Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Modalidades

Maior fonte de alegria em 43 anos

Matias Adriano - 12 de Novembro, 2018

Fotografia: Edies Novembro

Quando no dia 12 de Mar?o de 1976, o departamento gimnodesportivo da JMPLA convocou nas suas instala?es, na antiga sede da Mocidade Portuguesa, uma reuni?o que tra?ou as linhas essenciais para o relan?amento do basquetebol, ent?o mergulhado numa inc?moda letargia, poucos s?o aqueles que imaginavam que se estava a lan?ar ? terra, a semente que, anos depois, viria a germinar um basquetebol de apurado teor qualitativo a n?vel do continente africano.
Na verdade, sendo um desporto de elite, no per?odo que antecedeu ? ascens?o do pa?s ? independ?ncia, o basquetebol viria a cair numa esp?cie de orfandade, em face da sa?da do pa?s, no quadro do processo de descoloniza??o, dos seus principais actores, entre praticantes, t?cnicos e formadores. Da? que, havia toda uma necessidade de se repensar a modalidade na busca de novos trilhos.
Entretanto, a comiss?o dinamizadora, sa?da do conclave de 12 de Mar?o de 1976, n?o se poupou a esfor?os. P?s m?os ? obra, e com estrat?gia bem ensaiada n?o tardou apresentar os primeiros resultados. A organiza??o de uma s?rie de jogos amistosos foi, ? partida, tomada pela antiga Direc??o Geral da Juventude e Desportos, como forma de tornar o basquetebol mais popular.
Nesse per?odo, Vitorino Cunha, antigo atleta do Centro Desportivo Universit?rio de Angola-CDUA, se juntava ao movimento de revitaliza??o da modalidade, acabando por ser uma mais-valia na execu??o de ac?es delineadas, em face da sua entrega e experi?ncia. Afinal, ? ?poca, era s? o respons?vel pelo basquetebol da Direc??o Geral da Juventude e Desportos do Minist?rio da Educa??o e Cultura. Em todo o caso, deve dizer-se que, apesar do esfor?o conjugado, ainda assim do ponto de vista competitivo, as ac?es da modalidade eram de alguma forma ou de outra bastante t?midas. Competitivamente podemos tomar, como ponto de partida para o nosso basquetebol, o torneio de abertura (a n?vel de clubes) ganho pelo Ferrovi?rio de Angola em 1978 e os II Jogos Universit?rios Africanos de Nairobi (a n?vel de selec??o), disputados de 29 de Dezembro de 1978 a 7 de Janeiro de 1979.
Seja como for, a modalidade foi ganhando terreno, ao mesmo tempo em que se investia forte nos escal?es de forma??o. Os t?tulos nos Campeonatos Africanos de juniores em 1980, em Luanda, e 1982 ,em Maputo, eram s? o aviso se n?o o recado, de que Angola estava a surgir e n?o tardava a conquistar espa?o, entre as principais pot?ncias do basquetebol continental. E na verdade assim aconteceu.

