Jornal dos Desportos

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Reportagens

A saga vitoriosa de Angola

Matias Adriano - 20 de Agosto, 2013

BIBLIOGRAFIA *Arquivo/Jornal de Angola *Breve história de Angola nos Afrobasket´s

Fotografia: Jornal dos Desportos

Angola foi desde sempre um país com forte potencial desportivo. Só assim se explica que logo após a sua ascensão à independência, que se deu a 11 de Novembro de 1975, o desporto tenha logo procurado ganhar o seu espaço, numa altura em que a política de Unidade Nacional parecia constituir a prioridade das autoridades da época.

Os torneios de amizade Angola/Cuba em futebol(1977) a que viria depois seguir-se o celebérrimo torneio “Ano de Agricultura(1978), espelhavam a necessidade de Angola atingir a excelência desportiva a nível do continente africano. Convirá, porém, reconhecer que o basquetebol fez disputar o seu campeonato nacional em 1978, cujo titulo foi meritoriamente arrebatado pelo Ferroviário de Angola. Este passo despertou o país para a participação em diferentes torneios internacionais como as Universíadas e os jogos da SKDA. E dai para a primeira presença num campeonato africano foi um curto passo.

Em 1980, o mesmo ano em que Angola organiza e conquista o primeiro campeonato africano de juniores, numa final escaldante na Cidadela Desportiva, em que venceu a República Centro Africana no prolongamento, fazia a sua estreia em Afrobasket’s. Aconteceu em 1980 no Marrocos. Numa época em que selecções como as do Egipto, Senegal e Costa do Marfim eram tidas como papões, pouco ou nada se podia esperar do “cinco” angolano que quedou-se na nona posição.

A desfavor do combinado nacional, para lá de alguma inexperiência própria de quem se iniciava na alta roda do basquetebol continental,  pesava também nessa época a sua condição morfológica, sendo que entre os seus jogadores contavam-se aqueles que vendessem altura e peso recomendáveis para a alta competição a nível de uma modalidade super-exigente neste aspecto. 

Um ano mais tarde, em 1981 quando a Somália chamou a si a organização do certame, Angola voltou a fazer-se presente em Mogasdicio. Dessa vez melhor preparada e com a ambição de superar a classificação da edição anterior. Levados pelas mãos de Vitorino Cunha, os angolanos mostraram ao continente os seus índices de crescimento meteórico. Não voltaram a ser o bombô da festa de Rabat e evoluíram do nono para o um honroso quinto lugar.

Ai tinha ficado o alerta de que em Angola se estava a trabalhar fortemente na modalidade e que a qualquer momento o quadro dos principais “ganharões” podia ser baralhado. Quem assim pensou não se enganou. Em 1983 quando a prova foi sedeada pelo Egipto, Angola já apareceu com a pinta de campeão. Aliás, até ai a sua juventude que tinha sido campeã de juniores em (Luanda’80 e Maputo’82) estava crescida e com maturidade competitiva quanto bastava para também ela se expressar na mesma língua em relação aos outros senhores do basquetebol africano.

No campeonato de 1983 Angola fez o primeiro aviso a África basquetebolística. Na prova superou tudo e todos, fracassando apenas diante da selecção anfitriã na final. A nossa selecção começa a conquistar a atenção da família do basquetebol africano, embora para os mais atentos observadores as vitórias nos campeonatos de juniores já haviam deixado evidências do que seria o “dea after” do basquetebol angolano.

Em Luanda festejou-se à brava a conquista da medalha de prata, tendo os jornais da época JDM-Jornal Desportivo Militar e Jornal de Angola assim como a única agência noticiosa Angop se desdobrado em largas manchetes para destacar o feito. Sidrak da Conceição, Adriano Baião, Nijo Júnior e outros encantaram o continente numa prova em que José Carlos Guimarães foi a grande ausência do combinado angolano.

A epopeia do Cairo voltou a repetir-se em 1985 na Costa do Marfim. As selecções anfitriãs tornaram-se em verdadeiros algozes para os angolanos. Pois, a exemplo do que tinha acontecido dois anos antes, a selecção voltou a quedar-se em segundo lugar, mais uma vez perdendo o título a favor da selecção caseira. Mas, até ai estava dito e escrito que a África basquetebolística ganhava uma outra potência.

Dessa vez com Vitorino Cunha no comando técnico, Angola tinha feito um campeonato a todos os títulos brilhante, passando como uma motoniveladora em terreno ondulado por todas as outras selecções, incluindo pela República Centro Africana, que tendo ganho pela última vez em 1974 quando a prova se disputou em Bangui, andava inconformada com o jejum, e como se não bastasse com uma grande armada, em que se destacavam Frederic Goporo, Anicet Lavodrama e Mamadou Bat.

Quando em 1987 a prova foi para a Tunis, a meta para Angola não era outra, senão a de conquistar o troféu, não era sem razão depois de duas finais consecutivas perdidas. Novamente com o professor Vitorino Cunha, e com uma geração em franca ascensão como Paulo Macedo, Ângelo Vitoriano, David Dias e outros auxiliados pela experiência de Jean-Jacques da Conceição, José Carlos e Gustavo da Coinceição que fazia o seu último campeonato, começou bem a prova.

