Jornal dos Desportos

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Reportagens

A 54 dias do início do Mundial Hospitais precisam de investimentos

17 de Abril, 2010

Hospitais sul-africanos precisam de apetrecho para grandes tumultos

Fotografia: Reuters

Apesar da agitação típica de um grande centro, Johannesburgo também pode ser um refúgio de paz. Conta com amplas áreas verdes e dois mil e trezentos e vinte e oito parques. A vida cultural é rica, com muitos museus. Perto do local estão as grutas de Sterkfontein, onde foram encontrados os esqueletos mais antigos da humanidade.

Joanesburgo é a maior cidade da África do Sul. Com cerca de 5,3 milhões de habitantes, é a quarta maior do continente africano (atrás apenas do Cairo, de Lagos e de Kinshasa), e é a capital da província de Gauteng bem como sede da Corte Constitucional Sul-africana. Está a uma altitude de 1753 metros acima do nível do mar. Foi fundada em 1886 com a descoberta de ouro na zona. Em 1900, já tinha cem mil habitantes. É o maior centro industrial e financeiro do país.

Joanesburgo tem uma das 40 maiores áreas metropolitanas do mundo e é a única cidade global africana. Apesar de, às vezes, ser confundida como capital da África do Sul, a cidade não é um dos centros políticos (apesar de Pretória, pertencer a sua região metropolitana).

Hospitais precisam
de investimentos 
Com todo esse investimento, os hospitais públicos da África do Sul não estão preparados para desastres como um tumulto num estádio durante o Campeonato do Mundo, disse um consultor médico da Fifa. "Os planos de desastres dos hospitais são na verdade um desastre", disse o professor Efraim Kramer, que é chefe do departamento de Medicina Emergencial na Universidade Witwatersrand, em Johanesburgo, e presta consultoria também ao comité organizador local.

Numa conferência médica, na última quarta-feira, disse que os hospitais públicos "não têm absolutamente nenhuma ideia" de como agir em caso de uma tragédia, porque esses planos nunca foram testados. Já os hospitais privados, que estão entre os melhores do mundo, têm bom planeamento para o caso de incidentes graves. Mas o governo diz que aos hospitais públicos caberá atender pelo menos 70 por cento do pessoal que trabalhar no maior evento futebolístico do mundo. Em caso de desastre, os hospitais públicos tendem a ser mais próximos dos estádios.

Kramer disse que faltou aos hospitais públicos um esforço para modernizar as  instalações, em geral, e especialmente as alas de emergência, além de treinar os funcionários para o evento desportivo, que vai de 11 de Junho a 11 de Julho. O Ministério da Saúde não se manifestou sobre as declarações de Kramer. A África do Sul espera receber 350 mil estrangeiros para o evento. Em Abril do ano passado, os médicos sul-africanos entraram em greve por melhores salários e condições profissionais. Receberam aumento, mas dizem que os hospitais públicos continuam mal equipados.

"Os hospitais são o que são hoje. Não há como possam mudar toda a estrutura da saúde só para quatro semanas", disse Kramer.
Em 2001, mais de 40 pessoas morreram no estádio Ellis Park, palco da estreia do Brasil, durante um tumulto num jogo entre equipas locais. Vários outros estádios africanos também registaram mortes em situações semelhantes nos últimos anos. O Ellis Park é um estádio antigo, mas foi reformado para o Campeonato do Mundo e, assim como as outras nove arenas, teve de se adaptar às exigências da Fifa, com áreas para dispersão de multidões e outras medidas de segurança.

Camisinhas anti-estupro
vão ser distribuídos

A camisinha anti-estupro pode ser uma das novidades do Campeonato do Mundo na África do Sul, entre 11 de Junho e 11 de Julho. Segundo o diário espanhol As, uma médica - que não quis se identificar - pretende distribuir 30 mil camisinhas que dificultaram os actos de estupro no continente africano. O produto vai ser usado pelas mulheres e tem o formato de uma camisinha normal, mas atrapalharia o homem, em caso de "assalto sexual", segundo os espanhóis.

De acordo com a médica, a camisinha não incomodará a mulher, mas pode causar "uma grande dor" ao homem. Ao menos na Espanha, as reações não são tão positivas. Segundo o As, a médica tem recebido até ameaças de pessoas que a acusam de não gostar de homens. No entanto, a médica se defende ao dizer que só quer a protecção das mulheres.

Parreira critica dirigentes

Devido à proximidade da cadeia de colinas de Witwatersrand, ricas em minerais, Joanesburgo é um centro de ouro e diamante em larga-escala. A população de Joanesburgo tem 73 por cento de negros africanos, 16 por cento de brancos europeus, mestiços 6 por cento com menos de 24 anos de idade, enquanto 6 por cento estão acima dos 60 anos. 37 por cento dos residentes estão desempregados, destes 91 por cento são negros.

