Jornal dos Desportos

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Reportagens

A Originalidade de um caso

Matias Adriano - 22 de Outubro, 2010

Amaral Aleixo protagonizou a sua maior façanha como desportista.

Fotografia: Ndombele Bernardo

A percepção não foi fácil. Tamanha foi a surpresa para a esmagadora maioria daqueles que anda(va)m de mãos dadas com o desporto. A rádio e os jornais davam ênfase à metamorfose. O homem que cinco anos antes tinha regressado do “Africano” júnior de Maputo coroado como campeão africano tinha trocado o basquetebol pelo futebol e marcava golos fabulosos ao serviço do clube do “Rio Seco”. Amaral, convidado aqui em “Perfil”, rebobina a cassete e na reemissão do filme narra capítulos fantásticos que marcaram a sua carreira desportiva, pejada de êxitos, por ter tido a inédita particularidade de jogar, como federado, basquetebol e futebol  e nas duas modalidades chegado à selecção nacional.

Assume-se um homem do basquetebol, mas que sempre gostou de fazer uma perninha no bairro. “Mesmo quando eu jogava basquetebol no bairro praticava futebol com amigos e vizinhos e muitas vezes chegava a ter melhor desempenho em relação aos demais, o que deixava boquiaberta muitos presentes”. Conta que enquanto estudante praticava quase todas as modalidades no chamado desporto escolar, até que entendeu optar por uma só disciplina, tendo a “bola ao cesto” caído nas preferências. “Assumi muito seriamente o basquetebol quando estudava no Alda Lara. Foi daí onde saí para o Benfica de Luanda levado pela mão de Alfredo Mamoeiro.”

A passagem pelo Benfica foi quase efémera, tendo se transferido a seguir para o Textang. “Como atleta federado comecei no Textang, onde tive o prazer de trabalhar com muito boa gente.” Um tempo depois do Textang para o Petro de Luanda só foi um pulo. “Só me lembro que fui apanhado num campo qualquer por Mário Palma , que já andava à minha procura e fui parar no Petro de Luanda. Depois do “Africano” de Maputo passei para a equipa sénior e fui conquistando o meu espaço com entrega e dedicação.” Mas aí ficou. Não foi mais além. Pois um dia foi à cama e sonhou a marcar golos fabulosos numa baliza de futebol.

Mas revela que apesar da sua queda para o futebol, houveram também outros factores que motivaram a sua posição. “Eu no Petro fui vendo que, como base, não tinha muitas hipóteses. Pois, lá estavam ainda dois grandes senhores, nomeadamente Mário Octávio e Victor Almeida. Ainda assim, fui jogando na esperança de não ser o maior mas ser o melhor.”Em 1986, Amaral não é chamado à selecção que vai ao mundial de Ferror(Espanha). Não gostou e tomou a primeira nota. Depois passou a ser ostracisado com a saída de Mário Palma que o projectou, tomou outra nota. Seguiram-se outras situações menos agradáveis, que evita descrever, e bateu com a porta. “Em 1986 fiz a minha melhor temporada como basquetebolista mas fiquei fora da selecção e depois com a partida de Mário Palma eu e alguns colegas que éramos tidos como seus protegidos passamos a sofrer algumas represálias e preferi sair.”

“Estreei no Girabola
a marcar ao Ferroviário”

Analisava com cautela convites de outros clubes cá do burgo, quando certo dia é convidado por Mané e Novato que já conheciam, partir do bairro, os seus dotes futebolísticos a ir para o 1º de Agosto. “Mané e Novato tinham sido influenciados por uma entrevista que cheguei a dar ao JDM-Jornal Desportivo Militar, em que deixei a entender nas entrelinhas que não queria mais jogar basquetebol.” E com um pé à frente outro atrás lá foi o basquetebolista para o futebol. “Eu próprio às vezes não sei explicar como foi. Só sei que dias depois deste contacto eu estava a treinar no campo dos Comandos no 1º de Agosto. Lembro-me que os treinos passaram a atrair muita enchente. Muitos oficiais e dirigentes do clube queriam ver como o basquetebolista colocava a bola.”

Ainda assim, não integra a equipa. Por algum lapso ele incorpora o grupo de atletas não inscritos que treinava com a equipa de dispensados. “Uns dias depois apareceu em minha casa com um Mercedez, o Ângelo Silva, na época secretário geral do clube, que me foi buscar com desculpas de que eu não estava abrangido no grupo dos dispensados. Portanto, eu apareci no 1º de Agosto num Mercedez.”. Os passos que se seguiram foram do tratamento, pelo clube, do expediente administrativo que consistiu na sua transferência dos quadros da marinha de Guerra para o CODENM. “Arrumado este expediente estava eu vinculado ao clube militar na altura a mando de João Machado.”

Na altura pontificavam no clube militar jogadores de referência na praça, e Amaral receava fracassar na sua aventura. “Na verdade foi mesmo um desafio. Eu tinha muito medo de conseguir vingar numa equipa como aquela que eu encontrei. Por lá ainda andam Ndunguidi, Vieira Dias, Nelito Kwanza, Tony Estraga e outros jovens como Degas, Manuel que tinham escola.”Mas quando há vontade e determinação atingem-se sempre os objectivos. Nos treinos Arnaldo Gamonal, preparador físico dizia-me sempre para apreciar e imitar os passes de  Nelito Kwanza, já que fui adaptado a médio-ala esquerdo. O primeiro jogo foi com o Ferroviário da Huíla. Entrei a substituir Vieira Dias, dei um golo a marcar e marquei um. Vencemos por 3-0.”

Ilustre estranho no futebol, e talvez alheio ao rigor das regras na nova modalidade, o artilheiro desatou a festejar o golo, correndo até onde não devia. E o árbitro Oliveira Pinto fez questão de coroar a sua estreia com uma cartolina amarela. “Estreei com um golo, pena é que também tenha levado um cartão amarelo. Mas foi marcante.” Mas o “boom” veio quando passou a jogar à ponta de lança, já no Petro de Luanda. Aí foi marcando golos de acabado artifício até chegar à selecção nacional. “Na verdade, aí pude mostrar melhor a minha veia goleadora a ponto de ter sido melhor marcador duas vezes: uma pelo Petro e outra pelo sagrada Esperança.”

“Sinto muito orgulho”

Jogar na selecção de basquetebol mudar de ares e chegar também à selecção de futebol é uma façanha que só ele, Amaral Aleixo, ousou protagonizar no nosso desporto. E talvez esteja com uma mão cheia de razão quando diz, ufano, que se sente orgulhoso por isso. “Sei que haverá por aí angolanos(não muitos) que já praticaram duas disciplinas. Mas não tenho memória de alguém que tenha representado o país nas duas. Felizmente eu consegui este feito, e é para mim um motivo de grande orgulho.”Enquanto dirigente desportivo, Amaral disse que não teria dificuldade alguma em trabalhar no basquetebol ou no futebol. “Estou no dirigismo desportivo e devo estar pronto para tudo. Aliás, eu no Petro de Luanda já passei em quase  tudo.”

O hoje vice-presidente do Petro para as modalidades amadoras e responsável pela área associativa, diz que precisa recuperar algumas fotos suas como atleta das duas modalidades que praticou. “Há duas que me interessam muito, ambas com o Presidente da República. Uma quando vencemos o “Africano” de Maputo(basquetebol) e outra quando com o Petro vencemos uma Taça de Angola(futebol). São relíquias que eu gostaria de possuir.”