Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

"A África e o Mundo esperam-nos na final"

António Félix - 19 de Janeiro, 2010

Kalou Salomon, atacante da Cote D´Ivoire

Fotografia: Jornal dos Desportos

Há uma máxima que nos diz que, em futebol, não se pode cantar vitória antes do jogo. Muitos agentes do futebol, treinadores, dirigentes e jogadores respeitam esse dito, mas muitos, também, o ignoram. É o caso do craque da Cote d´Ivoire, que numa entrevista ao jornal "Fraternité Matin" disse, claramente que "a África e o Mundo espera-nos na final ". Com a devida vénia retiramos alguns respigos.

Você fez um grande jogo contra o Ghana, melhor que com o Burkina Faso, em que você não esteve bem. Pode comentar?
Melhor do que ninguém, estive em campo e sei que o jogo com o Ghana foi até ao momento um dos mais importantes para nós neste CAN. Era preciso ganhar e foi o que fizemos, para evitarmos surpresas. Vamos agora ver o que se passará entre o Burkina Faso e o Ghana.

Esperava, sinceramente, que estivesse bem naquele jogo?
Sim. O resultado demonstra isso. Cada um jogou o máximo para o colectivo e assim evitamos um resultado favorável aos ghanenses. 

Quais foram os conselhos do técnico Vahid ?
Atacar e defender simultaneamente. E mais, respeitar as opcões tácticas.

Quais foram as tácticas?
Marcação a todo o terreno e ir marcar golos na baliza do adversário. 

E você, pessoalmente, cumpriu?
Fi-lo desde o momento que segurei a bola e passei a jogar "nas costas" de Gervinho.
 
O que é que você fez para servir a bola ao Gervinho que marcou o primeiro golo dos Elefantes ?
É uma acção que ensaiamos sempre nos treinos. É o jogo em profundidade. É, sobretudo, o Yaya Touré que faz isso com perfeição. 

Que sensação teve nesse dia ao saber que Gervinho foi o melhor jogador em campo eleito pela CAF?
Gervinho tem boa visão de jogo, é ágil. O treinador alinhou-nos com base nessas qualidades. E mais; Drogba joga bem de costas e isso constitui uma boa máquina de ataque. Penso que os nossos movimentos baralharam os ghanenses .

O facto de ter sido titular, ao lado de Gervinho, no ataque dos Elefantes , tem a ver com o trabalho que vocês fizeram na selecção nos Jogos Olímpicos de 2008, na China?
É verdade que com Gervinho formámos o ataque da selecção olímpica. Havia ainda o Cissé Sekou que, infelizmente, não está neste CAN. Mas na equipa actual há outros jogadores que estiveram nos Jogos Olímpicos. Posso falar de Angban Vincent, Angouan Brou, Bamba Souleyman e Koné Kouamentian. 

Tinha consciência de que há jogadores que fazem a última presença neste CAN?
O futuro é que nos dirá isso. Veremos se terão capacidade de estar à altura, mas por enquanto o que importa não é isso. O mais importante é esta Taça de África. Estamos aqui para vencê-la. O que importa não é o futuro.

Qual é a equipa mais difícil para os Elefantes neste CAN ?
Não, isso não é importante para começar. Já estamos apurados para os quartos-de-final. Os ivorienses são mesmo muitos apoiados. Quer em África quer no resto do mundo esperam-nos na final. Devemos satisfazê-los e conquistar o troféu. Não queremos estar sob pressão. O treinador mandou-nos conquistar o título de jogo a jogo.

Que equipas considera mais fraca neste CAN ?
Não considero equipa alguma fraca. Pelo contrário, encarámos todos os jogos da mesma forma para chegarmos à final.

Carta do maiombe

Olheiros do CAN e falsos profetas

Joseph Sepp Blatter, presidente da  FIFA, nos últimos anos, sempre que há uma competição continental ou mundial de peso, a nível de selecções ou de clubes, tem chamado a atenção dos jogadores para não caírem em vão, sem saber, no negócio da indústria do futebol, sem saber se haverá vantagens. No CAN´2010, na nossa terra, há olheiros enviados por patrões de clubes milionários a farejar craques para depois enviá-los para as grandes ligas, onde poucos, muito poucos mesmo, triunfam.

É certo que, se não fossem eles, não teríamos hoje em África estrelas como Drogba, Kanouté, Eto’o, Essien, Adebayor, Mike e outros, mas a verdade é que eles, os olheiros, levantam, muitas vezes, sérios problemas que a África do futebol enfrenta nos dias que correm.... “Arrancando” daqui talentos, levando-os a troco de falsas promessas para a Europa e, no meio de "jogo baixo", retiram dividendos avultados dos contratos que as estrelas africanas rubricam com clubes do velho continente.

De modo que, o que resulta desse jogo desigual, são efeitos perversos e negativos ao desenvolvimento do futebol em África. Blatter tem toda a razão do mundo quando costuma dizer: " é uma espécie de escravatura a que se deve pôr fim".
Em boa verdade, é uma advertência a que a África não pode estar alheia. Não pode fazer ouvidos de mercador.

Deve ver as suas federações e clubes cooperar, ajudar mesmo a FIFA a levar a peito essa situação e assim encontrar as vias mais adequadas para se pôr travão à exploração dos empresários do mercado futebolístico. A FIFA já resolveu o problema de África em 50  por cento, impondo regulamentos e leis. O resto deve ser levado a cabo pelas autoridades desportivas e políticas do futebol africano.

É também, essa necessidade, uma via pela qual se vai aliviar a pobreza no continente. E um dos antídotos, nessa luta, nessa necessidade já foi proposta por Blatter, em nome da FIFA é que haja provisões financeiras e investimentos dos governos em conjuntos com entidades não-governamentais entre outras para a salvação do futebol continental.

Acho que Angola por tudo quanto fez para o CAN cumpriu e está a cumprir a sua parte!

                                                                                              António Félix