Jornal dos Desportos

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Reportagens

A triste histria da despromoo

Morais Canmua, no Lubango - 10 de Novembro, 2010

Dificuldades financeiras ditaram descida do Clube Desportivo da Hula

Fotografia: Jornal dos Desportos

O cenário repetiu-se nas mesmas proporções, por incrível que pareça, e quase no mesmo género e grau. Durante toda a época, a direcção, técnicos e atletas estiveram de calculadora na mão a fazer as contas, face à instabilidade. Se na época transacta, a equipa militar da Região Sul queixou-se de fazer jogos fora do habitat, sem apoio dos adeptos, porque os estádios de apoio ao CAN Orange

Angola’2010 recebiam benfeitorias, na presente época desportiva, que hoje termina, com a final da Taça de Angola entre o Interclube e Atlético Sport Aviação, esses argumentos não se colocaram. Antes pelo contrário, a equipa desfrutou dos mais requintados tapetes verdes que encantaram selecções como Camarões, Gabão, Zâmbia, Nigéria e Tunísia durante a competição continental. Houve momentos que o grémio do Lubango recusou realizar os jogos no Estádio Nacional da Tundavala por, alegadamente, se situar distante dos adeptos e proporcionar receitas ínfimas.

Deu-se ao luxo de escolher o Estádio do Clube Ferroviário da Huíla, quando jogasse na condição de visitado. Entretanto, a equipa testemunhou a degradação da relva do Estádio de NªSª do Monte que utiliza para treinos. Embora a direcção do clube não tenha culpa, relativamente, à questão, o facto é que a relva deteriorou-se diante dos olhos de todos por falta de água e de fonte alternativa de energia eléctrica, conforme já foi divulgado.

A sina do grémio é “sobe e desce” e deixa milhares de aficionados amargurados. Por um milagre do futebol, no último jogo do campeonato passado, o primoroso golo de Orlando serviu para derrotar o Benfica de Luanda que já tinha a situação resolvida na tabela de classificação. A vitória provocou uma onda de suspiro e de alívio, na última ronda, no Namibe.

A direcção do grémio havia assumido publicamente que reorganizaria tudo para a época’2010 e procuraria dar maior consistência a todos os órgãos que actuam na “engenharia” do futebol. O que se viu foi vontade exacerbada em caminhar na direcção certa, mas começou a faltar o essencial à determinada altura: os recursos financeiros.

Sacrifício de António Barbosa

Embora o treinador António Sebastião Barbosa não tenha sido o único empecilho, houve falta de organização que terá pesado na balança. Assim se explica o imbróglio entre a direcção e o técnico que norteou a crise e o levou ao afastamento até hoje sem explicações plausíveis à saída da terceira jornada da competição. A situação fez gerar instabilidade no seio do conjunto e abanou o seu comportamento na competição, apesar de algum voluntarismo demonstrado pelos atletas.

Joaquim N’finda “Mozer”, discípulo de António Barbosa, assumiria, de forma tímida, o comando da equipa sem a confirmação oficial da direcção do clube. A supra-estrutura titubeava na nomeação definitiva de N’finda Mozer ao mesmo tempo que escamoteava as razões de fundo sobre o afastamento do técnico principal; fechou-se em copas, talvez, para evitar represálias. António Barbosa preferiu o silêncio e como um “boi de corte” foi o sacrificado sem justa causa (?). Até hoje, ninguém sabe dos motivos de fundo.

Numa determinada altura, o CDH pareceu virar as baterias contra todos, principalmente, contra a media desportiva, decretando um “black out” com a Rádio 5, quando deveria dar a cara e esclarecer à opinião pública. Em justificação do comportamento, alegando “razões óbvias”, a direcção havia sustentado que os correspondentes daquele órgão de informação desportiva haviam “ferido a honra do clube, daí deixarmos de lhes fornecer dados oficiais sobre o nosso clube”. Depois, tudo passou entre os homens. Prevaleceu o entendimento que se impunha, mas, ainda assim, terá provocado pequenos beliscos.

