Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Modalidades

Caminhos para a conquista do basquetebol

Matias Adriano - 11 de Novembro, 2015

O domínio de Angola começou em 1989 com a conquista do Afrobasket em Luanda

Fotografia: Jornal dos Desportos

Quando no dia 12 de Março de 1976, o departamento gimnodesportivo da JMPLA convocou nas suas instalações, na antiga sede da Mocidade Portuguesa, uma reunião que traçou as linhas essenciais para o relançamento da modalidade, então mergulhada numa incómoda letargia, poucos imaginavam que estava a lançar-se a semente, que anos depois veio a germinar um basquetebol de apurado teor qualitativo, a nível do continente africano.

Na verdade, sendo um desporto elitizado, no período que antecedeu à ascensão do país à independência, o basquetebol veio a cair numa espécie de orfandade, face à saída do país, no quadro do processo de descolonização, dos seus principais actores, entre praticantes, técnicos e formadores. Daí, que havia toda necessidade de repensar-se a modalidade, em busca de novos trilhos.

Entretanto, a comissão dinamizadora, saída do conclave de 12 de Março de 1976, não se poupou a esforços. Pôs mãos à obra e com estratégia bem ensaiada, não tardou a apresentar os primeiros resultados.  A organização, de uma série de jogos amistosos, foi à partida, tomada pela antiga Direcção Geral da Juventude e Desportos como forma de tornar o basquetebol mais popular.

Nesse período, Vitorino Cunha, antigo atleta do Centro Desportivo Universitário de Angola -CDUA junta-se ao movimento de revitalização da modalidade, acaba por ser uma mais-valia na execução de acções delineadas,  face à entrega e experiência. Afinal, na época, era só o responsável pelo basquetebol da Direcção Geral da Juventude e Desportos do Ministério da Educação e Cultura Em todo o caso, deve dizer-se que apesar do esforço conjugado, ainda assim do ponto de vista competitivo, as acções da modalidade eram de alguma forma ou de outra muito tímidas. Competitivamente, podemos tomar como ponto de partida para o nosso basquetebol, o torneio de abertura (a nível de clubes) ganho pelo Ferroviário de Angola em 1978 e os II Jogos Universitários Africanos de Nairobi (a nível de selecção) disputados de 29 de Dezembro de 1978 a 7 de Janeiro de 1979.

Seja como for, a modalidade foi ganhado terreno, ao mesmo tempo em que se investia forte, nos escalões de formação. Os títulos nos Campeonatos Africanos de juniores em 1980, em Luanda, e 1982 ,em Maputo, eram só o aviso se não mesmo o recado de que Angola estava a surgir e não tardava a conquistar espaço, entre as principais potências do basquetebol continental. E na verdade assim aconteceu.

 A estreia em
Afrobaskets

Entretanto, lograda a qualificação, deixando pelo caminho na última eliminatória a vizinha selecção da Zâmbia, Angola faz a sua estreia em fases finais do campeonato africano em 1980, em Marrocos. Antes, um estágio pré-competitivo foi cuidadosamente organizado. A Jugoslávia, país aliado do Bloco Socialista,  com forte tradição na modalidade, mereceu a escolha para melhorar as performances.

Como era de esperar, a estreia na prova, não foi famosa. Verdade seja dita, também não se pode dizer que a selecção andou a ver navios, olhando para o quadro de resultados, mesmo desfavoráveis. Houve quase sempre algum equilíbrio nos resultados produzidos,  o resultado mais volumoso foi a derrota para  a Costa do Marfim (59-85) determinando uma diferença de 26 pontos. Aliás, foi ela quem aplicou chapa 100, na única vitória que obteve na prova. A vítima foi a Guiné Conmacry a quem bateu por contundentes 102-88.

No cômputo geral, quedou-se na sétima posição, numa competição em que tomaram parte 11 países, alguns dos quais já com fortes tradições na modalidade, a nível continental. Como estreante, não podia exigir-se muito, e diga-se de passagem, não comprometeu. Mário Palma, o seleccionador nacional, contou com jogadores como António Guimarães, Arnaldo Guimarães,  Mário Octávio, Barbosinha, Carlos Cunha, Gustavo da Conceição, Rui Marques, Hilário de Sousa, António Henriques “Tonecas”, Victor Almeida, Carlos Oliveira e Leitão Nunes.

Contrariamente, ao que se esperava, no regresso dois anos mais tarde à competição, Angola “meteu água”. Na prova que se disputou em Dezembro de 1981, em Mogadíscio, (Somália), ao invés de crescimento revelou regressão, e em consequência piorou a classificação anterior, ficou dessa vez, em nono lugar. Foi um desastre” que surpreendeu todos, pois a equipa tinha crescido do ponto de vista morfológico, contava com jogadores mais altos e com mais peso.

Podia dizer-se que o Afrobasket de Mogadíscio foi para esquecer. A selecção apresentou-se completamente desastrada, mal a atacar, mal a defender, o que resultou numa colecção de derrotas em todos os jogos que disputou. A imprensa desportiva da época, não poupou críticas a Vitorino Cunha, seleccionador nacional. O bom do homem veio a ganhar, por alguma ironia, a alcunha de "Derrotino Cunha", cobrindo-o de todas as culpas da má actuação da equipa.

Angola toca o céu com a mão
O Afrobasket’83 disputado no Egipto, marca o surgimento de uma nova potência basquetebolística africana. Angola, que na edição anterior, em Mogadíscio, acabou por ser aquilo que soe dizer “saco de pancadas”, acabava por surpreender positivamente, levava a África a render-se ao fascínio e à classe da sua exibição. Era, realmente, uma outra selecção, a levada pelas mãos de Valdemiro Romero.

