Jornal dos Desportos

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Reportagens

"A FAVB no pode suportar as associaes provinciais"

Francisco Carvalho - 30 de Março, 2013

Valentim Domingos promete adoptar estratgias que visem a formao de formadores

Fotografia: Dombele Bernardo

Jornal dos Desportos - O longo período de defeso entre o fim de uma época e início da outra tem merecido comentários entre os praticantes. Há a intenção de se alterar o tempo inactivo?
Vanlentin Domingos - O calendário de competições estabelece três meses de defeso. Terminamos a época desportiva em Dezembro e iniciamos em Abril. Nos primeiros meses, as associações provinciais entram em actividade com torneios de abertura, campeonatos provinciais e cabe à Federação realizar os campeonatos e torneios nacionais, bem como outros eventos de índole internacional. Aqui ressaltamos a participação dos clubes nas Taças de Clubes Campeões Africanos e das selecções nacionais nas Taças das Nações. Recentemente tivemos um encontro com a Associação Provincial de Luanda, a que tem clubes de grande gabarito, como 1º de Agosto, Petro de Luanda, Progresso e outros, no qual se constatou a necessidade de se rever a programação. A recomendação foi baixada à direcção técnico-desportiva da FAVB para trabalhar com as associações provinciais no sentido de se rever o período da época desportiva. A Associação de Luanda entende que deve haver apenas dois meses de defeso e propõe que a partir de 1 de Março comece a época desportiva. O relatório está a ser elaborado e vai ser submetido à discussão na Assembleia-Geral ordinária.

JD - Qual é a situação real do voleibol angolano?
VD - Nesse momento ainda não estamos em condições de falar do estado real de voleibol, porquanto, desde a nossa tomada de posse, temos vindo a fazer um trabalho para apurar a situação exacta do estado em que se encontra o voleibol, quer no desporto escolar, quer no desporto federado. Tivemos uma reunião de direcção, na qual se baixou orientações para todas as áreas, mormente, técnico-desportiva, conselho de arbitragem, assim como outros órgãos, para se fazer o levantamento de todos os técnicos, árbitros e dirigentes qualificados. Está em curso o levantamento de todos os atletas em diferentes escalões, que vão participar na nova época desportiva, que começa em Abril. Além da orientação que foi baixada, assim como a confirmação das associações e a sua estrutura orgânica, vamos realizar a primeira assembleia-geral ordinária nos 7 e 8 de Abril, para aflorar a realidade de cada associação provincial e diagnosticar em que nível de desenvolvimento estamos. Após a conclusão do levantamento dos dados, poderemos estar em condições de dizer a real situação da modalidade.

JD - Quantas associações provinciais de voleibol estão filiadas na Federação?
VD -
Não temos mais do que dez associações e isso preocupa-nos. Queremos estender o voleibol a todo o país. Pelos contactos que mantivemos com a Direcção Nacional dos Desportos Escolares, ficamos a saber que existem 14 províncias a praticar o voleibol e fazem-se representar com frequência nos Jogos Nacionais dos Desportos Escolares. Faltam quatro províncias para preencher o país. Face ao número reduzido de províncias sem o voleibol, achamos que é hora de começar a trabalhar em todo o país.


VOLEIBOL DE PRAIA
Circuito nacional
tem seis provas


JD - O país tem duplas preparadas para substituir as lendas do voleibol de praia?
VD -
Há muitos jovens a despontar com a ajuda do Morais e do Manucho, que não se cansam de transmitir conhecimentos. São jovens que já pensam percorrer o circuito mundial e auguramos que, quando o fizerem, atinjam os Jogos Olímpicos. É como tudo na vida. Leva tempo para que apareçam outros Morais e Manuchos. O trabalho é o segredo. Quem se propuser fazê-lo deve cavalgar muito. Os jovens que desejam estar nos Jogos Olímpicos devem ter uma vida regrada, dedicação aos treinos, espírito de sacrifício e muita camaradagem.

JD - Quantos torneios de voleibol de praia realizam por ano?
VD -
Temos o circuito nacional que engloba seis provas - em Luanda, Namibe, Sumbe, Lubango, Lobito e agora Cabinda, que vai inaugurar uma Arena numa das praias locais. A Associação de Luanda está a realizar actividades que nos agradam e o voleibol de praia tem os seus espaços bem definidos em diferentes torneios, assim como as outras associações provinciais espalhadas pelo país.
Sempre defendi que com pouco é possível fazer pouco, mas bem feito. Não nos devemos emocionar na hora de realizarmos os torneios. O voleibol de praia tem características próprias e fazemo-lo com rigor. Se o primeiro torneio for bem organizado, a sequência de bem-fazer deve manter-se até ao último. Assim trabalhamos. Quando a sociedade começar a reconhecer que a modalidade é organizada, vamos estendê-la a outros pontos do país.

