Jornal dos Desportos

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EUA e Sérvia jogam final do Mundial

Policarpo da Rosa , Madrid - 14 de Setembro, 2014

Estados Unidos são o grande favorito à conquista de mais um título mundial de basquetebol que hoje termina em Espanha

Fotografia: DR

Hoje é o dia de todas as decisões. Da grande final do 17º Campeonato do Mundo de Basquetebol, que decorre em Espanha desde o passado dia 30 de Agosto. As selecções dos Estados Unidos e da Sérvia decidem hoje no Pavilhão dos Desportos de Madrid, às 20h00 de Angola (21h00 em Madrid) o título mundial. Um privilégio legitimo, porque foram as mais competentes durante a competição.

Se a presença dos Estados Unidos na final desta noite não surpreende quem tem acompanhado esta mundial, o mesmo não se pode dizer da Sérvia, principalmente depois da mediocridade apresenta durante a primeira fase, em que consentiu quatro derrotas, vencendo apenas as duas selecções mais fracas do seu grupo (Irão e Egipto).

Contudo, com o decorrer da competição, os sérvios foram melhorando gradualmente o seu jogo, superando a sua deficiência e, hoje, diante do colosso e favorito Estados Unidos, pretendem manter a mesma postura. Postura esta que os levou a superar nos "oitavos" a Grécia (90-72); nos "quartos" o Brasil (84-56) e nas meias finais a França (90-85), que, na fase anterior, sufocou o Pavilhão dos Desportos, vencendo de forma categórica a selecção anfitriã.

Os Estados Unidos teve uma caminhada muito mais folgada. Uma caminhada só de vitórias. É a única selecção que ainda não consentiu qualquer derrota nos oito jogos disputados até aqui. Uma trajectória 100 por cento positiva e que vai procurar manter hoje. Nos jogos anteriores, os Estados Unidos fulminaram os seus adversários. Defesas ultra-agressivas, roubos de bola, intimidação e velocidade supersónica nos ataques, foram factores que pesaram, sobremaneira, nas vitórias alcançadas até aqui pelos Estados Unidos.

Sempre se disse que quem chega a final de uma competição o objectivo é vencer. E a Sérvia, apesar de reconhecer o poderio do seu adversário, vai entrar para a quadra de jogo decidida. Disposta a contrariar o maior poder competitivo dos Estados Unidos. Diante da França, na noite de sexta-feira, Teodosic, jogador sérvio, deslumbrou.

 Marcou 24 pontos, ganhou três ressaltos e fez o mesmo número de assistências, durante os 33 minutos que esteve em campo. Foi o grande artífice da vitória da Sérvia diante da França, que apenas no último quarto mostrou o basquete apresentado diante da Espanha. Mas já era tarde, porque a Sérvia soube gerir a vantagem que tinha no marcador. Hoje a história vai ser diferente, já que tem pela frente um adversário psicologicamente motivado e que tem como objectivo revalidar o título conquistado, em 2010, na Turquia. Um adversário que colecciona oito vitórias consecutivas e que não tem poupado os seus adversários. Curry, James Harden, Irving, têm feito a diferença e hoje não vai ser diferente.

Os Estados Unidos apresentam um modelo de jogo mais pragmático e sólido. Uma equipa muito mais distinta que nunca vira cara a luta, mesmo quando o seu adversário procura cortar-lhes o espaço. A Sérvia cujo "verdadeiro" Mundial "só" começou nos oitavos-de-final, não possui no seu plantel jogadores do calibre do seu adversário. Mas faz do seu jogo de equipa a grande arma.

 Daqui se pode inferir que quer no modelo estratégico quer na filosofia, as duas equipas teoricamente se encaixam na perfeição. Assim sendo, o jogo vau ser decidido pela acção dos criativos. Sasha Djordjevic, técnico da Sérvia, vai certamente rectificar alguns pormenores de modo a equilibrar o jogo patenteado até aqui pelos Estados Unidos.


CINCO INICIAL
Pavilhão dos Desportos, em Madrid


Capacidade: 13.700 espectadores
Estados Unidos: Stephen Curri, Kenneth Faried, Kyrie Irving, James Harden e Anthony Davis.
Treinador: Mike Krzyzewski (americano)
Sérvia: Milos Teodosic, Nemanja Bjelica, Stefan Markovic, Nikola Kalinic e Miroslav Raduljica
Treinador: Sasha Djordjevic (sérvio).