A injecção de sangue novo, certamente, jogou papel um fundamental. Jean - Jacques da Conceição e José Carlos Guimarães, que tinham sido verdadeiros esteios na selecção de juniores, que um ano antes tinha sido campeã africana, em Maputo, eram as peças mais notáveis da equipa que se tinha apresentado em Alexandria. A par destes, estavam ainda Zezé Assis, Josué Campos, Artur Barros e outros.

Com uma prestação fantástica, a surpreender  tudo e a todos, o “cinco” nacional chegava à final do certame,  derrotada pelo anfitrião Egipto. Seja como for, estava feita a promessa, ficava aí o aviso, de que a baixo do Shaara emergia uma forte potência no basquetebol. Animado com a excelente classificação obtida em Alexandria, Angola continuou a investir forte na modalidade, na perspectiva do futuro.

Em 1985, quando Abidjan (Costa do Marfim) recebeu a prova e com o professor Vitorino Cunha regressado ao comando da equipa, bisou-se a façanha. Aliás, Abidjan foi uma cópia fiel de Alexandria. Os angolanos voltaram a cair na série do país anfitrião e tal como na vez anterior, não evitaram a derrota no jogo inaugural. Longe de caírem em desânimo, levantaram a cabeça e partiram para a luta. Determinados lograram a qualificação para a fase seguinte e daí não mais pararam, até chegar à final da prova, voltou a perder com a selecção local.

Se alguém pensou que a prestação e classificação de Alexandria podia ser consequência de uma mera inspiração da equipa, que também pode bter aproveitado a negligência de selecções tidas à priori como favoritas, acabou chamado à razão. O nosso país  assumia-se, realmente, com potência emergente na praça do basquetebol africano. Duas presenças na final da competição, em situação alguma, podiam ser entendidas como obra de mero acaso.

Aliás, mesmo em jogos fora da competição africana, inseridos em torneios isolados de carácter internacional, Angola já dava mostras de uma acentuada maturidade competitiva. Por exemplo, em 1985, um pouco antes da prova africana, passeou classe e elegância no torneio internacional comemorativo aos dez anos da nossa independência, a distribuir cabazadas a todos os participantes, incluindo a Costa do Marfim.

Quando em 1987 a prova se disputou em Tunis (Tunísia), Angola como vice -campeã das duas anteriores edições, não tinha como não apresentar-se na condição de forte candidata  ao título. Era quase que uma obrigação lutar pela coroa. O começo do torneio foi auspicioso, ao contrário das edições anteriores, Angola já não foi escolhida para abrir a prova com a selecção local e nem calhou no grupo desta.

No começo tudo corria à preceito. O "cinco" angolano passava vitoriosamente por outras selecções, com tamanha facilidade, mais parecia uma motoniveladora sobre terreno ondulado, e assim atingiu as meias-finais. Até aí nada fazia prever um descalabro, porque para si estavam voltadas todas as atenções. Era indubitavelmente a nova promessa do basquetebol africano, não era sem razão que três jogadores seus, Jean Jacques da Conceição, Gustavo da Conceição e José Carlos Guimarães tinham integrado poucos meses antes, como titularíssimos, a selecção de África, que no Cairo jogou no Jubileu da AFABA.

Mas quis o acaso, que a meia-final ditasse a sentença  ao “cinco” nacional, que acabou surpreendido nas meias-finais pelo Egipto, com quem veio a perder por 77-83 com Abdel Maguid a revelar-se no verdadeiro carrasco, para os comandados de Vitorino Cunha. O sonho de subir pela primeira vez ao pódio era um verdadeiro pesadelo e um dos melhores intérpretes do nosso basquetebol, Gustavo da Conceição despedia-se nessa edição da selecção de forma inglória.

Luanda marca a
viragem da história

Em 1989, a Cidadela que nove anos antes tinha recebido numa noite mágica, a épica final do Africano de juniores, entre Angola e República Centro Africana, vestia-se de cores para receber a XV edição do Afrobasket. Egipto, Costa do Marfim, Senegal e RCA que formavam o quarteto dos “senhores” poderosos do basquetebol em África recearam o fim do seu império. Uma selecção que há três edições mostrava a sua vitalidade, dificilmente era vergada em sua própria casa.

Dito e certo. Nesse campeonato, Vitorino Cunha e seus pupilos, foram estupendos. Mostraram garra, raça e acima de tudo, muito virtuosismo, fizeram um campeonato sem mácula. Ou seja, sem tropeços. Em todos os jogos venceram sem quaisquer apertos, davam sempre largas margens de diferença pontual aos seus adversários.

A final disputada no dia 28 de Dezembro, foi com o Egipto, o mesmo que tinha sido responsável pelo afastamento da corrida ao título uma edição antes, em Tunis. Aqui já não se viu aexplosão de nenhum Abdel Maguid, e foi copiosamente trucidado por 89-62. A Cidadela explodiu de alegria e a festa evadiu-se por Luanda noite a dentro.

José Carlos Guimarães, eleito o melhor jogador do torneio, Jean -Jacques da Conceição, Necas, Ângelo Vitoriano e outros desbarataram o caminho que levava Angola à conquista do estrelato. Afinal, depois dessa edição só foi somar, de lá para cá houve apenas três interrupções, nomeadamente no Senegal’95, Ilhas Maurícias’2011 e Tunísia’2015. Não era de bom tom, no rescaldo dos feitos desportivos, nos 40 anos da nossa independência passar ao largo desta façanha. Melo Clemente trás noutro espaço a súmula do percurso glorioso que levou ao 11º campeonato africano.