Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Modalidades

“Tinha tudo para estar cheia de filhos ”

23 de Julho, 2015

Brasileira supera trauma com medalha

Uma jovem mulher que foi expulsa de casa por causa de taekwondó. A força de vontade e o apoio do treinador levaram a brasileira tão longe, que hoje ostenta ao peito a medalha de prata dos Jogos Panamericanos.

A perseverança no tapete deu-lhe a oportunidade de escapar da marginalidade do seu bairro pobre do Itaboraí, no Rio de Janeiro. A garota não conhecia o desporto. Acreditou, que diante das intempéries, é possível constar entre as estrelas da história dos Jogos Panamericanos.

“Tinha tudo para ser traficante, bandida, estar cheia de filhos como muitas em Itaboraí. Mas o desporto mudou a minha vida. Hoje, agradeço a Deus por ter colocado na minha vida o taekwondo e o Diego (treinador), que nunca me deixou desistir”, assim começa a história.

Iris Sing pensou, várias vezes, em desistir do taekwondó. Não sabia o que era modalidade e a pressão da mãe deixava-a sufocada. A matriarca sempre odiou ver a filha no desporto.  O projecto era ver a filha a trabalhar num mercado. Os conselhos do treinador devolvia-lhe a esperança de ser campeã das Américas.

A teimosia de Iris fê-la sair de casa e foi morar com uma amiga até ver a colega casar-se. Sem espaço para viver, aceita um recanto no quintal do seu treinador, onde também funciona uma academia de taekwondó.

Agora com a medalha de prata ao peito, Iris Sing aguarda felicitações da mãe, mesmo a saber que não a apoiou quando precisava de ajuda. “Vai dar-me os parabéns e vai dizer que sabia”, disse a jovem.

A brasileira revelou que a mãe lhe dizia “bem feito; desiste disso” sempre que perdesse um combate tão logo chegasse a casa. Agora, a história vai ser diferente. A atleta promete mostrar a medalha à mãe tão logo desembarque na terra. As residências do treinador e da mãe estão separadas por curta distância.

Revestida de orgulho, Iris Sing dedica a medalha de prata a todos os jovens e moradores do seu bairro pobre, em Itaboraí, Porto das Caixas.
“Essa medalha vem com muito suor, muito choro, muita lágrima, muito sacrifício de estar aqui. Saí de Porto das Caixas, lá da cidade de Itaboraí. Isso representa que de onde saí, pode sair muito mais. É para mostrar àquele povo, que mesmo o lugar sendo pequeno e do interior, dá para conseguir com muita força de vontade e determinação”, exaltou.

A esperança de que o seu bairro possa render futuros talentos para o desporto brasileiro não está só nas palavras de Iris. A garota tem um programa social, mesmo aos 24 anos, denominado Projecto Iris. Ensina desporto às crianças, mas ainda sofre o preconceito dos  pais, que tiram as crianças das aulas. O seu bairro no passado era pacato, mas agora está “violento”.

“Dou aulas, tenho o Projecto Iris, sou a madrinha. Amo dar aulas às crianças carentes; tenho 70 crianças. Digo-lhes: ‘olha onde cheguei’. Agora, podem olhar a medalha. Tudo para lhes motivar. Hoje, não faço por dinheiro. Dinheiro é consequência. Faço pelas crianças. Os pais tiram as crianças do taekwondo e preferem vê-las na rua”, relatou.

A perseverança de Iris é uma lição que sai de Toronto para todo o mundo, especialmente, os países com grande défice desportivo. Desde que se acredite e treine duro, tudo pode dar certo. Mesmo que a mãe reme contra a maré.