Jornal dos Desportos

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Um futebolista campeo de jiu-jitsu

29 de Abril, 2019

Fotografia: DR

Cristian Chaves sagrou-se recentemente campeão do mundo de jiu-jitsu nos campeonatos de Abu Dhabi. Aquele que os colegas já haviam apelidado de “Iron Man”, traduzindo, Homem-Ferro ou Homem-de-Aço, tem mais estórias.
Do judo para o jiu-jitsu, Cristian começou na hora certa uma carreira em que contou felizmente com a possibilidade de ter o apoio dos próprios pais. De resto, parece uma característica dos campeões mundiais angolanos de artes marciais dependerem dos pais, embora representem um país.
“Comecei a praticar o judo. Mais tarde, o meu pai foi convidado por um amigo, que pratica jiu-jitsu, a experimentar a arte na sua academia”, explica Cristian. “E a partir daí, de há uns três anos para cá, venho a treinar, embora estivesse parado um ano e meio, mas depois e agora estou a treinar-me regularmente.
Cristian e o pai são ambos do Clube Focus-JiuJitsu, que está aberto no Lobito e em Benguela, respectivamente, nos ginásios Delson Gym e B Academy. Para o jovem campeão mundial, o tatame (local do treino) não permite temperamentos agressivos. “Desde que comecei a treinar que me sinto mais calmo e centrado. Sou um rapaz calmo, nunca tive nenhum problema de lutas, mesmo nas escolas, nunca lutei. Luto apenas dentro do tatame e respeitando sempre as normas”, confessa o jovem lutador.
“Há poucas academias de jiu-jitsu e há pouca divulgação também, mas tem cada vez mais seguidores”, analisa o jovem campeão. “A adesão tem aumentado e hoje já somos perto de 60 a treinar”, conclui.
Cristian Chaves treina diariamente, de segunda-a-segunda, com o seu mestre, Rui Fonseca, porém, o jovem jamais se esquece do seu primeiro formador, no judo, o mestre Ely “Naruto”, a quem se mostra sempre muito grato.
Os pais do atleta têm sido o seu principal apoio e estão totalmente nas raízes de mais este campeão angolano, mais um exemplo de entre meia dúzia de angolanos que já conquistaram o cinturão mundial, desde os pioneiros Tony Kikanga (2010, Boxe/UFC) e Demarte Pena (2014, Lutas/MMA).
“Quero dedicar o título aos meu pais, que são incansáveis e insistentes, pois eles acreditam bastante em mim e puxam muito por mim”, agradece Cristian pelo feito alcançado. “Agradecer também à família e amigos que me apoiam e incentivam”.
E a recíproca não se fez esperar: “como pais estamos aqui para apoiar os filhos e investir nas conquistas deles e sempre que nos for possível fazê-lo conquistar, seja o que for, estaremos aqui para puxar por ele e ajudá-lo”, explica Paulo Chaves, pai de Cristian. Para ele, o apoio institucional não se fez sentir. Talvez ajude a Cristian, o seu próprio pai ser um praticante de jiu-jitsu.
“Depois que alguém da Academia de Jiu-itsu, no Lobito, convidou-nos para experimentar mudar do judo, continuamos até hoje e eu pratico também com ele, como forma de o incentivar a ir sempre aos treinos.
“Mesmo no judo, o Cristian sempre se destacou; o mesmo aconteceu no jiu-jitsu e partir daí, foi sempre a trabalhar, buscando conquistas”, explica o pai acerca do filho agora campeão do mundo, com 14 anos. “Graças a Deus foi sempre um bom aluno, que até ao momento não teve problemas em conciliar os estudos com o desporto”, considera Paulo Chaves.
“Os apoios são apenas familiares”, admite o também membro da associação de jiu-jitsu de Benguela. “Vamos organizando alguns eventos e gora, que surgiu esta oportunidade de competirmos fora, treinámos para isso, lutámos e conquistámos”, diz o pai do campeão do mundo Cristian.
Quanto deve custar fazer um campeão do mundo assim? “Para nós custa apenas um título, de resto todo o nosso esforço e sacrifício são para eles (os filhos), e mesmo que nada tivesse ganho, continuaríamos a investir nele”, garantiu o progenitor do campeão, que não acredita que o seu filho vá um dia parar na UFC.
Uma semana depois de se sagrar campeão do mundo, conta Cristian Chaves, “a minha rotina continua a mesma, a minha vida continua a mesma, claro que agora mais pessoas conhecem-me, e nestes primeiros dias tenho recebido muitas felicitações, muito carinho, mas a minha vida continua a mesma\".
Mais adiante: “tenho muitos amigos, conheci mais colegas desta modalidade neste campeonato em Abu Dhabi, e quando não treino, gosto de praia e pesca, estudo e jogo futebol”, vai contando Cristian, que entre todos os divertimentos, prefere o futebol, que considera a sua primeira atracção.
Cristian vai bem na escola, embora não tenha muito tempo para ler, nem se perca a ver televisão, pois gosta de jogar na playstation!
Curiosamente, quando perguntado sobre o seu futuro e maior sonho, ele responde que é ser futebolista. Nunca lhe passou pela cabeça ir parar às MMA, nem entrar na UFC. O campeão de jiu-jitsu não ficou com o miolo mole de envaidecido e mantém ideias firmes.