Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

Albinos Entre a exclusão desportiva e o sedentarismo

Silva Cacuti - 09 de Maio, 2017

A nível do desporto adaptado os albinos apenas se enquadram no atletismo

Fotografia: Jornal dos Desportos

Algures, no bairro Kalawenda, sentado no canto oposto à entrada da sala de aulas, atento às explicações do professor, Tito, sete anos, é uma criança normal, com sonhos semelhantes aos de  milhares da sua idade. No horizonte do seu percurso de vida, este aluno da segunda classe, perspectiva ser médico, jornalista de sucesso ou um grande jogador, do nível de Messi, que conheceu na capa do seu caderno escolar e ouve falar por todo o lado.

Tito é albino e, na sua tenra idade, desconhece que tem pela frente um caminho repleto de preconceitos e limitações. Frequentemente as pessoas albinas sofrem com exclusão social e a falta de atenção na saúde pública. Estas são algumas peças dos obstáculos que Tito pode encontrar, mas queremos levantar outro assunto que tem a ver com a quase inexistência de pessoas albinas nas lides desportivas.

Provavelmente, de todos os possíveis sonhos de Tito, o de ser desportista é o mais difícil de materializar. Apesar de todas as dificuldades de afirmação que os albinos encontram, não são tão raros noutros sectores da vida social, em Angola, quanto o são no desporto. Seja como praticantes, dirigentes, juízes, agentes desportivos até mesmo nas claques. O que pode parecer apenas uma diferença na cor da pele e nos cabelos é, na verdade, uma doença que leva os afectados para o sedentarismo forçado.

Num contexto em que o ideal \"desporto para todos\" leva a abordagens, algumas científicas, do desporto para trabalhadores, para crianças, para militares, enfim, para todos; a ausência de uma abordagem à prática desportiva por parte dos indivíduos afectados pelo albinismo nos constrange.

Nem todos
são paralímpicos

O termo paralímpico ou adaptado se refere ao atleta com vários graus de deficiência. Em Angola existe desde 1994 instituições de coordenação do desporto paralímpico que, em 2000, evoluíram para a criação do Comité Paralímpico Angolano (CPA). Desde então quem queira analisar a participação desportiva de pessoas com albinismo supõe que ela é feita no âmbito do desporto paralímpico ou adaptado. Sim. E, não.

António da Luz, secretário-geral do CPA, desmistifica o assunto e explica que, para participar no âmbito do desporto adaptado os albinos precisam preencher certos parâmetros, por isso são submetidos a testes para avaliar a sua deficiência visual. \"Há entre eles aqueles que não têm dificuldades que justifiquem o enquadramento no desporto paralímpico\", realça.

Segundo o responsável em todo o país existem menos de 25 cidadãos albinos inscritos no comité. É a menor taxa de participação na região austral.
Aliás, Da Luz refere que o CPA começou a dar mais atenção aos albinos por influência da Namíbia e Zimbabwe cujas delegações desportivas incluíam que  são os países que mais albinos apresentam em competições.

\"Desde que o seu campo visual esteja dentro dos parâmetros do desporto paralímpico porque há alguns que apesar de serem albinos têm a visão mais clara e não se enquadram no nosso desporto, por isso são submetidos a exames médicos para avaliar o seu campo de visão\", explicou.

Em regra, aqueles que não são aprovados para o desporto paralímpico vêem o sonho de federar-se esfumado, porque não os vemos inseridos em qualquer outro tipo de especialidade desportiva.


ATLETISMO
Rodé Fernandes é a jóia da classe


A nível do desporto adaptado os albinos apenas se enquadram no atletismo já que é a modalidade que congrega especialidades para pessoas com deficiência visual, dentre as modalidades praticadas no país. Rodé Fernandes é jovem, de grande potencial e descrita como futura estrela angolana. A jovem já tem conquistado medalhas pelo país em vários torneios.

Antes de Rodé,  encontramos, nos registos a figura de Candeias, albino que desafiou a sua condição e jogou futebol, quase que sem limitações. Depois da carreira, como atleta, Candeias exerceu funções noutros sectores do futebol em que hoje parece existir ainda um tabu para as pessoas que sofrem de albinismo.

Candeias foi roupeiro da Selecção Nacional de futebol, no tempo em que Carlos Queirós foi o seleccionador nacional. Obteve formação e era árbitro de segunda categoria, ajuizou jogos da segunda divisão, até que integrado na comitiva que levava a equipa da Maboque, conheceu a morte de forma trágica num acidente aéreo.

O CPA tem registado o jovem Dinis Salussinga, do Huambo, como sendo o primeiro atleta albino a participar de competições. Salussinga, pelo seu desempenho integrou várias selecções nacionais, até que a doença com a qual se debate obrigou-o a terminar a carreira prematuramente.

Outro atleta albino que já veste as cores da bandeira nacional é Afonso Kamuko, também ele do Huambo. Luanda, Uíge, Bengo, Malange e Huambo são as províncias que têm atletas com albinismo inscritos.


ESCLARECIMENTO
O que é o albinismo


O albinismo é um problema genético, hereditário, que causa uma deficiência na produção de melanina  (proteína que dá cor à pele e ao cabelo, também protege da radiação ultravioleta solar). Este facto coloca  as pessoas albinas \"kilombos\" com maior risco de envelhecimento precoce e de câncer de pele. Esta limitação física impede os portadores de albinismo de participarem de actividades ao ar livre. Também costumam a ter baixa visão.

