Jornal dos Desportos

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Reportagens

78 anos de vida do Sporting do Lobito

Júlio Gaiano, no Lobito - 22 de Novembro, 2010

José Inácio da Paixão, presidente direcção do Clube

Fotografia: Jesus Silva

A actual direcção liderada pelo empresário José Inácio da Paixão e Franco cumpre o segundo mandato, estando o actual a caminho do segundo ano. Apesar do fraco poder financeiro do clube (vive à base de quotizações dos sócios e amigos), a massa associativa continua a depositar confiança ao actual elenco directivo, reconduzido em assembleia-geral em Novembro de 2009.

Na conferência de imprensa em saudação aos 78 anos de existência do Sporting do Lobito, ficou patente de que há muita coisa por se resolver nas hostes do clube lobitanga. Falta de tudo um pouco, até o básico (campo para desenvolver o desporto) não existe, pelo que só com a intervenção das entidades de direito do município e, quiçá, da província, no caso a direcção provincial da Juventude e Desportos, poder-se-á atenuar a situação que já se tornou crítica.

Aliás, pelo clamor que chega das bandas leoninas, há toda necessidade de apoio ao clube em toda a sua vertente, sob pena de se assistir nos próximos tempos o definhar do tradicional grémio desportivo das terras lobitangas, que tem a sua génese no histórico e emblemático bairro da Canata.

Não é por acaso que apesar de a sua equipa principal de futebol nunca ter participado no Girabola, o clube continua a conservar a sua popularidade entre os amantes do desporto no município. Isto mesmo ficou patente no passado 15 do corrente. O salão do clube ficou pequeno para albergar tanta gente que acorreu ao local para desejar longa vida aos dirigentes, sócios, adeptos, atletas e funcionários do clube.

O gesto marcou fundo no coração dos convivas que, em face da situação que se criou no local, se renderam às evidências, desejando boas festas e sucesso na carreira desportiva. Houve mesmo quem, no balançar da festa (congregou cerca de 200 pessoas), convidou a administração municipal a rever a política de assistência aos clubes desportivos locais.

“Precisamos, encarecidamente, que as autoridades administrativas locais nos cedam apoios para regressarmos em grande e em força na arena do desporto nacional. Não pedimos muito. Para nós, sportinguistas, o mínimo que baste nos agrada”, suplicou um dos aficcionados numa clara reclamação face a atenção que a Administração Municipal deposita a determinados clubes em detrimento dos demais. Lembre-se que o administrador municipal, Amaro Ricardo, é presidente da Mesa da Assembleia-geral da Académica Petróleos Clube do Lobito.

Um clube e uma história
na formação de talentos

O Sporting Clube do Lobito, até principio da década de noventa, precisamente em 1992, altura que foi dado como abandonado pela direcção liderada pelo empresário Artur Pires, destacou-se na formação de novos atletas que brilharam nas distintas modalidades desportivas, estando o futebol, o andebol feminino e o atletismo entre os mais sobressaídos.

Na altura, o clube contava com o apoio directo de algumas unidades fabris do município, tendo como as principais, a CIFAL e a Jomba SARL. A primeira era produtora de bebidas espirituosas, enquanto que a segunda produzia refrigerantes, água de mesa e diferentes doces. Eram fases de graça que o clube viveu, em termos financeiros.

Mas, com o recrudescer da guerra pós-eleitoral, as duas empresas caíram em falência técnica, e como consequência fecharam as suas portas, atirando o clube num “deus nos acuda”. Foi preciso fazer-se “uma travessia no deserto”, num período de treze penosos anos para se reencontrar com o passado, sendo o primeiro mandato (2005-2009), servido para a reorganização administrativa, cuja prioridade foi o levantamento de sócios contribuintes do clube.   
    
Já no presente mandato, organizada que está a estrutura administrativa do clube, o elenco de José Inácio da Paixão e Franco pensa subir um pouco mais a fasquia; ou seja, devolver a dignidade e a grandeza que o clube já teve num passado bem presente na memória dos lobitangas amantes do desporto local.

Falta de solidariedade emperra materialização dos projectos

Na conferência de imprensa, o presidente da colectividade leonina, Paixão Franco, apontou a não materialização do arranque das obras projectadas para o presente mandato, com falta de solidariedade das entidades administrativas locais. “A ausência de solidariedade necessária das autoridades administrativas contribuiu, negativamente, para a não materialização dos projectos traçados ao longo do manifesto eleitoral (…)”, precisou.

Para o presente mandato, a direcção do Sporting Clube do Lobito projectou a construção de um complexo gimnodesportivo, para além de reabilitar a sua sede social, dotando-lhe ao seu arredor de um complexo imobiliário para o seu auto sustento financeiro, desafogando o clube da mendicidade constante.

Contudo, a demora que se assiste na cedência do espaço para as referidas obras, por parte da Administração Municipal do Lobito, atrofiou o programa, colocando em risco todo um projecto religiosamente traçado pelos dirigentes do clube, receando-se que o mesmo não seja materializado.

Por causa da morosidade que se leva para a cedência do espaço para a edificação das infra-estruturas projectadas pela direcção do clube, o financiador da referida empreitada tenciona desistir dos planos e avançar para um outro projecto que julgar melhor em matéria de rentabilização financeira.

Ainda assim, o presidente do Sporting do Lobito promete não baixar o braço, até ver o problema resolvido. Para ele, desistir significaria um desastre para os interesses do clube e do desporto no município. “Não temos dinheiro, mas alguém de direito terá de dar solução ao problema.

