Jornal dos Desportos

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Kobe Bryant termina carreira

15 de Abril, 2016

Kobe Bryant abandona as quadras como recordista de pontos e assistências

Fotografia: AFP

Decorado no piso com os números 8 e 24, o Staples Center foi pequeno para receber os admiradores de Black Mamba. A homenagem do pavilhão juntou-se a tributos de Flea, baixista do grupo Red Hot Chili Peppers, que tocou o hino nacional norte-americano. Foi a noite de despedida. De choros e de saudades. Emoção. O ídolo norte-americano Kobe Bryant, aos 37 anos de idade, aposentava das quadras após 20 anos vestidos com as cores de Los Angeles Lakers.

Na abertura da noite de homenagem, Magic Johnson disse que as pessoas estavam presentes para celebrar "a grandeza por 20 anos, a excelência por 20 anos" do jogador mais velho a registar mais um recorde na liga norte-americano de basquetebol.

Em dia 13, felizmente não de sexta-feira, Kobe Bryant arrancou gritos e aplausos num jogo que mais parecia valer um título da NBA na longa carreira.
Desde o primeiro minuto na quadra, fez um jogo perfeito diante de Utah Jazz. Kobe expeliu toda a sua experiência que lhe valeram 60 pontos na vitória por 101 a 96. Um novo recorde. O show do craque envolveu lançamentos de triplos e de duplos. Para coroar a noite histórica, o tampão aplicado ao poste adversário no primeiro quarto levantou muitos gritos e aplausos. A sensação era de que o ídolo poderia continuar a jogar em alto nível. Mas era a despedida.

ANÚNCIO DA DESPEDIDA
Desde 2013, Kobe Bryant começou a sofrer com lesões constantes, que se reflectiu na queda de rendimento. O atleta continuou a jogar, apesar da crítica a respeito da sua persistência. Em 2015, os seus números eram os mais baixo da carreira. No dia 29 de Novembro de 2015, o agora ex-astro da NBA anunciou a aposentação em carta aberta para o mês de Abril de 2016. No dia 16 de Janeiro de 2016, anunciou aposentar-se também da selecção norte-americana, antes dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro'2016.

"´É hora de continuar em frente. Desde o meu anúncio de aposentação, vejo esses atletas (colegas) diferentes. São os futuro deste jogo. Esses são os atletas que merecem estar no Rio'2016. Esses sãos os atletas que as pessoas precisam assistir. Esses são os atletas para mostrar o futuro desse desporto. Já falei com Jerry Colangelo (presidente da Federação de Basquetebol dos EUA) e com o treinador da selecção, que fisicamente não consigo fazer isso. Agora, é a vez dos mais jovens jogarem. Quero jogar a minha última partida pelos Lakers. Jogar a minha última partida profissional pelos Lakers seria tão bonito quanto se fosse pelo meu país. Já tive o meu momento", escreveu.

HOMENAGEM
Agora era diferente. Um momento especial que marca a vida de muitos admiradores. Kobe ligou "o cordão umbilical" a diferentes gerações. Crianças, adolescentes, jovens e adultos. Homens da terra natal e do mundo. Todos com olhos postos em si. Com e sem lágrimas.

Em voz revestida de saudade, no final da partida, comentou que deixava tudo em Staple Center: "Não posso acreditar como 20 anos passaram rápidos. Estar com vocês e os meus companheiros de equipa, que estiveram comigo sempre nos altos e baixos, dá-me uma sensação especial. Cresci muito como adepto e atleta dos Lakers aqui. Ser trocado e passar 20 anos aqui não se poderia escrever uma história melhor que essa. Ganhámos campeonatos e fizemos do jeito certo. Tudo o que posso fazer é agradecer pelo carinho. Sinceramente, muito obrigado, do fundo do meu coração.
Amo vocês, a minha família e a minha esposa pelas muitas horas no ginásio. Não sei o quanto vos agradecer".

Com a consumação da despedida, Kobe Bryant vai subir de patamar. Ao deixar os pavilhões, o extremo-base vai ver o seu nome ao lado de outras lendas dos Los Angeles Lakers no alto do Staples Center, onde ficam as camisas aposentadas da agremiação.

Kobe Bryant deixa o Los Angeles Lakers e a NBA como um dos maiores jogadores de todos os tempos. Foi um dos poucos atletas a serem escolhidos no draft directo do High School para a NBA. Juntamente com poste Shaquille O'Neal e o técnico vitorioso Phil Jackson, Kobe levou os Lakers a três títulos consecutivos na NBA. Era a designada Dinastia nos EUA: 1999/2000, 2000/2001 e 2001/2002. A esses títulos junta aos das épocas 2008/2009 e 2009/2010.

