Jornal dos Desportos

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Modalidades

A grande \"odisseia\" à conquista de África

Matias Adriano - 08 de Setembro, 2017

O basquetebol viria a cair numa espécie de orfandade, em face da saída do país,

Fotografia: M. Machangongo

Quando no dia 12 de Março de 1976 o departamento gimnodesportivo da JMPLA convocou nas suas instalações, na antiga sede da Mocidade Portuguesa, uma reunião para traçar as linhas essenciais do relançamento da modalidade, então mergulhada numa incómoda hibernação, poucos imaginavam que se estava a lançar a semente que anos mais tarde viria a germinar um basquetebol de apurado teor qualitativo a nível do continente africano.

Na verdade, sendo um desporto elitizado no período que antecedeu à ascensão do país à independência, o basquetebol viria a cair numa espécie de orfandade, em face da saída do país, no quadro do processo de descolonização, dos seus principais artifices, entre praticantes, técnicos e formadores. Daí que, havia toda uma necessidade de se repensar a modalidade na busca de novos trilhos.

Entretanto, a comissão dinamizadora, saída do conclave de 12 de Março de 1976, não se poupou a esforços. Pós mãos à obra, e com estratégia bem ensaiada não tardou apresentar os primeiros resultados. A organização de uma série de jogos amistosos foi, à partida, entendida pela antiga Direcção Geral da Juventude e Desportos como forma de tornar o basquetebol mais popular.

Nesse período, Vitorino Cunha, antigo atleta do Centro Desportivo Universitário de Angola-CDUA se junta ao movimento de revitalização da modalidade, acabando por ser uma mais-valia na execução de acções delineadas, em face da sua entrega e experiência. Afinal à época ele era só o responsável pelo basquetebol da Direcção Geral da Juventude e Desportos do Ministério da Educação e Cultura.

Em todo o caso, deve dizer-se que apesar do esforço conjugado, ainda assim, do ponto de vista competitivo as acções da modalidade eram de uma forma ou de outra bastante tímidas. Competitivamente podemos tomar como ponto de partida para o nosso basquetebol o torneio de abertura (a nível de clubes) ganho pelo Ferroviário de Angola em 1978, e os II Jogos Universitários Africanos de Nairobi (a nível de selecção) disputados de 29 de Dezembro de 1978 a 7 de Janeiro de 1979.

Seja como for, a modalidade foi ganhando terreno, ao mesmo tempo em que se investia forte nos escalões de formação. Os títulos nos Campeonatos Africanos de juniores em 1980, em Luanda, e 1982 ,em Maputo, eram só o aviso, se não o recado, de que Angola estava a surgir e não tardava a conquistar espaço entre as principais potências do basquetebol continental. E na verdade assim aconteceu.

Estreia em Afrobaskets
Entretanto, lograda a qualificação, deixando pelo caminho na última eliminatória a vizinha selecção da Zâmbia, Angola faz a sua estreia em fases finais do campeonato africano em 1980, no Reino do Marrocos. Antes, um estágio pré-competitivo foi cuidadosamente organizado. A Jugoslávia, país aliado do Bloco Socialista, e com forte tradição na modalidade, mereceu a escolha, para a necessária melhoria  das performances.

Como seria de esperar, a estreia na prova não foi famosa. Mas verdade seja dita, também não se pode dizer que a selecção tenha andado a ver navios, olhando para o quadro de resultados, mesmo desfavoráveis. Houve quase sempre algum equilíbrio nos resultados produzidos, sendo o mais volumoso a derrota com a Costa do Marfim (59-85), determinando uma diferença de 26 pontos. Aliás, foi ela quem aplicou chapa cem, na única vitória que obteve na prova. A vítima foi a Guiné Conmacry a quem bateu por contundentes 102-88.

No cômputo geral, quedou-se na sétima posição, numa competição em que tomaram parte onze países, alguns dos quais já com forte tradição na modalidade a nível continental. Como estreante, não se lhe podia exigir muito, e diga-se de passagem, não comprometeu. Mário Palma, o seleccionador nacional, contou com jogadores como António Guimarães, Arnaldo Guimarães, Mário Octávio, Barbosinha, Carlos Cunha, Gustavo da Conceição, Rui Marques, Hilário de Sousa, António Henriques”Tonecas”, Victor Almeida, Carlos Oliveira e Leitão Nunes.

Contrariamente ao que se esperava, no regresso dois anos mais tarde à competição, Angola “meteu água”. Na prova que se disputou em Dezembro de 1981 em Mogadíscio (Somália), ao invés de crescimento revelou regressão, e como consequência piorou a classificação anterior, tendo ficado, dessa vez, em nono lugar. Tratou-se de um \"desastre” que surpreendeu a todos, pois a equipa tinha crescido do ponto de vista morfológico, contando com jogadores mais altos e com mais peso.

Poder-se-ia dizer que o Afrobasket de Mogadíscio foi para esquecer. A selecção apresentou-se completamente desastrada, mal a atacar, mal a defender, o que resultou numa colecção de derrotas em todos os jogos que disputou. A imprensa desportiva da época não poupou críticas a Vitorino Cunha, seleccionador nacional. O bom do homem viria a ganhar, por alguma ironia, a alcunha de \"Derrotino Cunha\", cobrindo-o de todas as culpas pela má actuação da equipa.

Angola toca o céu
 com a mão

O Afrobasket’83 disputado no Egipto marca o surgimento de uma nova potência basquetebolística africana. Angola que na edição anterior, em Mogadíscio, acabou por ser aquilo que se ousa dizer “saco de pancadas”, acabava por surpreender positivamente, levando a África a render-se ao fascínio e à classe da sua exibição. Era, realmente, uma outra selecção, aquela levada pelas mãos de Valdemiro Romero.