As mulheres compreendem 43 por cento da população economicamente activa;19 por cento da PEA da cidade trabalha no sector de comércio,18 por cento no sector financeiro, mercado imobiliário ou na área de negócios,17 por cento nas áreas de prestação de serviços comunitários, sociais ou pessoais e 12 por cento estão no sector industrial; apenas 0.7 por cento trabalha no sector de mineração.


A desigualdade social é tão grande e o desporto também está afectado. O brasileiro Carlos Alberto Parreira, treinador da seleção sul-africana, criticou na última quinta-feira os dirigentes da associação de futebol daquele país no momento em que os anfitriões da Campeonato do Mundo de 2010 se apressam nos últimos preparativos para o evento. Partidas amistosas contra a China, no dia 28 de Abril, num local na Alemanha ainda não revelado, e contra a Dinamarca, em Johannesburgo, no dia 5 de Junho, é tudo o que os sul-africanos têm pela frente antes do jogo de abertura contra o México. Parreira manifestou as frustrações numa entrevista colectiva à imprensa.

O brasileiro criticou o cronograma traçado pelos dirigentes da SAFA (siglas em inglês da Associação de Futebol Sul-Africana), que não incluiu jogos preparatórios contra as grandes potências mundiais antes da abertura, no dia 11 de Junho contra o México no estádio Soccer City. "Em cada instância a resposta era ‘desculpe-nos, é tarde demais, o nosso programa está concluído", revelou o treinador, que neste ano vai ser o primeiro a ter comandado cinco selecções em Campeonatos do Mundo: além de África do Sul, já treinou Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e foi tetracampeão com o Brasil, em 1994.

Parreira repetiu incessantemente que precisava de oponentes de alto nível para enfrentar as condições próximas das que vai encontrar nas partidas do Grupo A. O brasileiro desejava enfrentar a Argentina, mas os bicampeões mundiais teriam pedido um valor alto demais. "Queria um programa de partidas amistosas de dificuldade crescente, pois assim os jogadores sul-africanos estariam bem preparados para enfrentar os adversários duros que os aguardam no Campeonato do Mundo", disse.

Parreira também ficou insatisfeito com o atraso em encontrar uma base de treinamentos para o evento desportivo em Johannesburgo. As duas primeiras opções foram rejeitadas: uma, por causa de instalações precárias, e a outra, pelo facto de os custos das adequações, que seriam feitas numa escola próxima ao hotel da selecção, terem ficado bem acima do orçamento. A África do Sul finalmente escolheu a Universidade Wits, no centro da cidade. Foi a última das 32 equipas do Mundial a encontrar um local para ficar, apesar de ter sido escolhida para sediar o evento há seis anos.

Os sul-africanos são os azarões do Grupo A, que vai ter, além do México, os campeões mundiais França e Uruguai. Os sul-africanos passaram um mês a treinar no Brasil e só fizeram um amistoso nesse período, que terminou com um empate de 1-1 com o Paraguai.

Primeira fase
é um Everest

A selecção sul-africana vai procurar forças para superar a primeira fase no Campeonato do Mundo, mas a tarefa tem uma dificuldade similar a de escalar o Monte Everest, disse Carlos Alberto Parreira, técnico da equipa. Os sul-africanos abrem a competição no dia 11 de Junho, no Estádio Soccer City de Johannesburgo, com a forte selecção de México, integrados no A com Uruguai e França.

"O mais importante é concentrarmos na nossa prioridade, que é a superação da fase de grupos. Acreditamos que podemos fazê-lo", disse o treinador brasileiro em entrevista ao site da Fifa, na qual acrescentou que a tarefa de passar os oitavos-de-final é similar a "escalar o Everest".

"Já disse que não será fácil, mas é preciso fazer um bom papel na competição; devemos mudar o nosso modo de pensar e ter fé. Muita gente vai dizer que não vamos conseguir, mas não temos por que escutar tudo o que falam", destacou o treinador campeão mundial com o Brasil em 1994.

Polícia põe à prova dispositivo

A polícia sul-africana pôs à prova na última quinta-feira o dispositivo de segurança nos estádios de futebol ao aplicar as novas técnicas que aprendeu com a Polícia francesa, com o objetivo de manter a ordem durante o próximo Mundial. "O treinamento recebemos da Polícia francesa permitir-nos-á enfrentar diversas situações durante o Mundial e também mais adiante", explicou Bheki Cele, da polícia sul-africana.

Protegidos dos pés à cabeça com uniformes e equipamentos, a Polícia de choque treinou a enfrentar um falso grupo de adeptos violentos, que atiravam projécteis nos arredores do Estádio Ellis Park de Johannesburgo. No total, 41 mil membros das forças da ordem do país vão estar mobilizados para o evento, que se celebra pela primeira vez no continente africano. A polícia sul-africana também colabora com a Interpol e outras agências internacionais para ter acesso as bases de dados e limitar ou impedir a presença de indivíduos considerados violentos.