deus esteve em primeiro lugar e, no fim, a certeza de que o andebol fica em boas mãos com a nova geração de andebolistas.

"Quero, primeiro, agradecer a Deus que me tornou a pessoa que sou hoje no mundo desportivo, este mundo que mudou a minha vida. Agora, deixo o andebol, mas tenho a certeza de que deixo o andebol em boas mãos" disse a atleta.

De Pedro Godinho, a andebolista recebeu um convite para abraçar o dirigismo desportivo, fazendo-lhe uma piscadela de olhos para o próximo mandato da federação.

"O futuro a Deus pertence. Agora, o que é certo mesmo é que estou de saída", comentou. Ao palco subiram C4Pedro, Yola Araújo, Puto Português, os Tunesas e outros cantores para abrilhantar o momento que exigia um pé de dança. Marcelina Kiala começou a praticar andebol aos 10 anos, no Grupo Desportivo da Rádio Nacional, de onde se encaminhou para o Desportivo Maculusso. Rapidamente, mostrou-se como uma andebolista de craveira.

Fruto das suas exibições, transferiu-se para o Petro de Luanda, um dos maiores ícones do andebol continental. Da notoriedade no Petro à selecção nacional foi um passo.

Marcelina Kiala encerra a carreira com um palmarés em que constam 15 campeonatos provinciais, 15 campeonatos nacionais, participação em dois Jogos Olímpicos, sete campeonatos mundiais, 13 Taças de África  dos Clubes Campeões, sete campeonatos africanos e três Jogos Pan-africanos. A terceira melhor marcadora do mundial de 2007 esteve entre as 10 melhores atletas concorrentes ao prémio de melhor andebolista do mundo e é a única africana, até agora, a chegar tão longe.

O ministro da Juventude e Desportos, Gonçalves Muandumba, homenageou a ex-capitã da selecção nacional. "Marcelina Kiala, jogadora, líder, mãe, esposa, uma mulher de corpo inteiro que teve tempo de estudar, terminar a sua licenciatura em direito, de constituir família e de continuar a ser feminina".


RECONHECIMENTO
Minjud capricha em homenagem aos atletas


Os integrantes das selecções nacionais seniores masculina e feminina foram, ontem, alvo de homenagens da parte do Ministério da Juventude e Desportos pelas respectivas participações nos XXI campeonatos africanos disputados em Argel, de 16 a 25 de Janeiro. As homenagens tiveram lugar no pavilhão multiusos de Luanda que estava requintado para a ocasião.

Sob testemunho de Joana Lina, Vice-presidente da Assembleia Nacional, deputados, ministros, Secretários de Estado, desportistas e convidados, os atletas das duas selecções nacionais foram brindados com presentes que simbolizam a satisfação da sociedade angolana pelo seu desempenho.

"O histórico de vitórias da selecção feminina de andebol é bem conhecido. Por isso, poder-se-ia pensar que este terceiro lugar nada nos diria. Como respondeu uma atleta à pergunta de um jornalista "perdemos uma batalha e não a guerra". Se dúvidas houvesse, estamos aqui para as desfazer já que este terceiro lugar é tão digno quanto os outros, sobretudo, pensarmos que a nossa selecção se encontra em renovação. Por outro lado, a selecção masculina alcançou o quarto lugar, o que significa que está a galgar lugares, está a firmar-se, o que nos enche de orgulho e alegria.

Parabéns
", disse Gonçalves Muandumba.
O presidente da Federação Angolana de Andebol, Pedro Godinho, ao tomar a palavra, congratulou-se com a iniciativa do Minjud. O dirigente desportivo disse que Angola mantém a hegemonia continental.

"A nossa hegemonia nunca foi posta em causa, mas também estamos com os pés bem assentes. Estamos numa fase de renovação das nossas selecções. Não é obra do acaso que tenhamos estado no mundial com sete atletas estreantes; no campeonato africano, com quatro ou cinco estreantes na classe feminina e outros tantos na classe masculina", lembrou.

Pedro Godinho lembrou que esses processos de renovação têm um preço e lembrou que em 1996, quando Angola renovou, perdeu o título e depois colheu oito campeonatos seguidos.

