Jornal dos Desportos

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Reportagens

Afastamento das Welwitchias divide opiniões

Júlio Gaiano em Benguela - 25 de Março, 2010

Desempenho da Selecção Feminina de Angola diante da congénere da Namíbia foi desolador

Fotografia: Jornal dos Desportos

Foi um dia que mobilizou muita gente para o estádio, disposta a apoiar as comandadas de Augusto Manuel "Leão". Um leão que, diga-se de passagem, não rugiu e nem se quer teve coragem para se apresentar na sala de imprensa, para explicar as razões que estiveram na base do desaire diante da Namíbia. A decepção foi tanta, que governantes, dirigentes federativos e outros membros de destaque do desporto, que acorreram ao estádio, foram vistos a chorar.

"Nada tenho a dizer. O senhor viu e pode descrever o que se passou em campo. Estou aborrecido. Mais uma vez, estas meninas decepcionaram-me", comentou um dos adeptos, contactado momentos depois do soar do apito da árbitra zimbabweana, Palena Chimaya. Na verdade, as Welwitchias não foram suficientemente fortes para derrotar as namibianas, que entraram algo receosas, pelo facto de actuarem num ambiente adverso.

Diante de muita gente a puxar para a equipa da casa, às namibianas restava conter a avalanche ofensiva da formação contrária. A Selecção Nacional teve no seu banco o elo mais fraco. Augusto Manuel não soube fazer a leitura do jogo, sobretudo quando a equipa contrária entrou em desequilíbrio emocional. Caiu na grassa das ovações do público, que delirava com as fintas das suas pupilas, sonretudo Irene Gonçalves, Yolanda e Patrícia.

De tanta alegria e beleza como eram construídos os lances, o professor Leão afundou-se na "festança" e desaprendeu por completo o seu papel de técnico. Assim se pode explicar o facto de só depois do golo do empate, isso é, já no declinar do jogo (89’), o técnico se lembrou de Fofa, que se preparava para entrar havia 15 minutos, para o lugar da Nady, cuja saída se impunha, considerada por muitos a pior em campo.

Alargar o leque de opções
pode ser uma alternativa

O empate consentido pela Selecção Nacional de Futebol sénior feminina, que resultou na sua eliminação precoce, continua a polarizar os debates dos aficionados do desporto em Benguela. É o que dá quando os resultados custam a chegar, pois todos querem aparecer para opinar, ainda que desconheçam o cerne do problema. Algumas pessoas contactadas pela nossa reportagem defenderam que os seleccionadores deviam deslocar-se, com alguma regularidade, ao interior do país, para se inteirarem da realidade das províncias, sobretudo onde a sua prática é conhecida.

Num passado recente, ou seja, até finais da década de 80, Benguela, Huambo, Huíla, Namibe, Malange, Uíje, Zaire e Moxico movimentaram o futebol feminino, apesar da prática ter sido ofuscada pela guerra. Actualmente, as coisas mudaram e a prática desportiva voltou à primeira forma. O futebol feminino voltou a ser realidade na maior parte das províncias, embora precise de maior divulgação da parte dos meios de comunicação social locais. Por isso, cabe aos seleccionadores do futebol feminino realizar um trabalho de prospecção onde existirem senhoras a praticar a modalidade.

"A prática provou que contentar-se apenas com as atletas que militam em equipas de Luanda (e algumas pouquíssimas no estrangeiro), não resulta. Aliás, os constantes desastres que as nossas senhoras vêm sofrendo explicam tudo. Por isso, dou razão à treinadora da Namíbia, quando sugere a renovação do plantel das Welwitchias, que nas entrelinhas, considerou ‘velhas’ e que deviam ser substituídas por atletas mais jovens. É duro, mas temos de aceitar o reparo da ‘madam’ Jacquiline Shipanga", comentou Carlos Canjelito, agente desportivo, na cidade do Lobito.

Seleccionadora namibiana
sugere renovação do plantel

A treinadora da Selecção Nacional da Namíbia, Jacquiline Shipanga, defendeu na cidade de Benguela, a substituição de algumas jogadoras com idade avançada na selecção angolana, por outras mais novas, de forma a manter os níveis competitivos que já patenteou no passado. Para Jacquiline Shipanga, que falava em conferencia de imprensa, após o empate diante das Welwitchias, resultando na qualificação da sua selecção para a fase seguinte das eliminatórias, Angola é um país tradicionalmente forte em matéria futebolística em ambas as classes e precisa de fazer algumas mexidas de fundo, que passam pela renovação do seu plantel principal.

