Jornal dos Desportos

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Reportagens

A mulher e os amores

Rosa Napoleão - 15 de Outubro, 2013

“A promessa incómoda a Luísa de tal forma que se esforça por cumprir, porque a filha cobra, sempre que regressa de uma competição”, disse.

Fotografia: Jornal dos Desportos

O gosto pelo basquetebol nasceu no íntimo de Luísa Macuto de forma involuntária. O olhar alegre aos batimentos e lançamentos criaram uma paixão inexplicável. De sonho a sonho, Luísa Macuto acresceu ao basquetebol uma filha e um marido. Mais duas paixões que completam a sua felicidade.
Alegre e de fácil trato, Luísa Macuto revela a sua vida. Uma vida repleta de conto de fadas, em que alguns personagens também são tristes.

Tão tristes que, às vezes, colocam a vida difícil na hora de conciliar as paixões. A divisão entre a maternidade e o desporto é “difícil”. Enquanto solteira, o basquetebol era “o Rei” na lista de prioridades de Luísa Macuto a par dos estudos. O tempo passou e formou uma família. Linda e amável. Os dois enchem de orgulho o coração da basquetebolista. A conciliação aperta na hora da escolha. Investida no “cargo” de atleta “mãe”, Luísa Macuto desabafa as grandes dificuldades que enfrenta na carreira desportiva. “Para nós atletas, ter um filho é bastante complicado”, diz com firmeza.

A atleta do 1º de Agosto justifica a “complicação” de conciliar o desporto à família: “Temos necessidade de nos ausentar com muita frequência o que nos obriga a não ter um bom acompanhamento dos nossos filhos”. Luísa Macuto vive com a filha Maria Liliane Tomás Yango de forma “intermitente”. A Selecção Nacional e o 1º de Agosto (antes o Interclube) são os principais “culpados”.

“Tenho sacrificado a minha pequena Maria Liliane desde muito cedo”, confessa Luísa Macuto que transferiu o abraço e o afecto da família. “Felizmente, tenho a minha mãe, a dona Helena Maria, que cuida da neta sempre que tenho de sair para as províncias ou fora do país em competição”, disse. O sacrifício de Luísa Macuto é sempre compensado nos campos. Em Maputo, onde defendeu o título ao lado de outras estrelas sob a responsabilidade de Aníbal Moreira, Luísa Macuto voltou a confiar no apoio da mãe.

“Fomos gratificadas no final, graças a Deus, pois a vitória foi muito sofrida. Fizemos em campo um esforço suplementar para que todos os angolanos vibrassem naquele dia. As nossas famílias estavam separadas de nós durante muito tempo”, disse com um sentimento de culpa. Luísa Macuto ressalta o seu suporte maternal: “Particularmente, tive de deixar a minha filha, mais uma vez, com a minha mãe”.

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VIDA A DOIS
Diálogo em casa
supera diferenças


A vida a dois tem as suas implicâncias no relacionamento. Entre a compreensão e a incompreensão há um hiato que, às vezes, torna perigosa a vida conjugal. O diálogo é a solução perfeita. Essa é a via que Luísa Macuto utiliza desde que partilha a cumplicidade com Zeferino Yango. Depois do nascimento de Maria Liliane Tomás Yango, a extremo do 1º de Agosto revela que foi bastante difícil convencer o marido a permitir as saídas para competir no exterior do país.

“Era muito difícil convencê-lo a aceitar. Os pais são muito apegados aos filhos ao ponto de temer tudo: segurança, amamentação e outros pormenores importantes, como a própria presença da mãe”, esclarece. Para Luísa Macuto, a convivência profissional facilita na hora de discutir as saídas. O contrário “é mesmo complicado, porque não há argumentos suficientes para explicar as ausências”.

“É mais fácil quando a atleta se une a alguém também atleta que conhece os procedimentos e a vida complicada dos desportistas”, explica. No lar, o diálogo supera as incompreensões. Hoje, tudo está mais facilitado e diferente. “Com o tempo, felizmente, as coisas melhoraram e, com a minha filha mais crescidinha, acabaram-se as complicações”, disse com um sorriso alegre.

O medo de Zeferino Yango faz parte do passado. A menina Maria Liliane Tomás Yango continua sob a “segurança” da Dona Helena Maria que sempre a cuidou. Luísa Macuto compara a sua gestão e da mãe: “Cuida dela melhor do que eu própria”.

MÃE DA ATLETA
Helena Maria pede atenção

Com um falso sorriso, a Dona Helena Maria, mãe da bi-campeã africana Luísa Macuto, exprime o que considera alguns “inconvenientes” constatados na carreira desportiva da filha. “É bom termos uma filha na Selecção Nacional e vê-la a representar o país no exterior é motivo de orgulho”, começou por envaidecer-se. Helena Maria revela que a família se opunha aos constantes treinos de Luísa Macuto no início da carreira. “Ninguém imaginou que chegava tão longe, mas hoje a família sente-se feliz e regozijada pelos seus feitos”, ressalta.

Nem tudo é um mar de rosas. No meio da alegria, a Dona Helena Maria “gostava de ver alguma coisa alterada”. “As meninas esforçam-se demais, mesmo com as responsabilidades de filhos e maridos, comprometem os seus estudos em função das constantes saídas, e não são devidamente recompensadas por quem de direito”, reclamou.

ELOGIOS À NETA
A dona Helena Maria, mãe de Luísa Macuto, manifestou a sua admiração pela primogénita da bi-campeã africana de basquetebol e orgulha-se de cuidar da neta. “A minha neta é uma menina adorável, está habituada comigo, é mais minha filha e prefere ficar comigo do que com a própria mãe. É bom cuidar dela, faz-me lembrar de quando a mãe era pequena, elas são iguaizinhas”, elogia. Dona Helena revelou que a neta (Maria) é a pessoa que dá mais força à família nos momentos difíceis dos jogos em que a mãe participa.

“Nos momentos difíceis dos jogos em que a sua mãe actua, ela mantém a fé e até faz oração para tudo dar certo”, disse. Dona Maria revelou também que toda a vez que a Luísa Macuto sai em competição, a pequena Maria recomenda-lhe para marcar muitos pontos e dedicar-lhos. E a promessa serve de mola impulsionadora na hora dos jogos. “A promessa incómoda a Luísa de tal forma que se esforça por cumprir, porque a filha  cobra, sempre que regressa de uma  competição”, disse.