Jornal dos Desportos

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Rapazes de Filipe Cruz trazem primeiro ouro

Silva Cacuti - 05 de Setembro, 2019

Delegao angolana foi recebida de forma apotetica

Fotografia: Dombele Bernardo |Edies Novembro

Uma, duas e três! Após duas finais perdidas nos torneios de 2011, em Maputo, 2015 em Brazzaville, a terceira foi de vez! A Selecção Nacional sénior masculina de andebol conquistou, pela primeira vez, um troféu continental ao bater a similar do Egipto, na final do torneio dos Jogos Africanos disputados recentemente em Rabat, Marrocos. Angola venceu por 31-25.
Os integrantes da Selecção Nacional, também designada por \"Guerreiros\" chegaram ao país na terça-feira e protagonizaram uma festa à chegada, onde os aguardava uma multidão composta por dirigentes, desportistas e adeptos da modalidade.
A chegada dos campeões esteve prevista para as 14h30, mas o placard na sala de espera anunciou o adiamento para as 14H41 minutos. E quando bateu a hora, já era possível a interacção com a comitiva, estavam em terra! Tinham chegado ao país, os fazedores da história do andebol masculino angolano. Por volta das 15H30 minutos saíram os primeiros campeões, atrás dos carrinhos de bagagem que empurravam.
A ovação veio da fila de trás, onde estavam as esposas, familiares e companheiros de labuta, mas tinham de esperar. Pedro Godinho, que representava a Federação Angolana de Andebol e o Comité Olímpico Angolano, e Matos Cardoso, representante do Ministério da Juventude e Desportos foram os primeiros a saudar os campeões. Depois as entrevistas, das quais alguns se esquivaram para ir abraçar a cara-metade ou o cassule, que chamava pelo papá.
O ambiente era festivo. O aparato da Federação de Desportos Náuticos, na mesma ocasião, que recebeu os campeões africanos na classe \"optimist\" estava montado e o som do batuque derrubou o silêncio. Eram todos campeões.
Foram precisos 45 anos, depois da Fundação da Federação Angolana de Andebol, para a obtenção da primeira medalha doirada em selecções.
O caminho foi longo, tortuoso. Passaram pela selecção nacional vários treinadores estrangeiros, mas quis o destino que, tal como aconteceu com as senhoras, fosse um treinador angolano a oferecer ao país a primeira medalha de ouro. Filipe Cruz, já coroado com a equipa sénior feminina, logrou subir ao pedestal mais alto do pódio e sentiu o gosto único da primeira vez.
É que há pouco mais de uma década, quando começou a construir a base da equipa campeã, já o treinador exaltava a grade atitude de seus rapazes, a quem apelidou de \"kafukafukas\". Os \"kafucafukas\", que estiveram no torneio sub 16, da CPLP de 2008, no rio de Janeiro, Brasil, fazem a base da equipa que tem a seus pés a África.
Cláudio Lopes, Adelino Pestana, Romé Hebo, Adilson Maneco e Manuel Nascimento não esquecem aquela primeira viagem como internacionais e, agora, relembram-na como o início de tudo.
\"São por aí 12 anos que viemos lutando por isso, uma equipa formada por Filipe Cruz, da qual faço parte. Conseguimos meter o nosso nome na história do andebol, estamos preparados. Com este título vamos ter desafios maiores. É o princípio de uma grande batalha que vem pela frente, no campeonato africano\", disse Adelino Pestana \"Amarelo\".
Para Cláudio Lopes é uma conquista que vem marcar a época, como uma das melhores da sua carreira. \" Isto começou na CPLP, é um projecto que já vem de longe. Estou feliz, ganhámos todos os títulos nacionais com o Interclube e, agora, este ouro vem provar, que tem sido uma época magnífica para mim. Este título leva-nos a continuidade do trabalho para dignificarmos cada vez mais o nosso andebol\", comentou.
Conseguir um título continental tem um gosto especial para Geovani Muachissengue, capitão da selecção nacional, por estar perto do fim da sua carreira.
\"Lutamos bastante. Há duas edições dos jogos africanos estivemos nas finais e não conseguimos, à terceira é de vez, conseguimos fazer o que nos foi pedido. Daqui para frente temos que pensar no CAN de andebol, que vai ser na Tunísia\", garantiu Muachissengue.
António Luwawa, adepto do desporto, destacou-se entre os presentes. Trajado com as cores nacionais, o adepto dançou ao ritmo festivo do batuque e disse ser um momento especial. \"Estou mais acostumado a vir receber as meninas de ouro, hoje nem dei por elas, a alegria é grande, porque é a primeira vez e os rapazes lavaram o rosto do nosso andebol\", exteriorizou.

Futuro
Piscar de olhos aos parceiros


A conquista do primeiro ouro continental do andebol masculino a nível de selecções, pode implicar uma mudança na forma como a sociedade e parceiros olham para o sector masculino. O País está acostumado a receber as Pérolas, designação da selecção feminina, a qual atrai atenção não só dos adeptos mas também dos parceiros da federação.
Diante deste quadro, a estratégia adoptada pela direcção da Federação Angolana de Andebol tem passado por gerir os recursos que chegam para a equipa feminina, com o máximo de poupança, a fim de que sobre algo para apoiar os masculinos.
A visão pode mudar e, Natália Bernardo, uma das integrantes da selecção feminina, também medalhada com ouro, foi das primeiras a passar a ideia. Abordada pela nossa reportagem, a meia-distância foi de poucas palavras. \"Estou feliz por ter regressado à selecção, pelo tempo que joguei, mas julgo que o momento é para dar voz à selecção masculina, pelo grande feito que conseguiu\", disse.
Geovany Muachissengue, capitão da equipa, também puxou a \"sardinha\" para a sua \"lata\" e sem rodeios disse esperar algo novo para o andebol masculino. \"Isto não veio num dia só. Espera que a federação ou quem de direito possa olhar para nós, porque esta selecção, nos últimos dez anos tem feito bons resultados, coisas bonitas e digo para olharem para nós. Hoje já conseguimos ser a terceira potência em África\", reivindicou.
Pedro Godinho, presidente da Federação Angolana de Andebol, função da qual reitera intenção de afastar-se, celebrou a conquista de forma efusiva.
De entre vários motivos o que mais relevou é o facto de poder despedir-se da direcção do andebol com um sonho realizado, o do ouro.
\"Sou muito grato ao Filipe Cruz e a geração do Geovany, Teka, Elias e outros, porque assisto todos os dias a vontade férrea que eles tiveram, para alguns deles não terminarem a carreira sem uma medalha de ouro. Enquanto presidente, terminar o mandato com a medalha inédita da selecção masculina, numa altura em que fizemos a primeira dobradinha, não há como não me sentir feliz, e ver-me, por esta medalha, reconhecido eu e o elenco que me acompanha, por todo esforço feito por nós, atletas e todos os treinadores que passaram por esta selecção. É a medalha da persistência\", começou.
Participaram da conquista do torneio os seguintes atletas: Agnelo Quitongo e Gabriel Teca (pivôs), Rome Hebo, Cláudio Lopes, Elias António e Manuel Nascimento (centrais), Feliciano Couveiro, Adelino Pestana, Mário Tati, Declerck Sibo (laterais); Giovany Muachissengue e Custódio Gouveia (guarda-redes), Elsemar Pedro, Otiniel Pascoal e Cláudio Chicola. Filipe Cruz foi coadjuvado tecnicamente por José Nóbrega, João Chiloia, Agostinho NAzaré e Vilma Lourenço.