Entretanto, as coisas complicaram-se nas meias-finais onde não foi feliz diante do Egipto com quem perdeu surpreendentemente por 77-83. Nesse campeonato baixou um degrau, ficando em terceiro lugar. Vencedor foi a República Centro Africana que tudo fez para erguer o trofeu e presentear aquela sua geração dourada. As esperanças de subir ao pódio estavam adiadas para Luanda que receberia a edição seguinte.

Em 1989 Angola arrumou a casa para receber a nata do basquetebol africano, passavam oito anos que tinha organizado e com estrondoso êxito os II Jogos da África Central. E numa noite deslumbrante, a 27 de Dezembro, confirmava a sua hegemonia no basquetebol africano, vencendo na final a poderosa selecção do Egipto por 89-62. Diga-se de passagem, que Angola tinha feito até chegar à final uma trajetória de luxo.  

Começava a ser escrita a partir daí a rica história do basquetebol angolano. Pois, depois desta conquista, Angola não mais parou. Diferentes gerações de atletas se foram revezando na selecção, mas esta manteve sempre a sua aura ganhadora, a sua ambição competitiva. Tanto assim é que voltou a ganhar em 1991 no Egipto,  em 1993 no Quénia e em 1995 na Argélia.

O DESCALABRO
DE DAKAR

O percurso vitorioso das últimas quatro edições, levava a acreditar na conquista do quinto título consecutivo quando, em 1997, a prova se disputou em Dakar, no Senegal. Além de mais Angola via despontar várias preciosidades no seu basquetebol, sendo nessa edição que aparece no “cinco” nacional uma jovem promessa de seu nome Miguel Pontes Lutonda.

A safra no fim da prova acabou por não ser aquilo que muito boa gente esperava. A selecção soçobrou, deixando o título escapar a favor da congénere de casa, que voltava a alcandorar-se no lugar dourado do pódio, 21 anos depois, sendo que a última vez que o tinha feito era em 1978, igualmente em casa. Aliás, o Senegal soma cinco títulos no palmarés sendo apenas dois conquistados fora de portas, nomeadamente em 1968 e 1980 ambos no Marrocos.

O fracasso de Angola em Dakar representava para uns o fim de um ciclo e para outros apenas um “acidente de percurso”. Foi de facto apenas um tropeço, porque a recuperação viria a acontecer logo na edição a seguir. Em 1999, dez anos depois, a catedral da Cidadela voltou a receber a prova, e com fé na máxima de quem organiza ganha, Angola não teve dificuldade em chamar a sua quinta conquista, numa final dificílima com uma Nigéria cheia de estrelas.

A estrela do basquetebol angolano, com Mário Palma no comando, que já havia sido campeão na edição 1999, voltou a brilhar em 2001 no Marrocos, em que superou a Argélia na final(78-68), em 2003 a Nigéria(85-65), em 2005 o Senegal(70-61). Em resumo, a estrada estava pavimentada para um percurso glorioso sem igual.

Em 2007 a prova voltou a realizar-se no nosso país, naquilo que acabou por ser uma organização melhor conseguida, pois as autoridades angolanas, no quadro de uma política virada para a expensão de infra-estruturas desportivas, entendeu fugir ao padrão daquilo que tinham sido as edições anteriores, e levou o campeonato a disputar-se em quatro cidades, nomeadamente Luanda, Huambo, Benguela e Cabinda.

A retumbante vitória de Angola não se circunscreveu ao ganho dos pavilhões multi-uso que foram construídos em quatro províncias do país, mas também na conquista do seu nono título, superando a selecção camaronesa na final. A África estava rendida aos pés do basquetebol angolano, cuja sucessão de exímios executantes era um facto visto a olho nu. Entretanto, convém não perder de vista que no Afrobasket,2007 ficou claro o sinal de evolução do basquetebol noutros países africanos.

Se a presença em força de selecções como do Mali, Cabo Verde e até mesmo dos Camarões que disputava a sua primeira final foi apenas um sinal da mudança dos ventos, Líbia’2009, tratou de mostrar que o basquetebol africano estava à beira de conhecer novas feras. Na Líbia, Angola só muito dificilmente conseguiu passar pelos Camarões nas meias-finais, num jogo que conheceu vários prolongamentos. Mas ainda assim, Angola voltou a casa de ouro ao peito, no que fazia a sua décima conquista.

As incidências do Líbia’2009, impunham de facto muitas cautelas da parte angolana e mais do que isso a definição de estratégias eficazes que permitissem evitar o pior em 2011 em Antananarivo. Passasse que alguns erros de cálculo cometidos, acabariam por determinar o fracasso do combinado angolano, que, ainda assim, com chicotadas psicológicas de permeio, conseguiu jogar a final.

A contratação do francês Michel Gomez, quase já à beira da competição, dando-se este ao luxo de fazer as suas “engenharias”, deixando fora da lista aqueles que eram tidos como os expoentes máximos da modalidade, acabou por ser a gota que fez o copo transbordar. Hoje, começa outra edição, em que para Angola o objectivo é o resgate do título. Esperamos que tudo corra de feição e no final da prova a nação volte a sorrir…