JD - Depreende-se que a Federação Angolana de Voleibol carece de uma área responsável pelo marketing e publicidade para elevar a modalidade. Há a intenção de criar esse departamento?
VD -
Está na forja a criação dessa área, bem como de outras, para potenciar o voleibol. Estamos à procura de pessoas certas para essas áreas.


ORGANIZAÇÃO DE CAMPEONATOS

“Vamos realizar provas regionais”


JD – Que propostas a FAVB vai apresentar na assembleia-geral face à desistência de clubes nas provas nacionais, depois de confirmarem as participações?
VD -
Entendemos que, se fizermos um investimento para uma participação massiva das províncias nos campeonatos nacionais, deve ser nos escalões inferiores, de juvenis até juniores. Os seniores dependem das associações provinciais, que devem canalizar as equipas para os eventos nacionais. Essas podem ser selecções provinciais, por exemplo. As associações provinciais devem encontrar recursos para a presença das suas equipas nos campeonatos nacionais. Na prova do Kwanza-Sul, apenas Luanda, com quatro equipas, e Kwanza-Sul, se fizeram representar. O Namibe alegou a falta de equipas seniores, porque há a orientação do governo local de se fazer a aposta na massificação. A província da Huíla alegou falta de verbas para se fazer presente. Vamos levar essas considerações à assembleia-geral para se inverter a situação. Primeiro, deve haver organização funcional nas associações provinciais. A FAVB não pode continuar a suportar as despesas de participação de todas as associações nos campeonatos nacionais de seniores. Se o fizermos, já nada mais faremos ao longo da época.

JD - Por que razão não adoptam o modelo de premiação do voleibol de praia para atrair muitos clubes no voleibol de sala?
VD-
Não há comparação possível.

JD - Porquê?
VD
- O número de atletas no voleibol de sala é de longe superior a uma dupla de praia. Em provas nacionais, solicitamos duas duplas (das quais uma feminina) por cada província. São quatro elementos. Uma equipa de sala é composta por 15 atletas, roupeiro, fisioterapeuta, estatístico, treinador adjunto, treinador principal e chefe da delegação. É muita gente e fica muito caro. A uma prova às expensas da FAVB vem todo o mundo.

JD - Outras federações, como a de andebol e de desportos de combate, estão a ensaiar novos modelos de realização de provas regionais. É uma saída que pode ajudar o voleibol?
VD -
Estamos a estudar uma forma e vamos pô-la em cima da mesa na assembleia-geral: a regionalização de campeonatos. Achamos que é a melhor maneira de realizar os campeonatos com menos custos e tempo. Vamos realizar provas regionais e os vencedores disputam o campeonato nacional.

JD - Essas provas vão justificar os níveis competitivos de que a FAVB precisa?
VD -
Justificam sim, porque sempre pedimos a todas as províncias para que criem as selecções locais para disputarem as competições nacionais. Luanda, por exemplo, tem o 1º de Agosto e Petro de Luanda, clubes com níveis competitivos diferentes de todos em Angola. Se as selecções provinciais ou regionais jogarem com o Petro de Luanda ou 1º de Agosto a possibilidade de chegar ao pódio são maiores. Enquanto houver uma equipa do Lubango ou de Cabinda, as classificações vão ser sempre as mesmas: no fundo da tabela. Isso cria descontentamento junto das direcções dos clubes e dos patrocinadores, que começam a alegar gastos desnecessários de dinheiro, defrauda as direcções e no campeonato seguinte já não participam por faltas de verbas. Se fizerem o que sempre propusemos, vamos buscar um campeonato mais competitivo. Achamos ser essa a melhor forma de se evitar a ausência de clubes nas provas nacionais.

JD - Consta que, excepto Luanda, as associações provinciais assumem a responsabilidade da formação de atletas. Até que ponto é verdade?
VD -
As associações provinciais devem colocar os atletas nos clubes para que internamente haja disputas equilibradas para facilitar a constituição das selecções locais e a realização de provas regionais. O contrário só vai esmorecer todo o investimento em curso nas camadas de formação.


ORÇAMENTO

“A nossa fatia é de 6,5 milhões de kwanzas”


Jornal dos Desportos - Quanto recebem do Orçamento Geral do Estado?
Valentim Domingos -
A nossa fatia anual é de 6,5 milhões de kwanzas. Se perguntarmos às equipas participantes no “Nacional” do Sumbe quanto gastaram cada uma, o valor é igual ou superior ao nosso orçamento. Logo, não há possibilidade de custearmos as despesas com as equipas de seniores. De nada vale fazer promessas, se não há condições de as cumprir. Não prometemos custear nenhuma equipa de seniores.

