Jornal dos Desportos

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Reportagens

"A prova vai trazer coisas positivas para o nosso país"

Muanamosi Matumona - 25 de Dezembro, 2009

Drª Maria da Encarnação Pimenta

Fotografia: Jornal dos Desportos

Como psicóloga de renome no país (e não só), como analisa o compromisso que Angola assumiu de organizar a magna competição futebolística a nível continental?
Há muita coisa para se dizer acerca do CAN’2010, pois trará muitas coisas positivas para o povo e para o país em geral, uma vez que todos se sentem animados e atraídos pelo evento. Isso é muito positivo. Quando digo todos, estou a alargar os meus horizontes para esclarecer que não são apenas os angolanos que estão satisfeitos e, ao mesmo tempo preocupados… É claro que, tratando-se de um evento internacional, muitos sãos os estrangeiros, espalhados pelos quatro pontos do planeta, a preparar-se para olhar para Angola ou ainda para descobrir este país. Isto pesa psicologicamente, pois há sempre algo dentro de quem quer que seja. É bem verdade que muitos estrangeiros desconhecem onde fica Angola. Outros ouviram falar deste país, mas na diagonal. Com o CAN’2010, que o nosso país vai acolher, a curiosidade vai ser uma realidade. Todos vão querer conhecer Angola com mais pormenores. Nestas circunstâncias, o país tem uma grande oportunidade para se fazer conhecer ao mundo, demonstrando o que tem e o que vale em termos da promoção humana.
 
O Desporto, especialmente o futebol, é capaz de oferecer essas vantagens todas à sociedade angolana?
Sem dúvida, porque o futebol ajuda o homem a crescer em três frentes: física, psicológica e espiritual. Daí, a importância que tem para o crescimento tanto individual como colectivo. Por isso, tem a ver com a vida integral de qualquer ser humano e o angolano, claro, sendo um homem normal, não foge a essa regra. E para o nosso povo, a situação é muito peculiar. Vejamos: o país viveu em guerra durante muito tempo. Pior ainda é que não foi qualquer guerra. Foi guerra no verdadeiro sentido de palavra. Levou e transformou, pela negativa, a vida de milhares de angolanos e todo o país ficou traumatizado. Em pouco tempo, com a paz reconquistada, foram dados largos passos no campo desportivo. Isso ajudou muito o povo angolano a viver unido e reconciliado, porque o futebol serviu de alavanca para consolidar a paz e a unidade. Vejamos: o apuramento dos Palancas Negras para o Mundial’2006, que foi o ponto mais alto dos saltos que o país ia dando, elevou o moral de todos. Psicologicamente, os angolanos ganharam outro ânimo, outra personalidade, outro prestígio, e outra estabilidade emocional. Foi edificante. Assim sendo, é muito justo apontar o futebol como um bom trampolim para a paz do espírito do povo angolano. Com o CAN’2010, há mais responsabilidade para aumentar esta estabilidade. E quem ganhará com isso é toda a Nação. E quando se fala também da reconstrução, vê-se claramente que, com o futebol, os angolanos estarão psicologicamente prontos para assumir os desafios enquadrados neste âmbito.

Há quem defenda que o CAN é um fenómeno cultural. A psicologia concorda com essa leitura?
Evidentemente. Como algo cultural, o CAN está bem posicionado, pois vai servir para demonstrar que a cultura de um povo não se resume apenas em danças, cantos, provérbios, e outros dados folclóricos. A cultura tem mais elementos, que são muitos. Nesse horizonte, situa-se o futebol, que faz parte dos valores que um povo, um país ou ainda uma sociedade cultiva. A psicologia não nega essa verdade. Reconhece-a. Mas também sublinha que o CAN é algo que mexe com o interior de cada um.