Estreia em
Afrobaskets

Entretanto, lograda a qualifica??o, deixando pelo caminho, na ?ltima eliminat?ria, a vizinha selec??o da Z?mbia, Angola faz a sua estreia em fases finais do campeonato africano em 1980, no Reino do Marrocos. Antes, um est?gio pr?-competitivo foi cuidadosamente preparado. A Jugosl?via, pa?s aliado do Bloco Socialista, e com forte tradi??o na modalidade, mereceu a escolha, para melhorar as performances.
Como seria de esperar, a estreia na prova n?o foi famosa. Mas verdade diga-se, tamb?m n?o se pode dizer que a selec??o andou a ver navios, olhando para o quadro de resultados, mesmo desfavor?veis. Houve quase sempre algum equil?brio nos resultados produzidos, sendo o resultado mais volumoso a derrota com a Costa do Marfim (59-85), determinando uma diferen?a de 26 pontos. Ali?s, foi Angola quem aplicou chapa cem, na ?nica vit?ria que obteve na prova. A v?tima foi a Guin? Conacry, a quem bateu por contundentes102-88.
No c?mputo geral, quedou-se na s?tima posi??o, numa competi??o em que tomaram parte onze pa?ses, alguns dos quais j? com forte tradi??o na modalidade a n?vel continental. Como estreante, n?o se lhe podia exigir muito, e diga-se de passagem, n?o comprometeu. M?rio Palma, o seleccionador nacional, contou com jogadores como Ant?nio Guimar?es, Arnaldo Guimar?es, M?rio Oct?vio, Barbosinha, Carlos Cunha, Gustavo da Concei??o, Rui Marques, Hil?rio de Sousa, Ant?nio Henriques?Tonecas?, Victor Almeida, Carlos Oliveira e Leit?o Nunes.
Contrariamente ao que se esperava, no regresso dois anos mais tarde ? competi??o, Angola ?meteu ?gua?. Na prova que se disputou em Dezembro de 1981 em Mogad?scio (Som?lia), ao inv?s de crescimento, revelou regress?o, e como consequ?ncia piorou a classifica??o anterior, tendo ficado, dessa vez, em nono lugar. Tratou-se de um desastre? que surpreendeu a todos, pois a equipa tinha crescido do ponto de vista morfol?gico, contando com jogadores mais altos e com mais peso.
Poder-se-ia dizer que o Afrobasket de Mogad?scio foi para esquecer. A selec??o apresentou-se completamente desastrada, mal a atacar, mal a defender, o que resultou numa colec??o de derrotas em todos os jogos que disputou. A imprensa desportiva da ?poca, n?o poupou cr?ticas a Vitorino Cunha, seleccionador nacional. O bom do homem viria a ganhar, por alguma ironia, a alcunha de \\\"Derrotino Cunha\\\", assacando-lhe todas as culpas pela m? actua??o da equipa.

Angola toca
o c?u com a m?o

O Afrobasket?83 disputado no Egipto, marca o surgimento de uma nova pot?ncia basquetebol?stica africana. Angola, que na edi??o anterior, em Mogad?scio, acabou por ser aquilo que se ousa dizer ?saco de pancadas?, acabava por surpreender positivamente, levando a ?frica a render-se ao fasc?nio e ? classe da sua exibi??o. Era, realmente, uma outra selec??o, aquela levada pelas m?os de Valdemiro Romero.
A injec??o de sangue novo na equipa ter?, certamente, jogado papel fundamental. Jean- Jacques da Concei??o e Jos? Carlos Guimar?es, que tinham sido verdadeiros esteios na selec??o de juniores, que um ano antes tinha sido campe? africana em Maputo, eram as pe?as mais not?veis da equipa, que se tinha apresentado em Alexandria. A par destes, estavam ainda Zez? Assis, Josu? Campos, Artur Barros e outros.
Com uma presta??o fant?stica, surpreendendo a tudo e a todos, o ?cinco? nacional chegava ? final do certame, tendo sido derrotado pelo anfitri?o Egipto. Seja como for, estava feita a promessa, ficava a? o aviso de que abaixo do Shara emergia uma forte pot?ncia no basquetebol. Animado com a excelente classifica??o obtida em Alexandria, Angola continuou a investir forte na modalidade, augurando o futuro. Em 1985, quando Abidjan (Costa do Marfim) recebeu a prova e com o professor Vitorino Cunha regressado ao comando da equipa, bisou-se a fa?anha. Ali?s, Abidjan foi uma c?pia fiel de Alexandria. Os angolanos voltaram a cair na s?rie do pa?s anfitri?o e, tal como na vez anterior, n?o conseguiram evitar a derrota no jogo inaugural. Longe de ca?rem em des?nimo, levantaram a cabe?a e partiram para a luta. Determinados, lograram a qualifica??o para a fase seguinte e da? n?o mais pararam at? chegar ? final da prova, voltando a perder com a selec??o local.
Se algu?m pensou, que a presta??o e classifica??o de Alexandria podia ser consequ?ncia de uma mera inspira??o da equipa, que tamb?m ter? aproveitado a neglig?ncia de selec?es tidas, a priori, como favoritas, acabou chamado ? raz?o. O nosso pa?s se assumia, realmente, numa pot?ncia emergente na pra?a do basquetebol africano. Duas presen?as na final da competi??o, em situa??o alguma podiam ser entendidas como obra de mero acaso.
Ali?s, mesmo em jogos fora da competi??o africana, inseridos em torneios isolados de car?cter internacional, Angola j? dava mostras de uma acentuada maturidade competitiva. Por exemplo, em 1985, um pouco antes da prova africana, passeou classe e eleg?ncia no torneio internacional comemorativo aos dez anos da nossa independ?ncia, distribuindo \\\"cabazadas\\\" a todos participantes, incluindo a pr?pria Costa do Marfim.
Quando em 1987 a prova se disputou em Tunis (Tun?sia), Angola, como vice-campe? das duas anteriores edi?es, n?o tinha como n?o se apresentar na condi??o de forte candidato ao t?tulo. Era quase que uma obriga??o lutar pela coroa. O come?o do torneio foi auspicioso. Ao contr?rio das edi?es anteriores, Angola j? n?o foi escolhida a abrir a prova com a selec??o local e nem calhou no grupo desta.
No come?o tudo corria ? preceito. O \\\"cinco\\\" angolano foi passando vitoriosamente por outras selec?es com tamanha facilidade, mais parecia uma motoniveladora sobre terreno ondulado, e assim atingiu as meias-finais. At? a? nada fazia prever um descalabro, porque para si estavam voltadas todas as aten?es. Era, indubitavelmente, a nova promessa do basquetebol africano, n?o sendo sem raz?o que tr?s jogadores seus, Jean Jacques da Concei??o, Gustavo da Concei??o e Jos? Carlos Guimar?es, tinham integrado, poucos meses antes, como titular?ssimos, a selec??o de ?frica que, no Cairo, jogou no Jubileu da AFABA.
Mas quis o diabo, que a meia-final ditasse a senten?a para o ?cinco? nacional, que acabou surpreendido pelo Egipto, com quem viria a perder por 77-83 com Abdel Maguid a revelar-se no verdadeiro carrasco para os comandados de Vitorino Cunha. O sonho de subir, pela primeira vez, ao p?dio virava um verdadeiro pesadelo, e um dos melhores int?rpretes do nosso basquetebol, Gustavo da Concei??o, se despedia nessa edi-??o da selec??o de forma ingl?ria.