O MEU MUNDIAL
Saudades da banda


Os dias estão a chegar ao fim. Estou farto de estar aqui. Em Madrid, então, pior. Na Gran Canária foi mais divertido. Com as suas grandes praias, com a sua alimentação. O ambiente difere muito daquele que encontrei aqui em Madrid.

Estou com saudades da banda. De Luanda. Apesar de não gostar de muitas coisas; de ter de aturar o grande engarramento, com as mbaias dos candongeiros, dos agentes de trânsito, que muitas vezes ignoram a condução dos candongueiros, das vendas nas ruas, enfim, uma série de coisas que não são visíveis tanto em Las Palmas como aqui em Madrid. Mas é a minha Luanda. Goste ou não.

Não como funge há bastante tempo. Ai que saudades! A semana passada, num sábado, ainda em Las Palmas, o Zé Cola ligou para a família e soube que estavam a almoçar funge com ginguinga de cabrito. Não imaginam como ficámos. Com água na boca. Almoçámos na imaginação. Foi a alternativa encontrada.

A primeira coisa que vou comer quando chegar será funge com carapau grelhado. Grosso. Acompanhado com alguma verdura. Couve, repolho ou gimboa. Uma destas ervas vai acompanhar-me a desgustar o meu almoço. Com água, claro.

O Campeonato do Mundo encerra hoje as suas cortinas. E com uma final que não estava nas previsões dos espanhóis. Sonhavam com uma final com os Estados Unidos. O tiro saiu-lhes pela culatra. Vão ver a final na bancada ou pela televisão. Foram arrogantes demais. Estavam convictos que era chegar ver e vencer. Não tiveram em conta os desejos das restantes selecções. Um autêntico desrespeito.

A Sérvia é o adversário do "meu" Estados Unidos. Não vou dizer que os EUA têm a vida facilitada, porque a Sérvia demonstrou nos últimos três jogos o seu verdadeiro valor. Despois de três derrotas na primeira fase despachou todos os adversários que lhe surgiram pela frente. Foi um vendaval.

É verdade que a tarefa é mais facilitada. Se a final fosse com a Espanha seria diferente, porque teria "todo" o campo a apoiar a selecção anfitriã.  Mas o desporto tem destas coisas. Nem sempre vence a melhor equipa; ou aquela que tem os melhores jogadores. A vitória da França diante da Espanha confirmou tudo isso. Estarei na bancada. Eu e os meus amigos do JD. Comprámos bilhetes. Não havia outra alternativa. Conseguimos uns mais baratos. A amizade conta muito. O Zé simpatizou-se com uma americana, que nos facilitou a vida. Arranjou-nos bilhetes de 40 euros cada um. Uma americana simpática e muito bonita.

O veto da FIBA estendeu-se. Só os jornalistas dos selecções finalistas tiveram direito à acreditação. Os restantes compraram bilhetes ou vêem o jogo no "Fan Zone", ou nos quartos dos hotéis em que estão hospedados.

Nós, enviados do JD, vamos estar nas bancadas do Pavilhão dos Desportos, graças à amiga do Cola. Eu vou torcer pelos Estados Unidos. Os outros não sei. Mas cada um é livre de apoiar a selecção com quem mais simpatiza.
POLICARPO DA ROSA, EM MADRID


OPINIÃO DOS  TÉCNICOS


Krzyewski (Estados Unidos)
“Respeitamos  o adversário”

“Reconhecemos o potencial da Sérvia, que depois de um mau inicio soube reagir. Todos consideram que somos favoritos, mas este favoritismo temos de o demonstrar dentro das quatro linhas", disse o técnico dos EUA, quando fazia a antevisão do jogo. Ao referir-se ao afastamento da Espanha, Krzyewski, disse: “Não foi uma surpresa. Tinha advertido de que havia outras equipas favoritas”.


Djordjevic (Sérvia)
“A nossa presença  na final é histórica”


Na antevisão do jogo contra os Estados Unidos, depois da vitória diante da França, e ainda a festejar a presença na final, o técnico da Sérvia foi parco nas palavras.
“Estamos na final e isso é uma grande alegria para o povo sérvio. Vamos procurar dignificar o nosso país”. Falando sobre o afastamento da Espanha, que sonhava estar hoje na final, disse: "Pensavam que eram os melhores, que já tinham conquistado o título. Foram arrogantes”.