JD - A Federação sobrevive apenas do orçamento atribuído pelo Ministério da Juventude e Desportos?
VD -
Temos um patrocínio da Sonangol, um da Unitel para o voleibol de praia e o Orçamento do Estado. Os apoios que surgem aqui, acolá, são encaminhados para a compra de material, porque a nossa aposta é desenvolver a base, a massificação, a formação de professores de Educação Física, monitores e árbitros. Tudo isso é prioritário na nossa agenda para recomeçar. Os frutos vão surgir dentro de mais alguns anos.

JD - Por que a FAVB não investe num patrocinador para custear os prémios do voleibol de sala, por exemplo?
VD -
Para se ter um bom patrocinador há que mostrar primeiro o produto. A modalidade precisa de visibilidade e estamos a trabalhar para que o patrocinador possa ter o retorno do seu investimento. Se assim não for, não aparecem patrocinadores. Estivemos a fazer o programa de formação, logística, material e equipamentos desportivos, despesas correntes da FAVB, o somatório de tudo é uma gota no oceano, comparado ao valor necessário.

JD - Qual é o valor necessário para uma gestão tranquila?
VD -
Pelas contas que fizemos - e muitas apertadas - precisamos de 300 mil dólares norte-americanos (cerca de 30 milhões de kwanzas) por ano para se fazer a base. É como tudo na vida. À medida que se vai alargando a base, as exigências também crescem. Para começar, esse seria o valor razoável.

JD - As equipas de seniores também estariam abrangidas nesse valor?
VD -
Se o objectivo é ter o maior número de províncias nas competições nacionais, a FAVB teria de assumir todas as despesas, mas as pessoas que estão à frente das associações provinciais são carolas como nós. Não há apoio das direcções provinciais da Juventude e Desportos para as associações. Eles dizem que a prioridade do programa dos governos provinciais é a massificação e fazem-na com a nossa intervenção. Demos os materiais e formamos os técnicos. Fala-se do programa, mas na prática não se vê. Na nossa qualidade de órgão reitor da modalidade, andamos pelo país e onde vemos que existem boas intenções, trabalhamos com aqueles camaradas no sentido de catapultar a modalidade. Fora disso, ninguém faz por nós.

JD - A diferença entre aquilo que recebem e o necessário para trabalhar à-vontade é grande. Como pensam encontrar o meio-termo para colocar a modalidade nos carris do desenvolvimento?
VD -
Às vezes, acima do dinheiro está a vontade do homem de fazer as coisas. Quando há vontade, empenho e dedicação os 30 milhões de kwanzas necessários aparecem de forma visível ou invisível. Por isso é que não olhamos muito pelo valor financeiro necessário. Habitualmente, prestamos as contas no Ministério da Juventude e Desportos e a dotação que nos é cabimentada é repartida em função da importância da actividade a realizar. Parte da verba é aplicada à formação. Recorremos aos patrocínios da Sonangol para aquisição de material desportivo e à Unitel para o voleibol de praia. No ano seguinte, as verbas são aplicadas noutras actividades inerentes ao desenvolvimento do voleibol. Numa escala de zero a 100, cada direcção procura deixar a sua marca num determinado nível sempre superior ao do seu antecessor. Assim se faz o voleibol com os parcos recursos financeiros. Tivemos essa experiência com a participação da nossa dupla nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008. Era sonho de Morais e Manucho jogarem nos Jogos Olímpicos. Quanto gastaram durante o percurso de qualificação no circuito mundial até chegar a Pequim só eles sabem. O sacrifício superou o sonho. Fizeram apertos nas contas e na vida para realizar uma proeza que deixou orgulhoso não só o país, mas o continente, que pôde inscrever mais uma nação pela primeira vez na história da competição. Sonhar não é proibido.


POLITICA DESPORTIVA

“Vamos fazer os programas
dentro das disponibilidades”


JD - Falta alguma vontade política dos governos provinciais para o desenvolvimento do desporto?
VD -
Não sei se há vontade política ou se a política, no geral, não está direccionada para essas coisas. Portanto, a política é mesmo política. Há um momento em que há uma actividade grande e as coisas se realizam. As pessoas pensam que aquilo veio para ficar, mas depois desaparece. Quando se volta ao local para saber se há condições para repetir a actividade realizada no ano anterior e acordada para o ano seguinte, a resposta é que as coisas não estão previstas e acaba por não se fazer. Nós não podemos seguir esse tipo de comportamento.

