Jornal dos Desportos

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Maló cintila nos anais do andebol

Augusto Fernandes - 06 de Junho, 2016

As duas agremiações já se defrontaram por quatro ocasiões no BIC Basket tendo cada uma vencido duas partidas

Fotografia: Augusto Fernandes

Aos 55 anos de idade, o ex-andebolista conserva o pergaminho da história do desporto nacional com muito humor. Dono de uma personalidade sociável, Maló recorda os bons tempos passados com o Presidente da República, José Eduardo dos Santos.O sorriso estampado no rosto é de nascença. Ao longo da vida, fez amizades em diferentes escolas que lhe valeram conversas avulsas com amigos. Maló foi um atleta multifuncional. Jogou futebol, basquetebol e andebol. No desporto-rei, foi companheiro de Ndungidi Daniel, Laurindo, João Machado e outros. No basquetebol, foi contemporâneo de Alberto de Carvalho "Ginguba". No andebol, encontrou a parada: Paulo Bunze, Xaboita, Nhoca, Palmira Barbosa e outros amigos. Maló destacou-se no Belenenses da Samba, como pivot.

Após a independência de Angola, Maló regressa ao país, vindo de Portugal, onde havia sido enviado pelos tutores. Matriculado no Liceu Salvador Correia (actual Mutu ya Kevela), "o futebol era a única modalidade viva, as outras estavam paradas, embora houvesse muitos praticantes de andebol".Fruto da dinamização iniciada em 1974, o andebol tinha centenas de praticantes.Com a convocatória da primeira selecção nacional de futebol, Maló ingressa no Futebol Clube de Luanda, onde foi recebido pelo técnico Inguila e Laurindo, que haviam regressados de Belenenses de Portugal. Na sua posição, encontrou um dono e senhor Pitorras. Fruto da velocidade, técnica apurada e remate forte com pé esquerdo empurrou para o banco o colega.

"Passei a jogar no ataque e formei o trio com João Machado e Laurindo. Ngungidi, era conhecido por Pelé, e jogava mais recuado. Mais tarde, Inguila obrigou-o a usar o seu nome próprio", recorda Maló.O destino levou a integrar o onze do Futebol Clube de Luanda que defrontou a primeira selecção nacional de futebol de Angola. O momento era ímpar: "Vinha dos Juvenis do Almada, não joguei a júnior e estava a jogar a sénior no meio de jogadores de grande valia técnica em Angola. Foi muito gratificante para mim”. Para coroar a gratidão, marcou um golo "ao grande Napoleão".

TROCA POR ANDEBOL
Os treinos realizavam-se à noite, no Estádio da Cidadela, propriedade do Futebol Clube de Luanda. Durante o dia, às vezes, praticava andebol nas aulas de educação física para incentivar as raparigas à prática. Com apoio de Fernando Rodrigues, tiraram algum proveito: "teríamos as garotas mais próximas de nós e também relançaríamos o andebol".

Para dar corpo a estratégia, Maló contactou o Pina, atleta do Ferroviário de Luanda e estudante da Escola Industrial (actual Makarenko), e propôs a criação de uma equipa de escola para defrontar a do Liceu Salvador Correia."Para o nosso espanto, noventa por cento da assistência do primeiro jogo era formada por garotas. Não havia espaço para mais ninguém ao redor do campo. Na equipa da Industrial, estavam o Pina, Tó Araújo, Siexas e Gingão, também bons jogadores de basquetebol. Felizmente, a nossa equipa era a mais forte e ganhámos quase todos os jogos", disse.

As vitórias sucessivas do Liceu Salvador tinha um motivo: "A maior parte dos melhores praticantes de andebol na época vivia no bairro Azul, o meu bairro. Assim, nasceu o desporto escolar em Angola". Para dividir as atenções do jogo que opunha a Escola Industrial a Salvador Correia, vários carolas impulsionaram a criação de outras equipas de andebol. É assim que, Alberto Carvalho "Ginguba", Xaboita, Fernando Franco, Seitas, Hélder, Brito, Eduardo Palhares e outros formaram grandes equipas e deram um forte contributo. Surgiram as equipas do Liceu Paulo Dias de Novais, Marçal e outras.

"É interessante, que naquele ano de 1976, a coisa tomou proporções inimagináveis. O andebol tornou-se tão popular que não havia lugar para mais ninguém em todos os campos. As equipas de vários liceus passaram a ingressar atletas de outras escolas. A Industrial ficou reforçada com Abílio Pinto da Cruz, um dos melhores do Sporting de Luanda, e o Bilha, proveniente do Futebol Clube do Porto", disse.*Com Francisco Carvalho

PERCURSO
Viagem a Almada
e regresso ao país

Aos seis anos, Fernando Franco dá início a prática de futebol no bairro Azul, em Luanda. Um ano depois, passou a treinar judo a pedido do seu pai durante dois anos. Mais tarde, ingressou na equipa de iniciados de Hóquei em patins do Sporting de Luanda. Aos 13 anos, jogou basquetebol na equipa de iniciados do CDUA a convite de Vitorino Cunha, que havia se transferido do Ferrovia. Ao seu lado estavam Joca e Catito, com que se sagrou campeão provincial de Luanda no mesmo ano.