As cores da pele, dos olhos e dos cabelos são determinadas pela quantidade de melanina produzida em nosso corpo. A melanina é um termo genérico usado para designar toda uma classe de compostos poliméricos que tem, como principais funções, garantir a pigmentação e a protecção da pele contra a radiação solar. Quanto mais melanina uma pessoa tiver, mais escura será a sua pele e vice-e-versa.

Segundo dados disponíveis, esta doença é muito mais frequente na população negra e, em algumas regiões de África, 1 em cada 2000 pessoas é albina. Em regra o albinismo é raro, no mundo afecta uma em cada 17 mil pessoas aproximadamente. Em Angola não existem números exactos. A associação tem catalogados cerca de 500 membros.


INCENTIVO
Associação
encoraja
desportistas


Em Angola existe há alguns anos a Associação de Apoio Albinos de Angola (4As), dirigida por Manuel Vapor, com representações nas províncias da Huíla, Huambo, Uíge, Moxico e Luanda, onde está a sede.

Tem como objectivos advogar a causa dos albinos como a elevação do seu nível escolar, acesso à assistência médica e medicamentosa com realce aos cosméticos por causa dos cuidados com a pele que se impõem.

Vapor revela que é ambição da 4As criar uma estrutura que venha velar pela prática do desporto entre os seus membros, cerca de 500, catalogados.
Depois disto partir para parcerias com as associações desportivas, mas a associação está numa fase embrionária e tem outras prioridades.

\"Ainda não avançamos com esta parte porque estamos na procura de forma de assentar a 4As pelas províncias e atacar as situações que mais nos afligem. depois deste passo, vamos inserindo os projectos desportivos, culturais e outros\", disse.

Embora tenha parcos conhecimentos sobre a participação de albinos no desporto adaptado, Manuel Vapor deixa uma mensagem de encorajamento para que eles não poupem esforços no sentido da sua dignidade.

\"Tanto para a Rodé e para outros que já participam em actividades desportivas ou que assim pretendam, é louvável, encorajo e não devem recuar, porque também demonstra à sociedade que nós temos qualidades para esta actividade, porque as pessoas não devem julgar-nos pela nossa condição natural, mas pelos nossos defeitos na consciência, na forma de manusear os trabalhos, desportos ou qualquer outra responsabilidade posta nas mãos da pessoa albina\", rematou.

Para lá das limitações impostas pela sua condição, os albinos precisam do desporto e da actividade física para combaterem o sedentarismo.


RECADO
Auto-inibição


Diferente do que se passa na África Oriental, onde pessoas com albinismo sofrem permanente risco de vida, Angola é um dos poucos países onde os preconceitos contra os albinos não são fortes. Há albinos ocupando cargos de responsabilidade dentro da sociedade. Alguns são mediáticos. Não se pode dizer que o nosso país seja um paraíso para os \"kilombos\".

Há trabalho em demasia pela frente. O desporto, enquanto factor de integração social, tem que assumir o défice em relação a esta franja. É preciso também que se trabalhe na educação e sensibilização, porque os dados disponíveis apontam para a auto-inibição dos pais de filhos albinos, que não os levam para esta via de socialização que é o desporto.


NÚMEROS
Agulha no palheiro


Encontrar um albino a participar de actividade desportiva nos nossos bairros é obra! A inexplicável paixão pelo futebol, modalidade rainha entre nós, vence os medos e leva algumas destas pessoas a arriscarem-se ao câncer, devido às agressões dos raios solares e participam de algumas \"peladinhas\", ainda que por pouco tempo.

Quem fizer o esforço de lembrar dos\"trumunos\" doutros tempos vai trazer à memória a imagem de Candeias, um albino que fez furor pelo Futebol Clube do Cazenga. É das poucas referências que há de um portador de albinismo que jogou a tal nível.

Uma sondagem feita pela reportagem do Jornal dos Desportos em alguns clubes de Luanda é demonstrativa da inexistência de albinos na prática desportiva. Desde os escalões de formação aos mais avançados. No Petro de Luanda, Carlos Queirós, responsável pela formação revela que em mais de 40 anos como técnico, apenas este ano lhe surgiu um pai a trazer um filho albino para ser inscrito. \"Recebemos o miúdo e tem algum jeito, mas quando está muito sol ele fica com dificuldades. Neste momento o escalão dele não está a trabalhar, mas retoma os trabalhos dentro de dias e espero que haja persistência do pai para que o filho tenha esta oportunidade\", disse.

Houve também, segundo informações colhidas, um atleta de xadrez inscrito na Escola Macovi. Em relação ao xadrez, há registos de dois irmãos gémeos que na década de 80 se notabilizaram no xadrez huilano.

Manuel Vapor, hoje presidente da  (4As), sem chegar a ser federado, praticou karaté-dó e boxe. Diz que teve convites para ser federado, mas devido à situações familiares e à formação académica, ficou-se pela prática para defesa pessoal. Destes tempos tem lembranças de alguns companheiros do boxe como Adão Gaspar, Coelho, Dupla, Hong Kong, entre outros.


Revela que viveu peripécias porque inicialmente as pessoas não o queriam na prática. Integrou a Academia de Artes Marciais que existia na Vila Alice, nas imediações da ex-Farmácia Direita de Luanda. \"Lembro num dos torneios que um dos treinadores lançou \"indirectas\", dizendo que quem sabia que era doente não devia estar no torneio, que o karate-dó não era para doentes. Marcou-me este torneio porque fiz quatro combates vitoriosos e depois convidaram-me a ser federado, mas não tive disponibilidade\", fala com nostalgia.