PERCURSO
Como chegaram à final


Cada uma das selecções realizou oito jogos, cinco dos quais na primeira fase. Os Estados Unidos venceram todos ao contrário da Sérvia que apenas venceu cinco, dois dos quais na primeira fase.

ESTADOS UNIDOS
1º-Finlândia (114-55)
2º-Turquia (98-77)
3º-Nova Zelândia (98-71)
4º-República Dominicana (106-71)
5º-Ucrânia (95-77)
6º-México (96-63)
7º-Eslovénia (119-76)
8º-Lituânia (96-689

SÉRVIA
1º- Egipto (85-64)
2º-França (73-74)
3º-Irão (83-70)
4º-Brasil (73-81)
5º-Espanha (73-89)
6º-Grécia (90-72)
7º-Brasil-84-56
8º-França-90-85


KENNETH FARIED
O potencial MVP do mundial mais subvalorizado


O extremo-poste Kenneth Faried é pouco falado e sub-valorizado até dentro da NBA. É dono do salário mais baixo entre os cinco titulares da selecção dos Estados Unidos da América no campeonato mundial que encerra hoje em Espanha.

Conhecido como "Manimal", contracção da palavra inglesa man (homem) e animal, Kennet Faried mostra o seu lado mais selvagem dentro de quadra. Fora das tabelas, uniu-se à causa gay e mostrou-se defensor do casamento entre homossexuais. Isso porque o jogador foi criado por duas mulheres: a mãe biológica e a sua esposa. É dono de um vídeo  sentado ao lado de ambas no qual apoia a união entre as pessoas do mesmo sexo. A gravação, realizada em 2013, virou um sucesso no YouTube com mais de 300 mil visualizações.

"Ninguém pode dizer-me que não tenho duas mães, porque as tenho", diz um trecho do vídeo.

Conhecido também pela sua vasta cabeleira, Faried não era a primeira, nem a segunda opção do técnico Mike Krzyzewski para a disputa do Campeonato Mundial. Blake Griffin e Kevin Love tinham vantagem na disputa. Porém, após pedirem  dispensas, não deixaram outra opção ao treinador a não ser a de apostar no jovem de 24 anos e de 2,03 metros de altura. E o risco assumido rende dividendos maiores do que o esperado.

Após sete partidas dos EUA no torneio, Faried aparece como o segundo maior marcador da equipa. Com média de 13 pontos por partida, está a apenas atrás de Anthony Davis, que tem 13,7. Nos ressaltos, porém, é dominante. Com 8,1 por jogo, lidera as estatísticas da equipa e é o nono entre todos os atletas que disputam a competição.

"É a maior surpresa. Transformou-se num jogador muito importante para a nossa equipa. Joga com uma grande energia e vai muito bem para os ressaltos; joga duro todos os segundos. Não temos nenhum tipo de jogada preparada para ele, mas mesmo assim faz o seu jogo e faz os seus companheiros jogarem", disse Krzyzewski.

Kenneth Faried, que disputa a sua primeira competição oficial pela selecção norte-americana, disse que pratica o desporto que ama, Cresceu a amar esse jogo e a ver os garotos a darem duro.  "Tenho este estilo enérgico, porque amo muito este desporto", disse Jogador do Denver Nuggets desde 2011, quando foi a 22ª escolha do draft, Kenneth Faried ainda possui um contrato de novato. Isso explica os seus baixos rendimentos anuais comparados a outros astros desta equipa, como Derrick Rose, Stephen Curry e James Harden. Os 2,3 milhões de dólares (cerca de 230 milhões de kwanzas) que vai receber na próxima época da NBA só superam os 1,3 milhões de dólares (cerca 130 milhões de dólares) que vai receber Mason Plumlee, o mais "pobre" entre os 12 norte-americanos que estão em Espanha em busca do título mundial.

Por conta das suas actuações, Faried surge como candidato a MVP e vai calar muitos críticos, como o jornalista norte-americano Zach Lowe, que classificou o extremo-poste como "um atleta que não pode arremessar, que sofre muito defensivamente e tem enormes dificuldades para proteger o aro".

"Não sei se estou a calar ou não os críticos. Vim para Espanha apenas para jogar basquetebol e praticar o desporto que amo", disse, sem criar polémica.