Shaquille O'Neal deixou a equipa após a época 2003/2004. Kobe torna-se na estrela principal dos Lakers e melhor cestinha da NBA em duas épocas consecutivas: 2005/2006 e 2006/2007. Nesse período, quebrou vários recordes pessoais e da liga. Em 2006, fez 81 pontos num jogo contra Toronto Raptors, a segunda maior pontuação de todos os tempos, atrás somente dos 100 pontos de Wilt Chamberlain, marcados numa partida em 1962.
Desde a segunda época da carreira, Kobe foi titular em todos os jogos das estrelas da NBA e eleito MVP em quatro ocasiões: 2002, 2007, 2009 e 2011. Em 2010, foi convocado para ser titular, mas uma lesão impediu-o de participar do evento.

 


FEITOS HISTÓRICOS
Craque estreia na NBA com “pouca idade”

.Kobe Bean Bryant nasceu no condado de Filadélfia, Estado norte-americano de Pensilvânia, a 23 de Agosto de 1978. É o mais novo dos filhos do ex-treinador da equipa da WNBA Los Angeles Sparks, Joe Bryant, antigo jogador do Philadelphia 76ers. Foi extremo-base do Los Angeles Lakers durante 20 anos.

Kobe Bryant estreou-se na NBA com 18 anos e 72 dias de idade, sendo um dos mais jovens. Jogou o All Star Game com 19 anos e 169 dias. Fez 81 pontos no jogo contra Toronto Raptors a 22 de Janeiro de 2006. Tem o recorde da NBA ao lançar doze bolas de três pontos num único jogo. É o jogador com mais pontos na história dos Lakers. É o atleta com mais épocas numa única equipa da NBA: 20 anos. É o terceiro melhor cestinha da história da NBA. É o único jogador da NBA com mais de 30 mil pontos e seis mil assistências.

Os feitos de Kobe contemplam os títulos de MVP das finais da NBA em 2008/2009 e 2009/2010. Foi MVP da NBA em 2007/2008. Marcou presenças na NBA All-Star Game em 1998, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015. Foi MVP da All-Star Game em 2002, 2007, 2009, 2011.

Integrou em 11 ocasiões a primeira equipa da All-NBA nos anos 2002, 2003, 2004, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2011, 2012, 2013.

Integrou  duas vezes a segunda equipa da All-NBA nos anos 2000 e 2001. Fez parte da terceira equipa da All NBA em duas ocasiões em 1999 e 2005. Em 1997, integrou a segunda equipa de Rookie da All NBA. Foi campeão da NBA Slam Dunk Contest em 1997.

SELECÇÃO:
Kobe Bryant colecciona duas medalhas de ouro olímpicas com a selecção norte-americano em Beijing'2008 e Londres'2012. Tem a medalha de ouro de 2007 da Taça América.


SELECÇÃO
Kobe anula
brasileiro


A primeira experiência de Kobe Bryant com a selecção norte-americana ocorreu no torneio pré-olímpico de 2007 em Las Vegas. Os EUA eram amplamente favoritos a conquistar uma das duas vagas para os Jogos de Beijing, mas o extremo do Los Angeles Lakers não queria dar a menor sopa para o azar.

No dia 26 de Agosto, a selecção dos  EUA enfrentaria o Brasil. Do outro lado da quadra estaria Leandrinho, que tinha alucinado o Lakers, de Kobe Bryant, nos play offs dos dois últimos anos da NBA (2006 e 2007). Embora não fosse uma figura nova para o craque, o camisa 10 da selecção norte-americana não queria ser surpreendido. No final do treino, conversou com Roy Williams, técnico de North Carolina e assistente de Coach K, e pediu: "Treinador, amanhã o Barbosa (Leandrinho) não pode tocar na bola. É o melhor jogador da equipa deles e precisamos anulá-lo. O que preparou para mim neste sentido?".

"Como assim, Kobe? Você sabe como marcá-lo. Jogou contra ele recentemente....", respondeu-lhe o técnico da selecção.

"Preciso que me entregue um compilado dos seus arremessos neste pré-olímpico e as diferenças de jogo para jogo. Amanhã não posso deixá-lo respirar", disse o craque dos Lakers.

E assim foi feito. Roy Williams entregou uma apostila para Kobe Bryant no seu quarto na noite de 25 de Agosto e um DVD com os melhores momentos editados de Leandrinho naquela competição.

No dia seguinte, uma das fotos mais incríveis da selecção norte-americana naquela competição  mostrava bem o que Kobe, na época um jogador com três títulos da NBA e o líder da equipa, queria: estragar a vida de Leandrinho. O extremo brasileiro errou seis dos seus sete arremessos, desperdiçou quatro bolas e não teve forças para segurar o camisa 10 norte-americano na defesa (Kobe teve 20 pontos).

No final do jogo (113-76), Roy Williams escutou: "Se não fosse o DVD e a apostila não teríamos vencido' o jogo”'.


DEDICAÇÃO
Preparador físico
revela aplicação no treino


Na primeira pessoa, o preparador físico profissional Rob descreveu a carreira de Kobe Bryant. O atleta foi muito exigente consigo mesmo para atingir a excelência.