Nesta sequência, pode-se assegurar, sem medo de errar, que a Taça das Nações Orange Angola’2010 só trará coisas boas para o país?
Não é bem isso. É claro que os aspectos positivos devem ser bem salientados. Mas isso não significa que tudo seja um mar de rosas, pois não vão faltar coisas negativas. E são muitas: para já, é de destacar a ansiedade que vai marcar muita gente. Em psicologia, a ansiedade é um estado patológico. Ora, não é boa para um indivíduo ou para um povo, porque é mãe de muitos acidentes e de outras doenças, porque provoca tensões e outros danos psicológicos. Por exemplo, isso de esperar com muita ansiedade pela competição é algo “chato”, pois leva as pessoas a perderem o controlo dos seus impulsos. Surgem apostas, que muitas vezes levam à inimizade, surgem muitas pressões, regista-se a luta pela compra de bilhetes de ingresso, os “amigos de dinheiro” estudam como “explorar” o público, com a venda de “senhas” a preços exorbitantes, já que o lucro pode falar mais alto. Há, ainda, outras situações: a prostituição, o alcoolismo, a violência. Para os jogos, qualquer resultado pode provocar situações desastrosas. É pena que isso não tenha apenas a ver com os jovens, uma vez que os adultos também podem perder a concentração. Outro aspecto negativo é o tempo em que o CAN’2010 está a ser preparado e as datas da sua realização: os estudantes encerraram o ano lectivo (as provas finais) com muita emoção provocada pelo mesmo certame. Muitos perderam e perderão ainda a sua concentração: há ainda exames de recurso, provas de aceso ao ensino superior, projecção do novo ano académico, etc… Como se pode ver, o quadro, nesse sentido, pode ser negativo.

Os pontos negativos são mais que os positivos?
O mais importante não é medir esses pontos. O melhor é cada angolano reconhecer a importância que o evento tem para toda a Nação. Todos devemos encarar o CAN como algo que trará benefícios para o país. É uma dádiva, pelo que é bem-vindo. Porém, a competição não pode servir de argumento para justificar algumas falhas, erros e o incumprimento de certos projectos. Temos de ser responsáveis.

Acredita numa campanha brilhante dos Palancas Negras?
Reafirmo que não sou conhecedora do futebol, tecnicamente falando… Porém, como cidadã e professora de motricidade humana numa das Universidades sediadas em Luanda, diria que os Palancas Negras devem sonhar com o triunfo final para escrever, em letras douradas, a história do futebol angolano. Mas, para tal, devem trabalhar a sério para merecer a vitória, pois esta não cai do céu. Outra coisa um pouco mais realista é esta: o futebol é uma ciência, pois já terminou o tempo do empirismo. Daí, uma pergunta: já temos escolas de futebol para formar cientificamente as crianças para que estas possam crescer com o futebol no sangue? Já pensamos como está organizado o desporto em países como a Nigéria, Camarões, Egipto, Tunísia, etc? Já pensamos, também, em comparar o nosso nível em relação ao de outras grandes selecções que participarão no evento? Acredito que esses pormenores devem guiar as nossas perspectivas.

Mas espera ou não a vitória final da equipa de todos nós?
Pessoalmente, como professora universitária, não espero apenas os resultados dos jogos dos Palancas Negras. Espero muito mais: a atitude de apreender, com muita humildade, com os outros que sabem muito mais e que têm um desenvolvimento maior em relação ao nosso. Depois do CAN, gostaria que as coisas não terminassem por aí. Após esta magna campanha, gostaria de ver, em Angola, a abertura de escolas de futebol, que comecem a partir de creches, a reestruturação do Instituto de Educação Física. Numa palavra, diria que Angola ganharia muito mais se investisse a sério no futebol, reconhecendo-o como uma autêntica ciência… É preciso avançar com mais iniciativas porque o país deve saber colher os frutos da organização da Taça das Nações Africanas. Assim, para esta prova, a preocupação maior dos angolanos não pode ser apenas o troféu. Temos de pensar também no pós-CAN.