Jornal dos Desportos

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Volta a Angola começa a pedalar

JOÃO CONSTANTINO E JOÃO FRANCISCO - 07 de Outubro, 2015

Angolanos do Benfica de Luanda querem inscrever o nome como os primeiros vencedores da Volta a Angola

Fotografia: Jornal dos Desportos

Angola entra hoje na rota do ciclismo mundial. As emoções causadas por veículos de duas rodas sem motor juntam governantes e dirigentes desportivos, na cidade de Cuito, província do Bié, num "sprint" de boas-vindas a Volta a Angola, a competição mais importante do calendário da Federação Angolana de Ciclismo.

Boavida Neto, na condição de Governador anfitrião, vai dirigir o pelotão de frente, em que se destacam Kundy Payama, Governador do Huambo, Gonçalves Muandumba, ministro da Juventude e Desportos e Waghi Azzam, presidente da Confederação Africana de Ciclismo, entre outros, num percurso de dois quilómetros, entre a sede do Governo provincial do Bié e o Largo da Solidariedade.

O tiro de largada da Volta a Angola está agendado para as 11h30 de hoje. Waghi Azzam, também vice-presidente da União Internacional de Ciclismo, vai proceder ao disparo. Os 85 ciclistas inscritos partem em direcção ao Huambo, para cumprir a primeira etapa, uma prova de fundo de 160 quilómetros.

As seis equipas angolanas, mormente, Benfica de Luanda, Santos Futebol Clube, Selecção Nacional de Esperanças de Angolanas, Nocebo Huambo, Hotel Luso e Jair Transportes, vão procurar dignificar as cores da bandeira nacional. A missão é espinhosa. Na pista estão  ciclistas profissionais provenientes de França e Portugal, habituados a longas tiradas. Para criar mais dificuldades, os angolanos contam também com a concorrência de atletas africanos saídos de Moçambique, São Tomé e Príncipe, República Democrática do Congo e Cabo Verde.

O coordenador do ciclismo  da equipa do Benfica de Luanda, Carlos Araújo, disse que têm uma equipa capaz de competir em circunstância de igualdade com os atletas estrangeiros. A equipa tem a missão de "competir para ganhar" a primeira edição da Volta a Angola. O recto dos benfiquistas é motivado pela experiência em provas internacionais por serem a quarta melhor equipa africana e correr em solo pátrio.

"Os atletas profissionais não nos preocupam, porque temos ciclistas preparados para competir ao mais alto nível", reiterou Carlos Araújo.
No mesmo discurso está a equipa do Huambo. A Cuca Nocaba estabeleceu como a meta ser a melhor equipa nacional na estreia da Volta a Angola. O bom ânimo justifica-se pela ousadia do seu atleta na última prova de estrada de ciclismo.

DESISTÊNCIA
A maior festa do ciclismo, em comemoração aos 40 anos da independência nacional, ficou amputada à última hora. A África do Sul criou a primeira contrariedade, na véspera do dia do arranque da Volta a Angola. A organização da competição assegurou desconhecer os motivos da desistência dos sul-africanos.

"Criamos todas as condições, para termos a aquipa sul-africana e, à última hora, estragaram todo um trabalho feito com esmero e antecipação. Pagámos o transporte, bilhetes de passagem e alojamento. A menos de um dia, dizem-nos que vão participar do campeonato local", disse Justiniano Araújo, muito triste pela situação.

O coordenador executivo da Volta a Angola mostrou-se agastado com a atitude dos sul-africanos, depois de terem sido emitidos os bilhetes de passagem. Justiniano Araújo disse que se fez um "esforço grande" para os ter no país. Com a desistência da África do Sul, eleva-se para dois países convidados. O primeiro foi o Gabão.

EQUIPAS
Benfica de Luanda na "pole-position"


A equipa principal do Benfica de Luanda, detentor de vários títulos na Volta do Cacau em São Tomé e Príncipe e vencedor da II edição da Volta da RDC, é a esperança de Angola na primeria edição da Volta a Angola em bicicleta. Encabeçada pelo melhor ciclista angolano da actualidade, Igor Silva, a equipa do Benfica de Luanda conta também com Dário António, Mário de Carvalho, Walter da Silva, Bruno Araújo, Cruz Tuto, Wagner Chiquito, Gabriel Cole, entre outros corredores, com créditos firmados nas competições internacionais e nacionais.   

A selecção de Esperanças formada por ciclistas que despontam nos últimos tempos, como,  Carlos Araújo Júnior, Sebastião Kiambote, Francisco Castro, Adilson Zacarias, Domingos Damba e Bruno André, vão procurar um lugar ao sol. Os jovens têm apresentados resultados "valiosos" nas provas internacionais. Das equipas estrangeiras, realce para a selecção da RDC e de São Tomé e Príncipe. As duas equipas devem ser as que vão tentar fazer sombra aos corredores angolanos.

Moçambicanos e caboverdianos vão ter muitas dificuldades para colocarem os seus corredores no pelotão da frente. Os resultados obtidos nos Jogos Africanos de Brazzaville espelham isso mesmo. Apesar de terem muita tradição, franceses e portugueses vão enfrentar vários concorrentes. Além dos africanos, as adversidades climáticas vão constituir o principal empecilho a vencer. Chegar ao título vai ser obra.

