Jornal dos Desportos

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Treinador do 1ª de Agosto quer nova cultura

Rosa Panzo - 26 de Março, 2014

Especialista cubano vai trabalhar no desenvolvimento táctico e técnico das mulheres angolanas

Fotografia: João Gomes

Para atingir as metas no género, o novo coordenador para o voleibol do 1º de Agosto, o cubano Rolando Milanês defendeu a criação de uma cultura desportiva que vele pelos interesses das mulheres. Por falta deste (e outros) alicerce é difícil o cumprimento das metas traçadas nas competições internacionais.

“Em Angola, as mulheres atingem poucas metas no desporto, porque não há cultura desportiva e não se avalia a vida quotidiana da mulher desportista. No entanto, a cultura da mulher que pratica o desporto em Angola tem de ser revista urgentemente”, disse.

Para Rolando Milanês, que se encontra no país há um mês, “a mulher desportista angolana não se cuida, por acumular uma carga de trabalho muito intensa”. O volume da carga, segundo Milanês, reflecte-se no pouco rendimento desportivo da mulher. Por esse motivo, o especialista assegura que “o ideal era cuidar-se, porque a mulher tem de ter muita atenção nas coisas que faz antes de ir ao treino”. Milanês realça que “a mulher treina por uma competência”.

O cubano aconselha que “a mulher deve planificar o período da carreira desportiva, de maternidade, estudos e de emprego”. A maternidade durante a prática do desporto causa baixas que podem colocar qualquer equipa do top em baixo rendimento, segundo o especialista.

“Uma equipa que conquistou a hegemonia nacional (título) pode baixar de rendimento no ano seguinte, se quatro ou cinco jogadoras titulares forem dispensadas por licença de maternidade”, disse.

A acontecer, “a equipa toda é que perde”. Em Angola, onde as mulheres não têm cultura desportiva, também não planificam a vida pessoal e a carreira desportiva.

O QUOTIDIANO DA MULHER
A vida quotidiana da mulher em Angola é um assunto que inquieta Rolando Milanés. As constantes ocupações da mulher angolana prejudicam as metas traçadas no campo desportivo.

Num ângulo comparativo, Milanês assegurou que existe uma “grande diferença” entre a mulher cubana e a angolana. Em Cuba, “a mulher desportista trabalha menos e empenha-se mais no desporto, porque as metas estão traçadas para aquele sector”. Em Angola, faz-se o contrário. “As mulheres trabalham, estudam, tratam da casa, do marido e vão aos treinos no final do dia”. Face à situação, “chegam aos treinos com muita fadiga, é claro que não rendem no campo”.

O especialista cubano ressaltou que é necessário evitar o excesso de trabalho antes de ir aos treinos para não se sentir cansada.
“Diante de um jogo difícil no fim-de-semana, que precisa de concentração, por mais que se esforce o treinador, a atleta não rende no jogo, porque aturou o chefe no serviço, teve uma prova difícil na escola e ainda aturou o trânsito a caminho do clube”, exemplificou.

Em Cuba, a mulher desportistas tem apenas duas opções: ou estuda e treina ou treina e trabalha. Caso opte pela primeira, o Estado paga um subsídio aos atletas a fim de as manter ocupadas apenas nos estudos e no desporto.

“Acredito que se for implementada essa cultura em Angola, as mulheres vão render muito no desporto, porque as atletas têm um bom potencial físico o suficiente para atingir as metas; no aspecto físico, o povo angolano e cubano são idênticos”, ressaltou.


OBJECTIVO
Técnico cubano
aposta na formação


O técnico Rolando Milanés tem como objectivo a observação do desenvolvimento táctico e técnico dos atletas e melhorar a metodologia de treinos desde os escalões de formação aos seniores no 1º de Agosto, durante os dois anos de contrato.
 O coordenador de voleibol assegurou que o mais importante é formar a base na primeira fase do seu trabalho.
“Vamos dividir o trabalho por fases para colher bons resultados no final. Depois, a direcção técnica vai centralizar as atenções no trabalho táctico e psicológico dos atletas”, esclareceu.

Para melhorar a metodologia de treino, o técnico vai começar o trabalho com a selecção do tipo de atletas que se pretende para formar uma base reforçada por bons pilares. A princípio, aspira trabalhar com crianças que tenham a faixa etária entre os 12 e 16 anos de idade, desde que tenham os parâmetros exigidos pela coordenação técnica.

O grande calcanhar de Aquiles é a linguagem. O especialista cubano vai ter de melhorar a linguagem a fim de interagir melhor com os atletas.
“Depois disso, não devo ter grandes problemas, porque os cubanos não diferem muito dos angolanos. O primeiro aspecto a ser considerado é a mesma raça e temos a mesma característica funcional. Por outro lado, os atletas angolanos em campo também se parecem com os cubanos pela composição muscular”, argumentou.  

No que concerne à classe masculina, Milanês acredita no potencial das equipas que só necessitam de trabalhar alguns elementos físicos, no que toca à rapidez e à postura física. “De forma particular, os militares têm competência para ganhar os campeonatos nacionais, mas para se impôr em África têm de melhorar a adaptação”, disse.

Para conseguir a postura que se ambiciona em África, Rolando Milanês assegurou melhorar a base para se encontrar atletas com boa altura. “Os angolanos são talentosos”, encerrou a entrevista.
ROSA PANZO