Jornal dos Desportos

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Reportagens

Abandono de Manuel Jos divide populao

Jlio Gaiano, no Lobito - 17 de Fevereiro, 2010

Manuel Jos demitiu-se na ltima semana do cargo de seleccionador nacional

Fotografia: Jornal dos Desportos

A notícia tomou de surpresa grande parte dos aficionados da modalidade na cidade ferro-portuária do Lobito, que esperavam pela renovação do seu contrato dada a filosofia de trabalho e a estrutura comportamental que vinha impondo no seio do grupo, apesar de reconhecerem que o técnico português tenha fracassado no comando dos Palancas Negras, a julgar pelas expectativas criadas, já que a ele foi pedida a melhor classificação de sempre da nossa selecção na Taça de África das Nações Orange Angola-2010.

Apesar dos investimentos efectuados pelas autoridades angolanas, o máximo que o português pôde retribuir aos angolanos foi terminar a campanha nos quartos-de-final, um feito já alcançado na prova anterior (Ghana-2008) pelo professor Oliveira Gonçalves de nacionalidade angolana. Em função disso, as pessoas contactadas pelo JD são de opinião que a atitude do técnico, em abandonar o barco muito antes do termo do contrato (expira em Junho, próximo), deve ter sido motivada por uma eventual pressão exercida por certas pessoas ligadas à FAF, pois era ponto assente que uma boa parte deles digeriu mal o resultado dos Palancas Negras no CAN´2010.

Por isso, manifestavam-se desinteressados em mantê-lo no cargo que exerceu desde 1 de Junho de 2009, por mais tempo.
"Apesar de ter sido bem remunerado, não foi capaz de traduzir em campo aquilo que lhe foi recomendado. Antes pelo contrário, foi criando um mal-estar no seio do grupo, numa clara alusão de que era ele o dono absoluto de tudo quanto se tratava da selecção nacional", disse Amadeu Kulyatela.

E acrescentou: " Para o mal dos pecados, foi mau perdedor. Não soube respeitar o valor do adversário. Para não dizer que, em certa altura de embaraços, atirava-se contra tudo e todos, inclusive, contra os seus atletas. Por isso, saiu e fez bem ter-nos deixado à vontade".

O substituto provisório Zeca Amaral 

Na aludida conferência de imprensa, o Secretário-geral da FAF, Augusto Silva "Alvarito" revelou que, na ausência de um técnico principal para os Palancas Negras, o professor Zeca Amaral vai assumir o cargo a título provisório. Para os lobitangas, a decisão da FAF, apesar de aceitável, não deve ser tomada como definitiva, a julgar pelos resultados que se deram no passado com os que por aí passaram, sendo o exemplo mais recente o do professor Álvaro "Mabi" de Almeida, antigo seleccionador dos Sub-23, que não teve êxito à frente dos Palancas Negras.

"A direcção da FAF deve pensar bem naquilo que tem a fazer para com o futuro da Selecção AA. Escolher por escolher, pode ser mau, pois ninguém mais quer assistir a cenas como aquelas que se deram com a escolha de Mabi de Almeida, aquando da sua ascensão ao cargo, em substituição do professor Oliveira Gonçalves. Portanto, Zeca Amaral é bom e todos sabemos disso, mas ainda não é a pessoa mais indicada para se manter como técnico principal da Selecção de Honras", aconselhou Joaquim Kapingala, professor de Educação Física de um dos Institutos Médio Técnico do município do Lobito.

Técnico à altura precisa-se

Consumada que está a saída de Manuel José do cargo de seleccionador principal, os lobitangas ouvidos pela nossa reportagem são de opinião que a direcção da Federação Angolana de Futebol (FAF) deve ter em conta que em África trabalham muito bons técnicos europeus e latino-americanos, que já deram mostras de serem bons nas selecções que competiram no CAN´2010. Na óptica dos nossos interlocutores, muitos desses treinadores manifestaram interesse em trabalhar em Angola e, concretamente, com a selecção nacional.

Por isso, e por aquilo que sabem do futebol do continente, deviam merecer primazia na escolha, pois o contrário seria mais um desperdício de dinheiro. "Eles não são tão caros, como foi o caso de Manuel José, mas superaram-no na Taça de África Orange Agola´2010. Por isso, devíamos recorrer aos seus préstimos, a menos que existam outros interesses por detrás da situação agora criada com a saída do português que, além de acumular uma boa soma em dinheiro, teve a ousadia de espezinhar os nossos atletas, rotulando-os como produtos da Guerra Fria", explicou um interlocutor.

Sem evocar nomes, Amadeu Kulyatela lembrou aos responsáveis ligados ao Departamento das Selecções Nacionais da FAF, os exemplos do Ghana e da Zâmbia, duas selecções que, além de se apresentarem bem na competição que o nosso país organizou, mostraram um alto grau de responsabilidade e disciplina no seio dos seus respectivos conjuntos. "Esse tipo de comportamento é o reflexo de um trabalho que se desenvolveu no seio dos jogadores e direcção das suas respectivas federações, coisa que não foi possível observar na nossa selecção. Pelo contrário, verificou-se mais um técnico preocupado consigo mesmo, ou seja, um mau pastor dos Palancas Negras que, infelizmente, tivemos durante a campanha do CAN’2010", ajuntou.

Adepta considera precipitada
a rescisão contratual 

Nem todos são a favor da saída do técnico Manuel José, à frente da equipa técnica da Selecção Nacional de Futebol de Honras. Para Adalgisa Vatussole, a saída do técnico foi inoportuna e caberia à FAF impedir que tal sucedesse. "As alegações apresentadas, quer pelo técnico, quer pelos responsáveis da Federação Angolana de Futebol (FAF), levam-me a deduzir que algo de anormal, e que não tenha sido bem digerido pelo técnico Manuel José, terá acontecido.

Por isso, não me convenceram. Ainda que viessem mais uma vez com outros mil motivos, justificando este e aquele facto, não me convenceriam. Portanto, foi uma decisão mal acertada e quem sairá a perder com isso será a nossa selecção e o nosso futebol, que aos poucos estava a ganhar respeito no continente africano", comentou a enfermeira, Giza Vatussole, como é carinhosamente tratada pelos seus próximos.

FAF deve abrir-se na procura
do novo seleccionador

Os "lobitangas" defendem que a Federação Angolana de Futebol ausculte as distintas organizações desportivas, como a Associação dos Treinadores de Futebol de Angola (ATFA), a Associação dos Antigos Futebolista de Angola (AAFA), as Associações Provinciais de Futebol e outras instituições (não necessariamente desportivas, mas consideradas idóneas), no sentido de se informar a respeito dos projectos traçados para curto, médio e longo prazo em relação ao nosso futebol, tendo como atenção principal o futuro das selecções nacionais.

Assim sendo, são de opinião que se criem uma Comissão de Concertação que vele pela contratação de técnico à altura para liderar o programa da FAF, sem no entanto, descorar a vertente financeira, visto que todo o projecto tem o seu custo. "Desta vez, espero que sejam mais abertos e claros, no momento da contratação de um novo técnico para a Selecção de Honras. Não fazendo isso, estaremos sujeitos a passar por mesmíssima situação. Ou seja, contratar um técnico que destrata os nossos atletas como produtos da Guerra Civil e aos jornalistas angolanos como invejosos", completou o antigo futebolista do Futebol Clube do Lobito, o velho Alfredo Kamutali.