"Acredito que em Angola exista boa vontade de se elevar os níveis da competição no sector feminino. Mas o que me deixa preocupado é que há dois anos defrontei esta mesma selecção, com jogadoras, na altura, com idade avançada. Hoje, voltei a vê-las aqui a desfilar em campo", disse a treinadora. E acrescenta: "Para mim, e tendo em conta a sua frescura física em campo, dificilmente podem servir para acções que se lhes exige maior resistência física e psicomotora.

Foi nessa perspectiva que estudámos as angolanas e aqui viemos convictas de que obteríamos um resultado satisfatório. Apesar de Angola ter boas atletas, são fracas em matéria de resistência”, disse a treinadora namibiana. A selecção da Namíbia venceu a similar de Angola em casa por dois golos a um, resultado conseguido nos últimos 10 minutos da contenda. Já em Angola, a sorte voltou a sorrir para as namibianas, estragando a festa das angolanas, que se preparavam para comemorar a passagem à segunda e última fase das eliminatórias ao apuramento ao Campeonato Africano das Nações da África do Sul, em Outubro.

Em função disso e pelo que nos deu a observar ao longo do jogo, a equipa nacional quebrou fisicamente no fim. As jogadoras já não corria e das poucas vezes que tentavam, eram facilmente batidas pelas namibianas, mais frescas e possantes. Daí que o apelo feito por Jacquiline Shipanga deve ser encarado com naturalidade, se quisermos melhorar o nosso futebol feminino.

Selecção feminina
é "desdenhada
"

Caterça Mbambi (Caprego) afirmou que a Federação Angolana de Futebol (FAF) devia ser responsabilizada pelas derrotas constantes que a selecção feminina vem somando. Na sua opinião, a direcção de Justino Fernandes há muito vem demonstrando pouco interesse pelas senhoras. "Elas só são bem tratadas quando realizam os treinos fora de Luanda. Por aquilo que me chega da capital, as nossas senhoras passam por todas as vicissitudes. Inclusive a água para tomar banho, depois dos treinos, não lhes é proporcionada.

Muito mais há para apontar, como os campos, que muitas vezes lhes são negados. Ainda assim, quando se perde, o culpado é sempre o treinador, que não soube escalonar e orientar da melhor forma a equipa. Testemunhei isso mesmo no Estádio de O´mbaka. Depois do apito final, não vi um dirigente da FAF ir ao encontro do técnico e das atletas para os consolar. Aliás, esse comportamento faz parte de muitos responsáveis afectos à Federação. Só sabem exigir, mas esquecem-se do essencial. É feio. Infelizmente, é assim que a nossa selecção feminina é tratada. Ela é desdenhada pelos seus dirigentes", comentou Caprego, antigo futebolista do

 Melhores dias para as senhoras

O Jornal dos Desportos apurou, de fonte próxima da Associação Provincial de Futebol de Benguela, que a direcção da Federação Angolana de Futebol tem em carteira um projecto para o futebol feminino em todo o país. Desse projecto, consta a realização periódica de torneios inter-provinciais, que sirvam de tónico para se apurar as melhores atletas do momento, para posterior integração na pré-seleccão nacional sénior feminina.

Para o sucesso do referido projecto, aprovado recentemente, em assembleia de sócios, que contou com a maioria dos filiados, no caso as associações provinciais, a direcção da Federação Angolana de Futebol (FAF) pretende contar com a colaboração directa e efectiva dos Governos Provinciais e respectivas administrações municipais. As associações vão ser responsáveis pelo suporte técnico-desportivo.
"É uma acção que pode encher de orgulho todos amantes e praticantes da modalidade", comentou a fonte da Associação Provincial de Futebol de Benguela, que, por sua vez, reconheceu que a Selecção Nacional clama pela renovação do seu plantel em todos os sectores.

Sobre a continuidade ou não da actual equipa técnica, o responsável da Associação de Benguela é favorável à manutenção do técnico principal e dos seus colaboradores, desde que tenham ao lado uma senhora. "O professor Leão é um bom técnico, mas precisa de ter a seu lado alguém que consiga lidar melhor com as contrariedades das senhoras, sobretudo em momentos de aflição. Elas são mais vulneráveis do que os homens, quando submetidas a situações complicadas", afirmou.