"Sou profissional há 16 anos e tive oportunidade de trabalhar com um vasto de número de atletas. Fui convidado para Las Vegas, em 2012, para ajudar a selecção dos EUA na  preparação física antes da viagem para Londres. Esse seria o primeiro contacto com Kobe, pois já tinha trabalhado com Carmelo Anthony e Dwyane Wade. Três dias antes da primeira sessão de treino, encontrei-me com Kobe. Tivemos uma conversa rápida sobre condicionamento físico, como gostaria de estar no final de verão. Trocamos os números de telefonema e disse-lhe que poderia procurar-me sempre que quisesse um treino extra, a qualquer hora. Na noite anterior à primeira sessão de treino, lembro que havia acabado de assistir ‘Casablanca’ pela primeira vez e era por volta das 3:30 da manhã. Deito na cama, pego no sono aos poucos e ouço o meu celular tocar. Era o Kobe. Atendi nervoso. De outro lado, saltou a voz: "Rob, não estou a atrapalhar nada?". Não, Kobe. Tudo certo?, "Estava a perguntar-me se poderia ajudar-me com um treino físico agora". Olhei no relógio. 4:15 da manhã. "Sem dúvidas, chegarei ao Complexo em alguns minutos".

Levei uns vinte minutos até me aprontar e sair do hotel. Quando cheguei, entrei na quadra de treinos principal, avistei-me com Kobe. Sozinho. Estava a suar, parecia ter acabado de sair de uma aula de natação. Não eram nem cinco da manhã. Fizemos um treino físico por uma hora e quinze minutos. Então entramos na sala de musculação, onde realizou treinos de força por 45 minutos.

Depois disso, nos separamos e voltou a quadra para treinar arremessos. Voltei para o hotel e apaguei. Às onze da manhã. Acordei, senti-me sonolento, um pouco tonto e com todos os outros sintomas que resultam da falta de sono. Comi um pão e saí para o complexo. Todos os jogadores da selecção estavam lá, animados para a primeira sessão de treinos. Do lado direito da quadra estava o Kobe sozinho a treinar arremessos. Passei, cumprimentei-lhe e disse-lhe: 'Bom trabalho essa manhã'. "Como? assim", respondeu.

'Quero dizer, no treino físico. Bom trabalho'. disse-lhe.

'Ah, sim, obrigado Rob. Agradeço-lhe", respondeu.

'Que horas terminaste o treino de arremessos?', questionei-lhe.

'Não sai da quadra desde aquela hora. Queria fazer 800 pontos. Estou desde aquele momento (4h00) a treinar', respondeu. Eram 11h00 e Kobe não havia descansado. O meu queixo caiu".


PREPARAÇÃO
Ex-colega confirma força mental


Jamal Crawford, actualmente no Los Angeles Clippers, lembrou dos bons momentos passados com Kobe Bryant.

"Lembro que antes da época de 2009, fomos treinar juntos em Los Angeles. Cheguei cedo ao ginásio e já estava lá. Não entendia muito bem o que Kobe fazia ali ao repetir o mesmo arremesso inúmeras vezes, mas preferi não incomodar. Fazia alongamento, arremesso de leve e esperava ouvir o meu nome rapidamente. Passaram dez, vinte, trinta, cinquenta minutos. Nada. Uma hora, duas horas, duas horas e meia. Decidi ir lá. E perguntei: 'O que está a fazer ao treinar o mesmo arremesso há quase três horas? Só te vejo deste mesmo ponto da quadra e a sua bola não para de cair. O que está a acontecer?'.

Respondeu-me: 'Este arremesso, deste ponto da quadra, está a incomodar-me muito há dois meses. Sinto que a bola está a girar mal até o aro. Então, estou a tentar solucionar isso. Dá-me mais meia hora para resolver essa questão?'. Naquele momento, fiquei sentado e tentar entender".

JOHN CELESTAND
"Sempre fiz questão de ser o primeiro a chegar ao trabalho. Mas Kobe sempre dava um jeito de me superar. Eu morava a dez minutos do ginásio e ele, a 45. Um dia, na pré-época de 1999, quebrou o punho direito. A quadra, imaginei, ficaria só para mim. Mas, para a minha vergonha, na manhã seguinte, lá estava no ginásio: um braço engessado, o outro com a bola. Enquanto a equipa se ajustava para a estreia, percebi que Kobe seguia uma rotina peculiar. Driblava, fintava, passava e chutava com a mão canhota. Parecia obcecado em reaprender tudo o que fazia com a mão direita.

Certa manhã, chamou-me para um duelo de arremessos. Fiquei insultado. Acreditava que podia derrotar-me. Seria um prazer fazê-lo engolir a mania de grandeza. Por pouco, escapei do maior vexame da minha carreira. Foi só por um cesto que o venci. Um só”.