"Naturalmente, todo esse histórico é que faz de nós um país que detém a hegemonia no andebol continental. Por isso, o nosso muito obrigado pelo facto de mesmo não tendo ganho o campeonato africano, sentimos do Executivo, da sociedade e dos amantes do andebol o mesmo carinho que sentimos, aquando das nossas habituais chegadas com troféu em mãos. Muito obrigado", agradeceu.

Num cenário de gala, com música ambiente e ao vivo, foram lidas mensagens da Associação Angolana da Mulher e Desporto, Amud, pela sua presidente, a ex-andebolista Maria Odeth Tavares, que enalteceu o empenho das suas ex-companheiras e encorajou a selecção masculina a seguir o caminho da evolução que demonstrou no campeonato africano. SILVA CACUTI


GRATIFICAÇÃO
Companheiras
agradecem legado


Quando Marcelina Kiala começou a jogar andebol, Juliana Machado, a mais nova atleta da selecção nacional, que esteve no XXI campeonato africano de Argel, não tinha nascido. A jovem atleta do Atlético Guardes de Espanha testemunhou a respeito da aprendizagem com Marcelina.

"Eu só estive com ela nesta selecção, mas aprendi muito; quero agradecer-lhe por me permitir jogar com ela; deixa-me muito orgulhosa ter estado na mesma equipa", disse num tom que denuncia a satisfação e a tristeza, por ter chegado tão tarde à selecção e poder partilhar tão pouco com Marcelina.

Mas a Marcelina Kiala passou o seu testemunho a atletas ainda mais referenciadas. No seu testemunho, Maria Pedro, guarda-redes da selecção nacional e do Petro de Luanda, revelou que algo da sua atitude na baliza tem a ver com o aprendizado e convívio com aquela que a recebeu quando chegou à equipa do Catetão.

"A Marcelina é uma amiga de verdade. Quando cheguei ao Petro de Luanda, ela recebeu-me e ensinou-me a enfrentar grandes embates", disse.
Maria Pedro falou de mais coisas para enaltecer a figura da companheira que, agora, vai ficar do outro lado da quadra, na bancada, a servir-lhe de fonte de inspiração.

"Muito obrigado, foi um prazer enorme jogar consigo. Muito obrigado". Foi com essas palavras, que a ponta da selecção nacional, Carolina Morais, engrossou o seu "discurso" na homenagem à Marcelina Kiala. Jogadora do 1º de Agosto, Carolina, foi mais vezes adversária de Marcelina do que companheira de equipa na selecção, mas soube maximizar a aprendizagem.

"Eu não consigo falar tudo neste momento. Só dou graças a Deus por me ter permitido partilhar a quadra de jogos com essa grande jogadora", comentou.

Adversária de outros tempos, companheira de selecção nacional, hoje nas vestes de dirigente, Odeth Tavares, presidente da Amud, destacou o perfil de Marcelina Kiala enquanto jogadora de andebol: "É uma referência positiva para as actuais jogadoras que ficam na selecção nacional".
SILVA CACUTI


Cadetes preparam
operação Nairobi


O pavilhão principal da Cidadela Desportiva acolhe a partir de amanhã a preparação da Selecção Nacional de cadetes masculinas, visando a participação no campeonato africano a decorrer de 14 a 22 de Março, em Nairobi, Quénia. A concentração dos atletas tem lugar às 16h00 sob o olhar do técnico José Pereira Kidó.

Da lista de convocados, o 1º de Agosto forneceu maior número de atletas, num total de seis. O Interclube, Renascimento do Uíge e Desportivo da Banca deram quatro atletas cada um.

O 1º de Agosto forneceu os atletas Leonel Almeida, Áurio Barros, António Kaianda, Luís Lopes, Joaquim Moreno e Paulo Pascoal; Príncipe Daliano, Manilson João, Adelino Santos e Eugénio Sardinha são do Interclube; Mikeyas Abrantes, Valdemiro Garcia, José Kiluba e Ariel da Silva (Desportivo da Banca); Hélio Domingos, Tsango Kifuando, Anástasio  Kifuando e Marcelo Zinga (Renascimento do Uíge); Salupassa Muhenho, Leandro Muzeca e Feliz Samassola (Desportivo 4 de Abril); José Americano e Pompeu Ganga (Kabuscorp do Palanca), Vicente Cardoso e José Luitengo (Sporting de Luanda); Lourenço Júlio (Visa), Felipe Sibu (Ferroviário de Luanda), Zélio Carlos (Escolinha do Namibe).