JD - O que pensam fazer?
VD -
Vamos fazer os nossos programas de acordo com as nossas disponibilidades. Há muita juventude motivada e interessada em praticar o voleibol, mas não encontra apoio nas províncias em que residem. Estamos em Luanda e não nos permite estar em todo o lado, quando as pessoas querem. As associações provinciais esbarram em dificuldades tremendas. Contudo, vamos trabalhar para dar visibilidade à nossa modalidade e fazer com que as pessoas acreditem. É mais uma modalidade desportiva em que as pessoas podem apostar e investir.

JD - Face à constatação feita junto dos governos provinciais, que estratégias tem a FAVB para elevar o nível competitivo das equipas locais?
VD -
As equipas das demais provincias das modalidades com visibilidade, como o andebol, basquetebol e futebol, muitas delas não chegam ao fim de uma prova nacional ou provincial. O desporto-rei, por exemplo, é a que mais regista ameaças de desistência das equipas, mesmo sendo a representante da província na prova maior. Perante esse facto, a nós, das chamadas modalidades pobres, nem sequer olham. Vamos ver um exemplo prático: a província de Benguela. Em tempos áureos, teve equipas em pé de igualdade com o 1º de Agosto, Dínamo de Luanda, Inter de Luanda, Inter do Namibe. O 1º de Maio de Benguela desapareceu, já não se fala de voleibol em Benguela. Organizámos o voleibol de praia no Lobito e nem sequer apareceu uma pessoa para assistir às partidas.

JD - O que está na base do corte com a modalidade?
VD -
Não sei o que se passa. Perguntei ao presidente cessante da FAVB, António Justino, que esteve em Benguela e se reuniu com director provincial da Juventude e Desportos e deixou kits de materiais desportivos, como bolas e redes, para a massificação, e também ele não sabe explicar as razões da letargia naquela província.

JD - A cultura da prática do desporto perdeu-se no tempo?
VD -
Não. A vontade das pessoas em fazer é que mudou. Nós fazíamos por gosto e amor à modalidade. Agora veio a cultura do profissionalismo. Isso faz com que fique um pouco complicado.


ESTRATÉGIA

“Não estamos a pensar no profissionalismo”



JD - Que conversas mantém com o Ministério da Juventude e Desportos no sentido de influenciar no regulamento do profissionalismo no desporto com todas as vantagens a ela inerentes?
VD -
Isso é visto em todos os simpósios, seminários e encontros entre o Comité Olímpico Angolano e o Ministério da Juventude e Desportos. A bola está do lado do Ministério da Juventude e Desportos, que está a conceder os mecanismos legais para a sua efectivação. Desconheço em que pé está a situação. Nós, o voleibol, ainda não estamos a pensar no profissionalismo. Temos de criar as bases sólidas, dar visibilidade ao nosso desporto para atingir o topo. Quando chegarmos a essa fase, só assim vamos pensar no profissionalismo.

JD - Acabou de dizer que as pessoas criaram a cultura do profissionalismo, mas promete desenvolver a modalidade com amadorismo. Quer se explicar melhor?
VD -
No estado em que se encontra a nossa modalidade, não há outra saída. Luanda, o berço da modalidade no país, tem apenas quatro clubes, os únicos a nível nacional. Há uma grande disparidade no nível competitivo e desportivo entre as equipas de Luanda e das demais províncias. Portanto, temos de pegar na base e em conjunto emergirmos.

JD - É aqui que o desporto escolar é importante para o desenvolvimento...
VD -
Sim. Temos uma interacção muito grande com o desporto escolar e encetamos contactos para encontrar as formas de relançar em simultâneo o voleibol a nível nacional. Vamos começar com o desporto escolar e prosseguir com o desporto federado. Não podemos acomodar-nos com as equipas existentes, temos de buscar outros clubes nas províncias mais sensíveis que não têm futebol, basquetebol ou andebol. Se o voleibol aparecer e dermos formação aos professores para que formem bem os atletas e possam integrá-los em clubes, dentro de pouco tempo teremos mais equipas nas competições nacionais e provinciais ou regionais.

JD - Qual é a estratégia da FAVB para a formação?
VD -
Estamos a fazer o levantamento dos técnicos existentes e vamos dar também formação aos professores de educação física. Não são muitos. Em algumas províncias, os professores de educação física não são formados nessa especialidade, são colaboradores e pessoas que gostam do desporto. Portanto, não têm a base necessária para preparar o jovem atleta. É imperioso darmos formação específica para orientarem os atletas de forma correcta. Está na forja um programa de formação da área técnica destinado aos professores e treinadores, que vai ser submetido à discussão na assembleia-geral ordinária.