Luanda marca
a viragem da hist?ria

Em 1989 a Cidadela, que nove anos antes tinha recebido numa noite m?gica a ?pica final do Africano de juniores, entre Angola e Rep?blica Centro Africana, vestia-se de cores para receber a XV edi??o do Afrobasket. Egipto, Costa do Marfim, Senegal e RCA, que formavam o quarteto dos ?senhores? poderosos do basquetebol em ?frica, recearam o fim do seu imp?rio. Pois, uma selec??o que, h? tr?s edi?es, vinha mostrando a sua vitalidade, dificilmente seria vergada em sua pr?pria casa.
Dito e certo. Nesse campeonato, Vitorino Cunha e seus pupilos foram estupendos. Mostraram garra, ra?a e, acima de tudo, muito virtuosismo, fazendo um campeonato sem m?cula. Ou seja, sem trope?o. Em todos os jogos venceram sem quaisquer apertos, dando sempre larga margem de diferen?a pontual aos seus advers?rios.
A final disputada no dia 28 de Dezembro, foi contra o Egipto, o mesmo que tinha sido respons?vel pelo afastamento da corrida ao t?tulo uma edi??o antes em Tunis. Aqui j? n?o se viu explos?o de nenhum Abdel Maguid, e foi copiosamente trucidado por 89-62. A Cidadela explodiu de alegria e a festa evadiu-se por Luanda noite adentro.
Jos? Carlos Guimar?es, eleito o melhor jogador do torneio, Jean-Jacques da Concei??o, Necas, ?ngelo Vitoriano e outros, escancaravam o caminho que levaria Angola ? conquista do estrelato. Afinal, depois dessa edi??o, s? foi somar, apesar do trope?o de 1995 no Senegal, at? ? conquista do 10? t?tulo.?
Entretanto, e, talvez, por fraco investimento nas camadas de fomento, a modalidade registou um decl?nio nos ?ltimos anos.
Depois de um trope?o nas? Ilhas Maur?cias?2011, o t?tulo foi resgatado em 2013, na Costa do Marfim. Por?m, nas ?ltimas duas edi?es, nomeadamente? Tun?sia?2015 e Tun?sia/Senegal\\\'2017, Angola viu o t?tulo escapar para outras m?os. Seja como for, n?o seria de bom tom, no rescaldo dos feitos desportivos nos 43 anos da nossa independ?ncia, minimizar a fa?anha da modalidade.