Manutenção do técnico
em discussão

Na ausência de sucessos colectivos, há sempre que procurar o culpado. Assim acontece sempre com as campanhas das Welwitchias nas eliminatórias para as competições africanas, em que, por norma, são afastadas nas fases preliminares. O empate consentido, no passado domingo, diante da Namíbia, é sintomático disso mesmo. O inesperado resultado obtido pela selecção feminina e que impossibilitou a sua continuidade na prova continental, está a dar lugar a acesos debates entre os adeptos de futebol em Benguela, que se encontram cada vez mais divididos em relação à manutenção (ou não) da actual equipa técnica, liderada por Augusto Manuel.

Numa ronda efectuada pela reportagem do Jornal dos Desportos, pudemos constatar o despique entre os que estão contra e a favor da permanência da actual equipa técnica. Trinta e sete pessoas, entre funcionários públicos, vendedores de rua e responsáveis ligados a distintas áreas da sociedade benguelense, foram ouvida sobre essa questão. Os que defendem o afastamento do técnico principal e adjuntos estão em menor número (23 por cento).

Estes, apesar de serem pela imediata rescisão contratual com a actual equipa técnica, são de opinião que a direcção da FAF pesquise no mercado nacional um técnico com capacidade reconhecida nas lides do treinamento desportivo e que tenha um ou dois adjuntos do sexo feminino, de preferência antigas atletas, como acontece com a maioria das selecções africanas. "É desconfortante ver a nossa selecção orientada por um técnico, impotente para travar uma selecção treinada por uma senhora.

Aconteceu no torneio da COSAFA, que o país organizou recentemente, em que perdemos a final para a África do Sul, por 1-3. Diante das câmaras televisivas, o professor Leão chorou e anunciou a sua retirada do comando da selecção feminina", lembrou Alfredo Tchombossi, antigo técnico da equipa feminina do Atlético Sagrada Esperança da Zona Alta do Lobito. Ainda de acordo com o professor Tchombossi, que lecciona a disciplina de Educação Física numa das Escolas do I Ciclo do Ensino Secundário, no Lobito, o técnico Augusto Manuel pode ser bom e pode ter provado isso mesmo nas equipas em que trabalhou, mas na selecção feminina tem sido um desastre.
Por isso, devia sair e deixar o lugar a outra pessoa mais capaz. "Basta de improvisos, pois a selecção é de todos nós. Sofremos com as derrotas e rejubilamos com as vitórias. Logo, há que se ter coragem para decidir o futuro da nossa selecção feminina", comentou.

Voto de confiança para Leão

Nem todos são a favor da destituição da equipa técnica liderada por Augusto Manuel. Há quem acreditem que esta está à altura de levar a bom porto os intentos dos angolanos, que passam por colocar o futebol feminino na alta-roda continental. Para estes, os desaires que as senhoras somaram nos últimos anos são o reflexo da fraca aposta e pouca atenção que recebem das entidades competentes, classe empresarial e da própria Federação.

Joaquim Samundo e Vasco Kussetukula, ambos funcionários públicos e antigos praticantes do futebol, defendem que a Assembleia Nacional aprove, o mais depressa possível, a Lei de Mecenato no Desporto, pois acreditam que a revitalização do futebol feminino no país passaria por esse caminho. "Nos dias que correm, sabemos que o futebol feminino não rende tanto para a imagem empresarial, logo custa a um empresário tirar dos seus rendimentos algo que, à partida, pode não ter retorno.

São gastos que ninguém quer arriscar e, assim sendo, sejamos coerentes, para encarar e apurar o que está por detrás dos maus resultados que as nossas senhoras vêm consentindo em campo", comentou Joaquim Samundo, antigo futebolista da Sporting Clube de Benguela. O seu companheiro de profissão Vasco Kussetukula, que também defende a manutenção do professor Augusto Manuel, vai mais longe ao culpabilizar todos os elementos ligados ao desenvolvimento do futebol feminino. Para ele, arranjar um culpado para os insucessos da selecção feminina nas competições africanos é, no mínimo, uma incoerência.

"Isso é como tudo. Não há dinheiro, não há a atenção devida àquilo que pretendemos. Assim sendo, por mais que haja astúcia da nossa parte, estamos sujeitos a fracassos. Por isso, nada de se buscar culpados. Falhámos todos. Cabe-nos encontrar soluções para sanar esse mal que nos persegue",
afirmou.