Jornal dos Desportos

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Modalidades

Pérolas cumprem objectivo

Silva Cacuti e Rosa Napoleão - 22 de Março, 2015

Selecção nacional é a primeira equipa angolana com visto garantido para a cidade brasileira e maravilhosa de Cristo Rei

Fotografia: M.Machangongo

O andebol tornou-se ontem na primeira modalidade angolana a garantir presença nos Jogos Olímpicos do Rio'2016 por via da vitória no torneio qualificativo disputado em Luanda de 19 a 21 do corrente. Ontem, as Pérolas, designação da selecção nacional, "abusaram" da Tunísia ao vencer por 26-23.

A ordem está dada. Pode-se preencher as fichas de inscrição dos Jogos Olímpicos com os nomes de cada uma destas bravas filhas de Angola, deste país que tem no andebol a segunda modalidade mais praticada.

A derrota tunisina começou fora da quadra de jogo, quando as mais de oito mil almas entoaram o Angola Avante, Hino Nacional.

Fez-se um ambiente infernal. Na quadra, as "miúdas" perceberam que a missão era "lutar orgulhosas por este país".

O apito da dupla de arbitragem egípcia Tamer/Rached soou sob ruidoso apupo, já que a primeira posse de bola foi tunisina. Mas, nem por isso, as tunisinas não falharam os dois primeiros ataques. Mostraram serenidade. Deixaram este prazer para as jogadas seguintes.

Jogava-se a valer na quadra de jogos. No placard "taco a taco". Aos 11 minutos com 7-6 favorável para a selecção nacional, Paulo Pereira pede desconto de tempo e orienta.  A sua equipa empata. Até aí Angola já tinha desperdiçado dois livres dos sete metros.

Aos 15 minutos, o empate persistia, 8-8. Mais um livre de sete metros falhado. A defesa angolana estava afinada com a guarda-redes Bá a dar confiança. Mouna mostrava serviço no ataque tunisino. Natália Bernardo estava a ser marcada "homem a homem". A estratégia resultou. A Tunísia cresceu. Aos 28 minutos, vencia por 12-10. Angola voltou a falhar um livre de sete metros. O quarto.

Todos os que teve direito ao longo da primeira parte. Ben Noura, na baliza tunisina, defendia com mérito algumas e davam-lhe a defender outras. Ao intervalo, Angola perdia por 10-12. No ataque, com falhanços em situação de um para zero e total ineficácia nos livres de sete metros, estava o fraco da equipa nacional.

No reatamento, Angola começou com duas falhas técnicas. A Tunísia marcou o terceiro golo de vantagem. Angola estava "arrasca" e, quando a Tunísia falhava um ataque era um alívio, porque tinha o jogo controlado.

João Florêncio tinha lançado Marta dos Santos que estancou o jogo de Mouna com marcação individual. A equipa angolana fez o 12-13.

Começou a chover em Luanda. À quadra de jogo recebeu algum lixo trazido pela ventania. Os portões estão fechados, porque já não há lugar para ninguém, mas havia muita gente querendo entrar.

Ao minuto 10, Angola consegue o empate, 16-16. Lá fora, a chuva é torrencial. No interior, começam a chegar pingos trazidos pela ventania. As jogadoras estão indiferentes. Mais um golo tunisino. Com 14,24 minutos do segundo tempo jogados, justamente no momento em que a equipa nacional encetou a recuperação, o jogo teve de ser interrompido. O piso ficou impraticável. No placard havia igualdade, a 17 golos.

A assistência começou a lembrar que há em Luanda um pavilhão em condições para suportar as condições climatéricas e suportar toda a gente que queria ver o jogo.

Cerca de hora, depois de interrompido o jogo, contra os 15 minutos previstos nos regulamentos, o jogo foi reatado, a pedido da Tunísia, que tinha hora marcada para o regresso.

A equipa angolana entrou para o "terceiro" período de jogo com mais atitude defensiva. Martucha, apelidada de "gatuna da bola", estava impiedosa com Mouna. Lurdes Monteiro tinha acertado no ataque. O delírio voltou ao pavilhão. Matilde acabava de fazer o 20-17.
 
O Rio estava mais perto! Haviam ainda 10 minutos para jogar e a assistência cantava. O tempo para jogar escasseava e reduzia a distância para o Brasil. Era preciso aguentar. As bravas meninas de Angola aguentaram. Natália estava batalhadora, dava luta. O país presente no pavilhão já cantava em comemoração, é Rio de Janeiro!