Contactos com as entidades empresariais e administrativas continuarão a ser envidados, pois em causa está o futuro do desporto no município. É preciso ter-se em conta que o Sporting é um clube histórico e com certa tradição desportiva no município, logo, faz sentido apoiá-lo moral, institucional, financeira e materialmente”, parafraseou. O homem-forte do Sporting Clube do Lobito adiantou, de seguida, que “não fazendo isso, estar-se-ia em presença de um autêntico sacrilégio diante da realidade dos factos alcançados na história desportiva do município, em particular, e da província, em geral”.

“Vamos continuar a contar
com nossas próprias forças”

O presidente da Mesa da Assembleia-geral, Viriato dos Santos Pinto “Visap”, foi categórico em reconhecer que a situação reinante no clube é deveras complicada, tendo de seguida apelado à compreensão da massa apoiante do clube em redobrar esforços no sentido de se tirar o clube da crise financeira que se encontra mergulhado.

De acordo com o dirigente leonino, todos os esforços tendentes em buscar apoios para o clube foram realizados juntos de entidades de direito no município. “Infelizmente, fomos mal sucedidos”. “Inclusive, tentámos reactivar a aproximação com a direcção do Sporting Clube de Portugal para os mesmos propósitos (a busca de apoios materiais); e de igual modo não tivemos êxitos”, disse.

Adiante continuou a explicação: “Como podem reparar, está uma tarefa difícil para reunir os apoios desejados que visam manter o clube funcional. Por isso, nada mais podemos fazer senão contar com as nossas próprias forças; como por exemplo, tirar um pouco dos nossos parcos recursos e dedicar à causa do clube, visto que a realidade nos aconselha que devemos ser nós mesmos a velar pela grandeza do clube, significando que cabe a nós, sportinguistas, resolver o problema do clube, nada de alimentar falsas ilusões”, enfatizou.

O empresário Viriato dos Santos Pinto instou aos sportinguistas residentes no Lobito a juntarem-se à causa da colectividade, no sentido de a tornarem forte do ponto de vista desportivo e organizacional. Segundo ele, “não faz sentido nutrirem simpatia a um clube estrangeiro, quando entre nós está o seu filial a atravessar dificuldades extremas”.

“Como disse o presidente, não temos tido a merecida atenção da parte das autoridades administrativas e empresarias, por isso, um verdadeiro sportinguista não deixa o seu clube de coração morrer. Deve sim, contribuir, moral e financeiramente para o seu engrandecimento”, completou. Do presidente da mesa da Assembleia-geral, o Jornal dos Desportos apurou que dos 250 sócios recadastrados pela actual direcção, apenas 47 têm a sua situação em dia, com o pagamento de quotas.       

Direcção cede equipamento a HCL

Em Dezembro do ano passado, a direcção do Sporting Clube do Lobito recebeu da Federação Angolana de Patinagem (FAP) um lote de equipamento desportivo para a competição. Não estando a modalidade enraizada no clube, a direcção sportinguista achou melhor emprestar a equipa sénior masculina do Hóquei Clube do Lobito para competir no Campeonato Nacional sénior masculino que decorreu na cidade capital (Luanda). No referido certame, a formação lobitanga somou apenas derrotas e terminou na sétima e última posição, apesar de proporcionar boas exibições, sobretudo na segunda fase em que disputou as qualificativas do quinto ao sétimo lugar.          

Dúvidas dissipadas

O secretário geral do Sporting Clube do Lobito aproveitou a ocasião para desmentir rumores postas a circular, segundo os quais, a actual direcção mostrava desinteresse pelo relançamento do hóquei em patins no grémio por considerar muito dispendioso, tendo em conta a sua realidade financeira. Armando Lomba-lomba disse que todas as críticas que apontavam neste sentido visavam denegrir o bom trabalho que a sua direcção está executar, numa altura em que o clube se encontra desprovido de recursos financeiros e materiais, sendo os sócios os garantes da sua sustentabilidade.

“Para quem acompanhou o evoluir da história, mesmo com as condições que apresentam o campo, tínhamos aberto o núcleo de hóquei em patins, coordenado pelo professor Abel Katahali. Infelizmente, o projecto não teve pernas para andar porque o homem que liderava o projecto veio a falecer. E para complicar a situação, sem campo para treinar e homem para dar  seguimento ao projecto, achámos por bem suspender, temporariamente o trabalho e aguardar pela criação das condições que, infelizmente, tardam a chegar”, concluiu.

Ausência de espaços
adia regresso à ribalta


No manifesto eleitoral apresentado à massa associativa do clube, aquando da respectiva campanha, a direcção do Sporting Clube do Lobito propôs a reactivação das actividades desportivas já a partir do próximo ano (2011), tendo eleito o futebol, o andebol, o hóquei em patins e o xadrez como a aposta para a sua reaparição.Por razões estratégicas, neste seu regresso às competições oficiais, estariam indicados os escalões de iniciados e juvenis, em ambas as classes.

Entretanto, as intenções não passaram disso mesmo. Os dirigentes do clube justificam o facto pela inexistência de espaços para desenvolver o desporto, pois o único campo que existe está em avançado estado de degradação. E como se não bastasse, as bancadas e as torres de iluminação eléctrica reclamam por rápida recuperação. “Para além de não possuir medidas internacionalmente aceites, o campo está impraticável; para a salvaguarda da integridade física dos atletas e enquanto não surjam os apoios solicitados, achamos por bem adiar o arranque das actividades desportivas no clube”, disse o secretário-geral, Armando Lomba Lopes “Lomba-lomba”.