Jornal dos Desportos

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Modalidades

Pai "formador" dos andebolistas

Silva Cacuti - 08 de Outubro, 2015

Edgar Neto aposta na formação de atletas depois de abandonar a alta competição

Fotografia: Dombele Bernardo

Uma vida dedicada ao desporto. Quatro décadas de dribles e remates. Um percurso de amizades e inimizades. Uma história de vitórias e derrotas. Edgar Neto é parte da história de Angola. O jovem destemido do bairro Nelito Soares carrega o nome para o acervo do andebol angolano. Aos 50 anos de idade, Edgar Neto confunde os investigadores sobre a influência do treinador na vida dos desportistas.

Man Degas, como também é conhecido nas lides desportivas, tem um pedaço da sua vida cravada na história de cada um dos andebolistas, com quem trabalhou. Ao longo da carreira, fez amizades e travou desavenças. Como homem de carácter humilde, sempre pautou pelo amor ao próximo.
Na fase de maturidade da carreira, Edgar Neto idealiza outros voos. O destino propõe alterações.

O andebol angolano pode ver-se privado dos préstimos do treinador no alto rendimento. Man Degas pretende dedicar-se exclusivamente à formação, uma área que o apaixona como treinador de andebol. "Acho que fico mais dois ou três anos no alto rendimento, não mais que do isso. No futuro, quero trabalhar exclusivamente na formação de atletas, é uma tarefa para a qual estou inclinado e penso abraçar", comentou.

Edgar Neto carrega uma vasta experiência de trabalho com os escalões de formação. No Grupo Desportivo da Banca, coordenou todo o andebol. Durante dez anos, Man Degas foi também treinador da selecção nacional júnior masculina, com a qual obteve uma medalha de bronze continental.
A carreira de Edgar Neto, como treinador, deu uma volta de 360 graus. O especialista atingiu o apogeu com uma equipa masculina. Hoje, trabalha com o andebol feminino. Man Degas é treinador adjunto de Vivaldo Eduardo, na equipa sénior do Petro de Luanda.

"O andebol feminino é sempre um desafio novo, porque tem características diferentes do andebol masculino. Quando trocamos, somos vítimas de uma espécie de choque, mas depressa adaptamo-nos. Neste momento, já me sinto adaptado, novamente, ao treino do andebol feminino", comenta.
A reviravolta teve um preço barato. Man Degas, curiosamente, começou a carreira como treinador de andebol feminino.  Na época, foi adjunto do treinador Armando Gomes "Culau", na equipa sénior feminina dos Dínamos. A dedicação de Edgar Neto, à ex-equipa filiada na Segurança do Estado, atraiu outros clubes de Luanda.

O Grupo Desportivo da Banca endereçou-lhe um convite para dinamizar o andebol. A aposta foi a mais acertada. Durante 20 anos consecutivos, Man Degas formou um grupo de atletas de afinada técnica individual e que engordam o seu legado à modalidade. No Petro de Luanda, além de ser treinador-adjunto da equipa sénior feminina, Edgar Neto também tem a responsabilidade de coordenar os escalões de formação.

ORGULHO
Edgar Neto é uma enciclopédia


Edgar Neto é um homem orgulhoso da sua obra e não esconde o facto. Regularmente, uma vez por ano, um grupo de ex-atletas reúne-se e realiza uma partida em homenagem ao treinador, no recinto da Banca, onde a maioria foi formada. "É um gesto que me deixa orgulhoso e permite-me saber que afinal valeu a pena. Há uma obra feita e fico sem palavras, quando vejo gestos como estes", disse.

Os depoimentos dos ex-praticantes, que passaram pela mão de Man Degas, são hinos ao sentimento que nutrem pelo treinador. Os atletas mais antigos ou os mais novos, que ainda estão no activo, comungam a mesma ideia: "É um pai para nós". Hoje, na pele de ex-praticante, Adérito Cavala partilhou com o Jornal dos Desportos, uma história de vivência com o treinador Edgar Neto.

"Quando cheguei a Luanda, fui recebido na Banca pelo treinador Edgar. Vivia numa zona do bairro Cazenga, próxima da casa do técnico.
Pelas manhãs, tinha a paciência de ir pegar-me e íamos juntos aos treinos. Depois, eu seguia para a Faculdade. À tarde, o treinador apanhava-me na Banca e levava-me de regresso à casa", disse.

A preocupação de Edgar Neto, sempre esteve ligado à formação, do homem e do desportista. Ciente do final da carreira desportista, Man Degas impulsionou os seus atletas a dedicarem-se também aos estudos académicos. O país precisa de homens formados para darem a continuação dos legados dos precursores pela independência nacional.

"Hoje, uma parte de mim, devo a este treinador. Para mim, é mais que um pai", enaltece Adérito Cavala. Edgar Neto carregou toda a sua vivência para fora e dentro das quadras. Quando era preciso incutir hábitos profícuos aos atletas, o treinador puxou as orelhas e deu cocos.