A tenacidade de técnico contribuiu para superar o Vila Clotilde, Benfica de Luanda, onde despontavam nomes como o de Barbosinha.
No período de transição para os juvenis, surgiu a febre de andebol no bairro azul. Por influências de jovens praticantes dos Belenenses e  da Santa Bárbara, Maló aderiu ao andebol, sem largar o basquetebol e futebol. Oitenta por cento de jogadores do Belenenses e do Sporting de Luanda eram do bairro Azul, com destaque para o Bilha, Jorge Gonçalves, Armando, Gaio, Joca, Jeco, Maló, Victor, Bico, Catito e outros.

MUDANÇA 
Com o advento da independência nacional, Fernando Franco é enviado para Portugal, em Março de 1975. Na cidade de Almada, decidiu jogar futebol. As boas exibições renderam-lhe muitas amizades na escola. Certo dia, "só para brincar", fez um treino na equipa de andebol. Foi um autêntico show. As pessoas admiraram a técnica e o técnico pediu-lhe para trocar o futebol.

Em Janeiro de 1976, a sorte bate-lhe à porta. Marcou dois golos, foi eleito o Melhor jogador da partida ante a observação dos olheiros do Sporting de Portugal. O contacto com a direcção da Almada já havia sido feito e acertado para ingressar na equipa de juvenis. Na plateia, um dos seus admiradores bateu as palmas. Norberto dos Reis Franco, por sinal, o seu pai, assistiu a tudo. A presença na bancada tinha um único objectivo: regressar com filho a Angola.A frustração acossou de Maló. "Quando o meu pai me disse que deveria regressar a Angola, senti-me revoltado por perder uma grande oportunidade de jogar no Sporting de Portugal, o meu clube de coração", disse.

FUTEBOL DE SALÃO
Presidente da República marca no jogo amigável


Além de exímio jogador de andebol, basquetebol e futebol onze, Maló, foi um excelente jogador de futebol de salão. Em 1980, juntou-se a Pitorras, Jaime Morais, Saturnino (irmão de Jesus do Petro de Luanda), Kito Perdineira e outros na equipa da Faculdade."Organizámos um torneio entre as Faculdades e não perdíamos. Em 1980, fomos convidados, por duas vezes, a jogar no Futungo de Belas contra a equipa de manutenção física composta pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, Comandante Ndalu, Venâncio de Moura, e outros membros  do Boureau Político” recorda.

Nas duas partidas amigáveis no Futungo de Belas, na época residência oficial do Chefe de Estado, Fernando Franco "Maló" revelou que "o Presidente da República José Eduardo dos Santos e o Comandante Ndalu eram os que mais se destacavam do grupo de atletas mais velhos"."Foi um momento inesquecível para todos nós, que na época tínhamos apenas 18 anos de idade. O Presidente da República marcou dois ou três golos", disse com muita saudade.

Com olhar ao retrovisor, Maló destacou Paulo Bunze, Osvaldo e o Bilha como os melhores andebolistas que o país viu a nascer. Assegurou que já foi eleito por alguns amigos como o Melhor atleta da década de 70 e 80.Para a evolução do andebol masculino, Maló aponta o factor morfológico como o principal."Enquanto não houver investimentos sérios apontados nesta direcção, para termos jogadores possantes acima dos dois metros, dificilmente, vamos passar pelas equipas do Magrebe", disse.

Quanto à conferência do futebol, o ex-atleta disse que "foi um pouco forçada, porque o momento ou o histórico do futebol angolano ainda não justificava a sua realização". Maló justifica que o desporto-rei "regrediu brutalmente"."Tecnicamente, hoje é difícil encontrar um jogador da estirpe do Alves, Eduardo Machado, Jesus, Ndungidi, Geovety, Arménio, só para citar esses. Não se nota aquela vontade de vencer, mas a de justificar o salário. Fico muito desiludido com esta situação", disse.

Maló assegura que em 40 anos de liberdade, o normal seria o futebol evoluir à semelhança de outros desportos. "O basquetebol e o andebol feminino, o desporto individual como atletismo, vela, canoagem, remo, judo e desporto paralímpico evoluíram. Quem dera que os jogadores de futebol daquela época tivessem os salários que os actuais jogadores recebem!", indagou.