Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

A alemã que superou Navratilova

18 de Abril, 2011

Graf também foi mestra em não expressar e não revelar suas emoções

Fotografia: AFP

Quando o mundo pensou que tudo estava escrito no ténis mundial e que ninguém mais era capaz de superar as façanhas de Martina Navratilova e a presença de Chris Evert, apareceu nas quadras a loira alemã. Steffi Graf. Com o seu temperamento, a sua garra para disputar os pontos e um "backhand" com "slice", que os especialistas previam não durar muito, Steffi Graf conseguiu superar três gerações de ténis, saindo-se vitoriosa.

Foi a primeira a ofuscar as míticas Navratilov e Evert na década de 80, lutando para manter a supremacia com Monica Seles e a espanhola Arantxa Sánchez no começo dos anos noventa. Posteriormente, enfrentou a vanguarda de adolescentes que surgiram com a suíça Martina Hingis e companhia. Graf golpeava a bola mais forte que ninguém. Com os dois pés fora do chão, o seu serviço era sólido e voava sobre a rede como a melhor, não era espectacular nem agressiva com as rivais, era na consistência que sempre superou as suas adversárias, uma verdadeira atleta.

Nem os problemas e saúde, alergias, sinusites, lesões de todo o tipo nos pés, no pulso, no joelho e lesões crónicas que afectaram a sua coluna, a impediram de ser a jogadora mais completa numa quadra de ténis. Agora, a grande pergunta que ficará para sempre sem resposta é: o que teria conseguido Graf, dentro do ténis, se não tivesse nenhum problema de saúde e nenhuma lesão?
Navratilova, uma de suas “vítimas”, admitiu que a única jogadora que dominava todas as superfícies (saibro, grama e grama sintética) era Graf e a sua velocidade era insuperável. “Estou certa de que se Graf não fosse tenista tinha todas as características para ser a campeã do mundo na prova dos 400 metros”, declarou Navratilova.

Graf também foi mestra em não expressar e não revelar as suas emoções, mesmo quando viveu uma etapa difícil de problemas pessoais e familiares com o seu pai Peter, preso na Alemanha por sonegação de impostos. Era uma máquina de jogar ténis no campo.
A sua relação com a imprensa sempre foi distante e sem nenhuma abertura pessoal, mas quando soltava o seu cabelo loiro e deixava-o cair sobre os ombros para oferecer um sorriso, de imediato enchia de classe e distinção o ambiente.

Início
Salgadinhos e sorvetes de framboesa foram os primeiros prémios pelo seu esforço numa quadra de ténis. Três anos tinha Stefanie Maria Graf que nasceu a 14 de Junho de 1969 em Bruhl, quando o seu pai colocou uma pesada raquete de madeira na sua pequena mão. Mal podia segurá-la mas o vírus do ténis afectou-a em seguida e desde esse momento começou a mudar esse desporto.
O pai, Peter Graf, reconheceu, imediatamente, o talento fora do comum da sua filha, e o explorou de forma metódica. Montada em grandes doses de orgulho, Graf lutou até chegar ao ponto máximo do ténis.  Depois do seu começo contra a parede da sala da sua casa, chegou a sua primeira vitória e foi num torneio juvenil, em Munique. O seu primeiro treinador, Boris Breskvar, considerado o descobridor de Boris Becker, opinou que Steffi era uma tenista bem dotada como uma ou duas num século. Com 12 anos foi a primeira alemã a ganhar o Orange Bowl. A sua primeira vitória num torneio profissional aconteceu em 1986.

Vitórias
A carreira de Steffi teve o seu primeiro ponto culminante em 1985, quando alcançou a semi-final do Aberto dos Estados Unidos e se transformou, com apenas 16 anos, na terceira tenistas do mundo atrás de Evert e Navratilova. No ano seguinte vieram os seus primeiros títulos ao derrotar Chris Evert na final de Hilton Head e açoitou Navratilova na final do Aberto da Alemanha em apenas 64 minutos. Nesse mesmo ano foi eleita, pela primeira vez, a Atleta do Ano na Alemanha, e no ano seguinte, depois de ganhar pela primeira vez o Roland Garros, alcançou o pódio do escalão mundial. A coroação da sua carreira ocorreu em 1988, quando ganhou pela primeira vez o torneio de Wimbledon, repetiu o título em Roland Garros e conseguiu os prémios do Aberto da Austrália e do Aberto dos Estados Unidos, alcançando assim o chamado Grand Slam.

A campanha de 1988 foi completada com a conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Seul. Um ano depois a espanhola Arantxa Sánchez impediu, com a sua vitória em Roland Garros, que a alemã repetisse o Grand Slam. Enquanto a década de 1980 foi de total ascensão, a de 1990 foi a de altos e baixos, tanto no desporto como na vida pessoal de Steffi. Os problemas com o seu pai, que em 1997 foi condenado a uma pena por sonegação de impostos, e uma serie de lesões ofuscaram a sua carreira, enquanto as novas promessas do ténis, Seles, Hingis e Jennifer Capriati ameaçavam tirá-la da primeira posição no ténis mundial. Em 1999 as lesões obrigaram Steffi a desistir na última hora de participar de sete torneios, nos quais estava inscrita, mas, surpreendentemente, conseguiu o que ninguém mais esperava dela: ganhar mais uma vez o Roland Garros, após derrotar Hingis na final.