"Esta é uma das suas características que mais nos marcou enquanto treinador. O 'coach' demonstra que esteve sempre preocupado com a nossa aprendizagem. Uma vez, tirou-me do campo com um puxão de orelhas e disse-me que era capaz de fazer mais. Colocou-me no banco de suplentes. Minutos

depois, entrei e fiz um golo importante que nos deu a vitória", descreve com saudade.
O reconhecimento dos feitos do técnico Edgar Neto vem também de Janete Neto, a única dos cinco filhos que ainda pratica andebol. Outra filha já deixou de jogar. A jovem vive de perto a orientação do pai, já que treina na equipa júnior do Atlético Petróleo de Luanda.
"Quando oiço falar do meu pai, sinto-me orgulhosa de ser filha de um homem com obra feita no andebol angolano. Ele fala muito comigo e tento dar o meu máximo para dignificar o nome do meu pai, que é uma referência na modalidade", disse.

QUINTEIRO TERESA
"É um apaixonado da modalidade"


Entre os contemporâneos de Edgar Neto, o Jornal dos Desportos foi ao encontro de Quinteiro Neto, um outro treinador de andebol da praça nacional. O "coach" não encontrou palavras melhores para descrever o colega e o seu percurso. "Não jogámos na mesma equipa, mas defrontámo-nos algumas vezes. Edgar jogava na equipa do Têxtil e eu noutra equipa. Foi um central inteligente que deu continuidade à carreira desportiva como treinador. Tem um percurso que só uma pessoa apaixonada pelo andebol pode ter", testemunhou.

Quinteiro Teresa, técnico afecto ao 1º de Agosto, falou da obra do colega, ciente da grandeza do  contributo à modalidade. "A sua obra está aí, basta irmos para os campos, onde se joga andebol. Encontramos alguém que passou pelas mãos de Edgar Neto. Portanto, é uma figura da nossa modalidade", comentou.

PERCURSO
Banca é o berço do estrelato

Edgar Neto tem toda a vivência cravada em Luanda, terra que o viu nascer há 50 anos. À luz de grande movimento de massificação de modalidades desportivas, que se registou a partir de 1977, sob a égide da JMPLA, decidiu praticar o andebol. No auge da liberdade, após à proclamação da independência nacional, os adolescentes e jovens de todo o país aderiram ao programa de massificação desportiva.

"Comecei naquele movimento, no bairro Nelito Soares. O meu primeiro treinador foi o professor Espírito Santo, que foi Secretário de Estado de Educação Física e Desportos", disse. Após o domínio do ABC, Edgar Neto transferiu-se para a equipa 26 de Agosto, afecta à Tropa Guarda Fronteira de Angola (TGFA). Como atleta federado, jogou pelo Sporting de Luanda, na categoria de juvenis. Quando atingiu a idade de júnior, foi ao Dínamos e a sénior, jogou na equipa do Têxtil (actual Maculusso), onde teve como treinador Mário Leonel.

A entrega de Edgar Neto no campo dava-lhe a oportunidade de atrair os adversários. Man Degas jogou na posição de Central e, muito cedo, começou a dar sinais de grande capacidade de leitura de jogo. Nascido para vencer, as jogadas em campo começaram a pesar menos. O jovem do bairro Nelito Soares apercebeu-se da inclinação para o treinamento.

Aconselhado por amigos, Edgar Neto abraçou a carreira de treinador, quando ainda tinha  as condições físicas para jogar. Ao longo de duas décadas ao serviço do Grupo Desportivo da Banca, Edgar Neto atingiu o ponto alto da carreira. Os holofotes da imprensa colocaram-no em destaque pela qualidade do seu plantel. A equipa bancária era uma fonte de fornecimento de jogadores. As genes andebolísticas de Man Degas espalharam-se por todos os clubes de Luanda. Edgar Neto ganha notoriedade.

O grupo de atletas formados na Banca engorda o legado do jovem do bairro Nelito Soares. Hoje, alguns ainda no activo, o nome do treinador continua a ser exaltado na carreira de cada um. José Pereira, também conhecido por Kidó, treinador da equipa masculina do Petro de Luanda, e o seu adjunto, André da Costa, são produtos da "fábrica" de Man Degas.

No Kabuscorp do Palanca, também está a marca de Edgar Neto. Pedro Neto, conhecido por Hói, assume as responsabilidade de treinador. O jovem acumula também as funções de seleccionador nacional júnior feminino. Na escola de formação do 1º de Agosto e do Atlético Sport Aviação estão outros produtos de Man Degas. Na equipa militar, José Terça Chuma ensina o ABC às crianças, o mesmo que Bruno, na equipa aviadora.

A lista de pupilos formados por Edgar Neto é grande. No activo estão Show Baby, Nelson Varela, Caty, Geovany Muachissengue, só para citar esses. Noutros sectores da vida social, Hermenegildo Cachimbombo deixou os campos para assumir o cargo de Bastonário da Ordem dos Advogados de Angola e Adérito Cavala foi pretendente da presidência da Associação de Andebol de Luanda, no actual ciclo olímpico. Edgar Neto carrega no currículo profissional dois títulos de campeão nacional com a equipa da Banca e inscreveu-a numa final da Taça de Clubes Campeões, em 2006.