FICHA TÉCNICA

ANGOLA
1- Teresa Almeida, 2- Ríssia Oliveira,3- Liliana Venâncio (1), 4- Marta dos Santos, 6- Juliana Machado (2), 7- Elizabeth Caílo (2) 8- Lurdes Monteiro (5), 9- Isabel Guialo (1), 10- Delfina Mungongo, 11- Luísa Kiala, 16-Maria Pedro, 13- Matilde André (5), 14- Natália Bernardo (4), 15- Azenaide Carlos (4), 17- Wuta Dombaxi (3), Lisandra Salvador.
TREINADOR: João Florêncio
 
TUNÍSIA
6- Elghaoui Asma (4), 8- Kefi Wafa 9- Chekir Farah (1), 10- Toumi Rajá (1), 12- Abdallah  Echraf, 14- Rezgui Rakia, 17- Kilani Ouided (2), 18- Hlaili Refka, 19- Sfar Fatma, 20- Chebbah Mouna (7), 22- Jlezi Mouna (1), 24- Khouild Inês, 30- Jaouadi Inês (3), 44- Dardour Oumayma, 85- Ben Noura, 95- Hamrouni Amal (3).
TREINADOR: Paulo Pereira
 
INTERVALO:
10-12
FINAL: 26-23


TERCEIRO LUGAR
Selecção do Senegal foge à cauda


No jogo que ditou a fuga ao último lugar, o Senegal e a República Democrática do Congo (RDC) protagonizaram equilíbrio, mas a RDC, vice-campeã continental, com alguma surpresa, acabou derrotada. O Senegal venceu por 25-22.

Num jogo de nível técnico mediano, não se podia pedir mais, as duas equipas bateram-se no "hora marcas tu, hora marco eu" até próximo do intervalo, quando começaram a faltar forças ao Senegal para manter a passada. Ao intervalo, o placard mostrava três golos de vantagem para a RDC, 14-11.

No reatamento, o Senegal entrou melhor. Christiane Mwasesa, mesmo sem as precauções da defensiva senegalesa, não aparecia no jogo. O Senegal usou os primeiros 10 minutos para a cambalhota no marcador e vencia já por 19-16.  O Congo cometia falhas técnicas, umas atrás das outras. O jogo das senegalesas estava alegre. Comemoravam efusivamente cada finalização com êxito na baliza das congolesas que trajavam azul escuro, com vivos amarelos.

 Tudo saía mal à RDC, tanto na  defesa, como no ataque, onde Sako Hatadou, guarda-redes do Senegal, estava inspirada e protagonizada defesas de outro mundo. Ao minuto 20, o Senegal tremeu, voltou a ressentir-se da condição física. A RDC cresceu no marcador, mas estava bloqueada, sem motivação suficiente para voltar a comandar o marcador.

O Senegal, que aproveitou a brecha deixada pela Argélia, ganhava assim o seu prémio, enquanto as vice-campeãs continentais saiíam de cara baixa, na última posição, sem qualquer vitória.

OPINIÃO
Na boleia das Pérolas


Ufff, acabou. E o suspiro é de alívio! Alívio, porque o andebol de Angola se mantém no seu lugar. O de representante continental. Não me faltaram momentos de cepticismo em relação ao desfecho do caso "apuramento" aos J.O do Rio 2016.

Acredito que não fui o único agente da modalidade que esteve apreensivo com o apuramento, em função de muitos factores e metamorfoses que a modalidade vai vivendo no continente.

A Tunísia, depois de investir na colocação de algumas das suas atletas na Europa, viu em Paulo Pereira (P.P), português que trabalhou em Angola, o toque que lhe faltava para ser campeão continental.

Aproveitando o fim de um ciclo da equipa angolana e o conhecimento das suas executantes por P.P, ainda tirando proveito do desconhecimento quase total das jogadoras tunisinas pelos técnicos do continente, uma vez que, estrategicamente, as suas equipas femininas, regra geral, não participam nas competições da confederação, tudo isso e mais o factor casa, sagrou-se campeã, na prova que organizou em 2014.

Foi, ela própria responsável pelo afastamento das angolanas na meia-final, após vitória tangencial de 31-30. A final, sem Angola, todos sabiam que seriam favas contadas para a Tunísia que já vinha ganhando lugares desde que a Costa do Marfim se deixou moribundar.

Apesar da desfeita, pelo seu historial, Angola manteve intacta a liderança do ranking continental. Os menos crentes já falavam em quebra de hegemonia do andebol angolano.
Paulo Pereira recebeu muitas saudações e louros pelo feito. Não era para menos. Tinha chegado a uma terra que conhecia o gosto da vitória no andebol masculino, mas o mesmo não ocorria no feminino.

Inebriado pelo feito, P.P propôs-se a afastar as angolanas dos jogos olímpicos, palco exclusivo do andebol feminino angolano desde a edição de 1996.
Esteve muitos anos em Angola, mas, ao que tudo indica, não aprendeu tudo sobre nós. Desconhece a nossa capacidade de luta. Ignora que, quando feridos e pela honra, podemos virar "bichos do mato", como cantou o Duo Canhoto.

Deu-se mal. Quis tirar-nos dos Jogos Olímpicos, na Cidadela? Bateu na rocha. E, pelo andar da carruagem, vai precisar esperar por outro fim de ciclo da actual equipa angolana. Vai demorar. Deverá fazê-lo sentado e, mesmo assim, vai cansar-se de tal maneira...

A vitalidade do nosso andebol é assegurada por 61 clubes. Está na hora de pensar que clube de verdade, neste país, tem de ter andebol. É a modalidade ganhadora, quebremos, a menina dos nossos olhos. Se o futebol é modalidade rainha, o andebol tem um lugar privilegiado no palácio!
Outro dia, vamos betumar melhor estas ideias, porque hoje não há espaço para blá, blá, blá. Vamos mbora arrumar as mochilas. É Rio de Janeiro que está a bater, na boleia do andebol!
SILVA CACUTI