VOLTA A ANGOLA
Pepino eleito padrinho

Quis o destino coincidir a realização da I edição da Volta a Angola, no mês de Outubro, com o  94º aniversário do atleta Alberto Silva "Pepino". A escolha do mês tem significado especial para o veterano angolano.  Antes da independência nacional, a 11 de Novembro de 1975, Pepino fazia maratonas de atletismo entre Benguela e Huambo. Após a proclamação, Alberto Silva estendeu as suas "epopeias" a Luanda. Em corrida, percorreu a distância entre Benguela e a capital do país. Com o avançar da idade, o gosto pelo desporto é transferido para cima de uma bicicleta.

Pepino passou a pedalar e aventurar-se entre as cidades das acácias-rubras e da Kianda, três vezes ao ano nas décadas de 80 e 90 do século XX.
Com a ascensão do ano 2000, o ancião estendeu os seus desafios às competições além-fronteiras. A estreia acontece em 2009, nos Jogos Seniores dos Estados Unidos da América, em São Francisco, na Califórnia. No final da competição, o veterano angolano contentou-se com o quarto lugar na categoria de ciclistas veteranos dos 90 a 100 anos.

Em 2013, Pepino desembarcou em Cleveland, no Estado de Ohio, nos Estados Unidos da América. Pela primeira vez, o veterano angolano arrebatou duas medalhas de ouro nas provas de 20 e 40 quilómetros de especialidade de estrada. Uma semana depois da Volta a Angola, Alberto Silva "Pepino" vai completar a 24 de Outubro, apenas 94 anos de idade. Por esse feito, a eleição de padrinho da Volta a Angola em bicicleta é somente uma homenagem ao veterano desportista angolano.

JUÍZES DOS PALOP
Angola pode acolher
Centro de Formação


Angola vai acolher, nos próximos tempos o Centro de Formação de juízes, comissários e treinadores de ciclismo dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). A informação foi avançada por Waghi Azzam, presidente da Confederação Africana de Ciclismo. À saída da audiência concedido pelo ministro da Juventude e Desportos, Gonçalves Muandumba, Waghi Azzam assegurou que o país tem condições básicas para assumir a pretensão.

O egípcio ressaltou que o ciclismo "já é uma realidade" e há a necessidade de se desenvolver outras especialidades, que envolvam crianças e jovens. Para a concretização, prometeu prestar todo o apoio. Waghi Azzam e Gonçalves Muandumba abordaram aspectos ligados à Volta a Angola, uma iniciativa da Federação Angolana de Ciclismo, inserida nas celebrações do 40º aniversário da independência nacional, a assinalar-se a 11 de Novembro.

PERCURSO
Etapas pintadas de montanhas


As belas paisagens de Angola são percorridas de hoje até ao dia 18 do corrente pelos olhares de 85 ciclistas de 12 países. A Volta a Angola comporta dez etapas e um critério (circuito fechado). Em 11 dias de competição, os atletas vão percorrer um total de 1156,8 quilómetros, tornando-a na Volta de nível dois mundial. A competição vai percorrer nove das 18 províncias do país, mormente, Bié, Huambo, Benguela, Cuanza Sul, Cuanza Norte, Malanje, Uíge, Bengo e Luanda.

A primeira etapa comporta uma prova em linha de 160 quilómetros, entre as cidades do Cuito e do Huambo. Amanhã, realiza-se a segunda tirada de 145 quilómetros, com a  partida às 10h00, defronte ao Governo do Huambo até à sede do município da Ganda, província de Benguela. A terceria etapa realiza-se na sexta-feira, na especialidade de contra-relógio por equipas. A prova de 30 quilómetros vai ser realizada entre as cidades de Benguela e de Lobito e é decisiva para a classificação geral colectiva.

No sábado, a Volta a Angola chega ao Sumbe, capital da província do Cuanza Sul. A quarta etapa de 90 quilómetros vai ser disputada entre a cidade do Sumbe e a sede do município da Gabela. No domingo, os "heróis do asfalto", como também são chamados, chegam à província do Cuanza Norte para disputarem a quinta etapa, numa prova de 93 quilómetros, entre as cidades do Dondo e Ndalatando. A chegada a capital do Cuanza Norte marca a primeira metade da competição e os atletas vão ter o único dia de descanso da primeira edição da Volta a Angola, que acontece na segunda-feira.

Na terça-feira, os ciclistas fazem-se à estrada para participar da sexta etapa, uma prova em linha de 175 quilómetros entre as cidades de Ndalatando e de Malanje. Os ciclistas vão enfrentar montanhas ao longo do percurso. No dia seguinte, o município de Camabatela acolhe a meta de largada da sétima etapa. A prova de 93 quilómetros leva os concorrentes até à cidade capital do Uíge.

A prova em linha volta na oitava etapa. Os atletas vão percorrer 164 quilómetros entre as cidades do Uíge e a de Quibala, no Cuanza Sul. No dia seguinte, é disputado a nona etapa que compreende uma prova em linha de 163 quilómetros, entre Quibala e capital da província do Bengo, Caxito.
A última etapa é disputada entre Bengo e Luanda num percurso de 54 quilómetros. A meta está montada defronte à Refinaria da Sonangol, no bairro da Petrangol.

Para coroar o evento, no dia seguinte, realiza-se uma prova de circuito fechado no Largo da Independência, sem efeito classificativo. Ao longo da competição estão previstas mais de 25 "metas-volantes" e mais de 20 prémios de montanha (sprints intermediários em determinados troços do percurso). No final de cada etapa, a organização atribui camisolas ao líder da classificação individual, da Juventude (Sub-23), de "Metas-volantes", "pontos quentes", "montanha", a de "melhor ciclista angolano" e da classificação por equipas.