Jornal dos Desportos

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Reportagens

60 criança aprenden ABC do Ténis

Hélder Jeremias - 12 de Março, 2012

Pequenos recebem explicações de um dos treinadores do programa

Fotografia: Mota Ambrósio

“Não lhe dê o peixe, ensine-o a pescar”. É com base neste adágio que o professor de ténis, João Almeida, concebeu o projecto denominado “Oportunidade para todos”, que se resume em dar a possibilidade a crianças desfavorecidas de enveredarem por uma carreira no desporto, em particular no ténis.

São cerca de 60 crianças na faixa etária entre os cinco e os 15 anos, que encontraram o seu aconchego no orfanato das irmãs da Igreja Católica Mamã Muxima, que João Almeida escolheu para lhes transmitir os seus conhecimentos sobre a modalidade que, para muitos, é vista como um desporto de elite. Para subverter essa lógica que, em seu entender, “tem carácter discriminatório, porque todos merecem uma oportunidade, independentemente do meio social de que se é originário”, não se poupa a esforços para ensinar o ABC da modalidade àquelas crianças carenciadas.

Com os seus próprios meios, lançou-se na aventura que muitos ignoraram, tendo apenas o apoio da direcção do Clube de Ténis de Luanda, que cedeu os seus courts para que as crianças tivessem os primeiros contactos com as raquetes, além de disponibilizar um lanche. João Almeida fala das dificuldades para transportar as crianças e reconhece que muitas vezes abdicou dos seus caprichos pessoais para todos os fins-de-semana proporcionar algumas horas de aprendizagem e satisfação às crianças pelas quais, em pouco tempo, começou a nutrir um grande carinho.

“O desporto é a melhor forma que existe para que o ser humano tenha uma vida saudável, mas a falta de oportunidade tem sido uma barreira para muitas crianças, que no futuro podiam tornar-se grandes executantes. O dinheiro é muito importante, pois sem ele não conseguimos obter os meios de trabalho, mas não precisamos de quantidades exorbitantes para gizarmos um projecto desta natureza”, afirma o mentor do projecto, cujos primeiros frutos se reflectem no bom nível técnico das crianças que mais se dedicam.

Numa incursão ao historial dos pequenos, fomos remetidos para o relato de histórias de famílias desarticuladas, nas quais o desaparecimento físico dos progenitores e a falta de recursos mínimos têm lugar de destaque, mas todos eles convergem num discurso comum. “Desde que começámos a treinar, somos mais felizes; quero ser um grande jogador de ténis e representar o país nas competições internacionais”, refere Josefina Maria João “Úrsula”, 11 anos de idade.

SATISFAÇÃO
Técnico João Sanda abraça programa


João Sanda, que responde pelo nome de um dos melhores tenistas da praça nacional, não pensou duas vezes para abraçar o projecto “Oportunidade para todos”, e mostra-se feliz por contribuir para que crianças desprovidas da protecção dos pais biológicos possam augurar um futuro promissor. O técnico encontra a recompensa das horas de dedicação filantrópica no carinho que recebe dos pequenos, pois, segunda afirma “considero meus filhos”. João Sanda, que começou a sua carreira desportiva muito novo, salienta que na sua infância conviveu com outras crianças que gostariam de praticar o ténis, mas, por falta de recursos, nunca puderam tornar esse desejo em realidade.

Por isso, encara o seu compromisso com as crianças como uma forma de contribuir, não só para o desenvolvimento do desporto nacional, mas, principalmente, ajudar a concretização o sonho de quem não pode. “O sentimento é de grande alegria, na medida em que o esforço que tenho dedicado em prol destas crianças está a ser correspondido de maneira positiva. Era bom que iniciativas desta natureza fossem adoptadas por mais pessoas, não só no ténis, mas noutras modalidades, pois isso ia permitir antever uma sociedade mais saudável”, considera.

TRABALHO
Vínculo com a Federação

João Almeida afirmou que o projecto está aberto a outras iniciativas e que a Federação Angolana de Ténis pode jogar um papel importante, uma vez que dentro de alguns anos vão brotar atletas com nível para representar o país nas competições internacionais. “Não temos dúvida que temos de trabalhar em sintonia com a federação, porque as coisas estão a andar e muito em breve temos atletas bem dotados tecnicamente, o que vai contribuir, em grande medida, para melhorar a representação do país nas competições internacionais”, disse.

SENSIBILIDADE
Apoiante anónima alivia dificuldades


Os mentores do projecto “Oportunidade para todos” receberam uma lufada de ar fresco com o surgimento de uma senhora que, comovida pela nobre iniciativa, apadrinhou o programa e canaliza uma parte das suas economias para suprir as necessidades financeiras. Trata-se de uma personalidade que prefere manter-se no anonimato, mas cujas ajudas fazem grande diferença, o que permite a João Almeida pensar em aumentar para três o número de treinadores.
“Quero expressar, em nome das crianças, a imensa gratidão pela senhora que está a apoiar o projecto. Tudo era mais difícil quando apenas contávamos com o apoio do Clube de Ténis de Luanda, que nos cedeu os campos para trabalhar e lanche para os miúdos, mas agora já podemos adquirir material e pensar em contratar mais treinadores. Isto é a prova de que existem pessoas de grande dignidade e com desejo de ver um futuro melhor para as nossas crianças”, realçou.