Empates fatais em casa

Os empates ensombraram um ambiente que se queria desanuviado e saudável perante uma campanha com altos e baixos. Nessa fase, vivendo um clima de tensão bastante alto, o grémio não resistiu e claudicou ao empatar, na segunda volta, dois “jogos-chave” na cidade do Lubango. O primeiro, na 23ª jornada, diante da Académica do Soyo e o segundo, frente ao Recreativo do Libolo, quatro jornadas mais tarde, na 27ª.

Se se atender o facto de que se perderam quatro pontos na cidade do Lubango, adicionados aos 32 que perfez no final das contas, pode assinalar-se que o grémio teria somado 36 pontos e, hoje, estaria a rir-se à grande e à francesa pelo festejo da permanência.
Os deslizes existem em qualquer parte e podem admitir-se que nesses confrontos o Clube Desportivo da Huíla não teve arte nem engenho para desfeitear os opositores mesmo na condição de visitado; vivia-se uma das fases cruciais da prova, no qual o amealhar de pontos era sagrado.

Dos 30 jogos, a equipa da Huíla somou apenas oito vitórias, empatou o mesmo número de vezes e perdeu em 14 ocasiões; marcou 34 golos e sofreu 42. A safra proporcionou colher 32 pontos na tabela classificativa, manifestamente, insuficientes para que o grémio se mantivesse no Girabola. A equipa afundou como o Titanic sem haver margens para salvação. Hoje, o cenário é sombrio nas hostes do Clube Desportivo da Huíla. A direcção vai reunir-se nos próximos dias para analisar, a fio, a campanha infrutífera no Girabola’2010.

Fontes próximas do CDH começam a cogitar razões infundadas, apontando o magro orçamento como a base da derrocada. Porém, alguns elementos da chamada “Linha Dura” preferem apontar o dedo a questões concretas de fundo e chamar as coisas pelo próprio nome. O Jornal dos Desportos apurou de uma fonte directiva que “será muito difícil mantermos o plantel na segunda divisão”. A mesma fonte adiantou que “na sua maioria, quase todos os atletas se valorizaram e têm recebido muitos convites para ingressar noutros emblemas”. A verdade é a questão do regime contratual de cada um, pois muitos têm ainda uma época por cumprir.

Presidente da APF Huíla quer ordem nos clubes

O presidente da Associação Provincial de Futebol da Huíla (APFH), Fernando Baptista Moutinho, apelou aos clubes melhor organização como forma de se evitar o constante “sobe e desce” das equipas locais no Girabola. O líder da APF da Huíla lançou esse apelo na sequência da sua reacção à despromoção do Benfica do Lubango e do Clube Desportivo da Huíla do recém-terminado Girabola’2010.

“O meu apelo vai aos clubes para que busquem bases sólidas nos aspectos materiais, financeiros, de competitividade desportiva e outras indispensáveis e capazes de sustentar e assegurar as participações no Girabola e, assim, evitarem as constantes subidas e descidas de divisão”, apelou Fernando Baptista Moutinho. O presidente reconheceu as dificuldades financeiras a que têm passado as embaixadoras locais, mas insistiu no aspecto organizativo como factor decisivo e obrigatório para que as equipas como o Desportivo e o
Benfica lutem por objectivos modestos que passam por assegurar a permanência no Girabola. Moutinho defendeu uma reestruturação e reflexão profunda das respectivas direcções quanto a um possível regresso imediato ao Girabola em 2012. No seu entender, as direcções em causa “devem parar, reflectir, identificar as causas, criar as bases de sustentação e só depois apostarem no regresso em grande ao Girabola”.

“No meu ponto de vista, as direcções dos clubes devem analisar e ponderar seriamente se quiserem regressar já em 2012 ao Girabola. Para tal, defendo que seja imperioso uma revisão profunda das questões de base, sobretudo no campo organizativo”, ponderou. Benigno Narciso no Lubango