A injecção de sangue novo na equipa terá, certamente, jogado papel fundamental. Jean-Jacques da Conceição e José Carlos Guimarães, que tinham sido verdadeiros esteios na selecção de juniores que um ano antes tinha sido campeã africana em Maputo, eram as peças mais notáveis da equipa que se tinha apresentado em Alexandria. A par destes, estavam ainda Zezé Assis, Josué Campos, Artur Barros e outros.

Com uma prestação fantástica, surpreendendo a tudo e a todos, o “cinco” nacional chegava à final do certame, tendo sido derrotado pelo anfitrião Egipto. Seja como for, estava feita a promessa, ficava ai o aviso de que a baixo do Shaara emergia uma forte potência no basquetebol. Animado com a excelente classificação obtida em Alexandria, Angola continuou a investir forte na modalidade augurando o futuro.

Em 1985 quando Abidjan(Costa do Marfim) recebeu a prova e com o professor Vitorino Cunha regressado ao comando da equipa, bisou-se a façanha. Aliás, Abidjan foi uma cópia fiel de Alexandria. Os angolanos voltaram a cair na série do país anfitrião e tal como na vez anterior não conseguiram evitar a derrota no jogo inaugural. Longe de caírem em desânimo, levantaram a cabeça e partiram para a luta. Determinados lograram a qualificação para a fase seguinte e dai não mais pararam até chegar à final da prova, voltando a perder com a selecção local.

Se alguém pensou que a prestação e classificação de Alexandria podia ser consequência de uma mera inspiração da equipa, que também terá aproveitado a negligência de selecções tidas à priori como favoritas, acabou chamado à razão. O nosso país se assumia, realmente, numa potência emergente na praça do basquetebol africano. Duas presenças na final da competição em situação alguma podiam ser entendidas como obra de mero acaso.

Aliás, mesmo em jogos fora da competição africana, inseridos em torneios isolados de carácter internacional, Angola já dava mostras de uma acentuada maturidade competitiva. Por exemplo, em 1985, um pouco antes da prova africana, passeou classe e elegância no torneio internacional comemorativo aos dez anos da nossa independência, distribuindo cabazadas a todos participantes, incluindo a própria Costa do Marfim.

Quando em 1987 a prova se disputou em Tunis(Tunísia) Angola, como vice-campeã das duas edições anteriores, não tinha como não se apresentar na condição de forte candidata ao título. Era quase que uma obrigação lutar pela coroa. O começo do torneio foi auspicioso. Ao contrário das edições anteriores Angola já não foi escolhida a abrir a prova com a selecção local e nem calhou no grupo desta.

No começo tudo corria à preceito. O \"cinco\" angolano foi passando vitoriosamente por outras selecções com tamanha facilidade, mais parecia uma motoniveladora sobre terreno ondulado, e assim atingiu as meias-finais. Até ai nada fazia prevêr um descalabro, porque para si estavam voltadas todas as atenções. Era indubitavelmente a nova promessa do basquetebol africano, não sendo sem razão que três jogadores seus, Jean Jacques da Conceição, Gustavo da Conceição e José Carlos Guimarães tinham integrado poucos meses antes, como titularíssimos, a selecção de África que, no Cairo, jogou no Jubileu da AFABA.

Mas quis o diabo que a meia-final ditasse a sentença para o “cinco” nacional, que acabou surpreendido pelo Egipto, com quem viria a perder por 77-83, com Abdel Maguid a revelar-se no verdadeiro carrasco para os comandados de Vitorino Cunha. O sonho de subir pela primeira vez ao pódio virava um verdadeiro pesadelo e um dos melhores intérpretes do nosso basquetebol, Gustavo da Conceição, se despedia nessa edição da selecção de forma inglória.

Luanda marca
a viragem da história

Em 1989 a Cidadela que nove anos antes tinha recebido numa noite mágica a épica final do Africano de juniores, entre Angola e República Centro Africana, vestia-se de cores para receber a XV edição do Afrobasket. Egipto, Costa do Marfim, Senegal e RCA que formavam o quarteto dos “senhores” poderosos do basquetebol em África receavam o fim do seu império. Pois, uma selecção que há três edições vinha mostrando a sua vitalidade, dificilmente seria vergada em sua própria casa.

Dito e feito. Nesse campeonato Vitorino Cunha e seus pupilos foram estupendos. Mostraram garra, raça e acima de tudo muito virtuosismo, fazendo um campeonato sem mácula. Ou seja, sem tropeço. Em todos os jogos venceram sem quaisquer apertos, dando sempre larga margem de diferença pontual aos seus adversários.

A final disputada no dia 28 de Dezembro foi contra o Egipto, o mesmo que tinha sido responsável pelo afastamento da corrida ao título uma edição antes em Tunis. Aqui já não se viu a explosão de nenhum Abdel Maguid, e foi copiosamente derrotado por 89-62. A Cidadela explodiu de alegria e a festa evadiu-se por Luanda noite a dentro.

José Carlos Guimarães, eleito o melhor jogador do torneio, Jean-Jacques da Conceição, Necas, Ângelo Vitoriano e demais companheiros, escancaravam o caminho que levaria Angola à conquista do estrelato. Afinal, depois dessa edição só foi somar, tendo de lá para cá havido apenas três interrupções, nomeadamente no Senegal’95, Ilhas Maurícias’2011 e Tunísia’2015.

O país aguarda expectante pela edição que hoje tem início em dois países, Senegal e Tunísia, por uma prestação ao nível daquilo que tem caracterizado o nosso basquetebol, e que Manuel Silva \"Gi\" e seus rapazes consigam atingir o objectivo e levem Angola ao resgate da Glória.