Jornal dos Desportos

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Reportagens

Apreensões e expectativas

26 de Novembro, 2010

Danny Jordaan foi a grande atracção na Soccerex Global Convention,

Fotografia: Reuters

O responsável pela organização do Campeonato do Mundo 2010, o sul-africano Danny Jordaan foi a grande atracção na Soccerex Global Convention, feira de negócios e futebol, realizada no Brasil na última quarta-feira. Na sua apresentação, Jordaan fez alertas e deixou claro que os atrasos em obras vão gerar custo elevado. “Uma aceleração às vezes custa 20 por cento a mais do que foi orçado. Seja claro no início e escreva tudo no papel. Assinem para se começar a pôr mãos à obra”, observou Danny.

Jordaan defendeu um plano de segurança uniforme para todas as sedes e comparou os questionamentos realizados ao Brasil com os que sempre teve de responder antes do Mundial da África do Sul. “Os estádios, estradas e os aeroportos não estarão prontos, a estrutura hoteleira não estará estabelecida, tem o crime... Tive de responder essas perguntas por 16 anos. Mas no final é trabalho duro e progresso”, receitou. Para o sul-africano, o Brasil deve adaptar o Mundial às suas peculiaridades, receita levada em conta em 2010.
“Há a ideia de que se fizer do modo brasileiro, não vai ser o melhor do mundo.

Entregámos um Campeonato do Mundo africano e foi o melhor da história. Não há um tamanho para cada evento. Os brasileiros vão ter de improvisar e adicionar os seus ingredientes, é isso que diferencia”, avaliou. “Não podem fracassar, nem decepcionar, mas serem decididos”, disse. A possibilidade de a selecção brasileira conquistar o Campeonato do Mundo de 2014, rendeu uma brincadeira do sul-africano. “Não vamos falar do que ocorreu no Catar (derrota para a Argentina). Têm uma equipa para trabalhar e os estádios para fazer. Não sei se vão dizer que a prioridade é ganhar o Mundial ou sedear um bom Mundial”, disse sorridente.

Danny Jordaan disse acreditar que a realização do Mundial pode acelerar as obras emperradas. O sul-africano afirmou que, às vezes, são tantas conversas que as coisas não saem do papel. “Discutimos um aeroporto em Durban por 15 anos, mas por causa do Mundial, fizemos em 15 meses”. Um dos avaliadores das candidaturas de 2018 e 2022 afirmou “nunca ter visto equilíbrio. Será acirrado e decidido após os 45 minutos do segundo tempo”. A decisão do Comité Executivo da FIFA a respeito dos dois próximos mundiais será anunciada na próxima quinta-feira, 2 de Dezembro.

Apoio do Rei Pelé

O Rei do futebol está disposto a usar a sua representatividade no mundo desportivo para auxiliar na organização do Campeonato do Mundo de 2014. As intenções de Pelé com vistas no futebol podem aproximá-lo de Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol e do Comité Organizador Local e possível candidato a suceder Joseph Blatter no comando da FIFA. “O comité brasileiro ainda está a ser organizado e o Ricardo disse-me que, assim que houvesse uma definição, conversaríamos. Falámos, mas não houve continuidade. Se precisar de ajudar, mesmo sem estar no comité, vou ajudar”, disse o ex-jogador, durante a apresentação de um evento educacional em Guarulhos.

“Muito se fala da candidatura do Ricardo (à presidência da FIFA), mas não há nada definido; não sei se é algo verdadeiro. O João Havelange foi uma grande referência do Brasil e apoiarei o Ricardo se for necessário”, completou. João Havelange, presidente da FIFA entre 1974 e 1998, continua influente na entidade e apoia a candidatura de Ricardo Teixeira. O possível apoio de Pelé a Teixeira demonstra que não há mais atritos entre os dois. Em 1993, o Rei denunciou irregularidades na Confederação Brasileira de Futebol e havia sido processado pelo mandatário. As arestas foram aparadas no início dos anos 2000.

“Não há nada atrasado”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assegurou que não há atrasos nas obras necessárias para o Campeonato do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, apesar das cidades como São Paulo ainda não terem iniciado as obras dos seus estádios. “Não vejo nada atrasado”, disse Lula durante uma entrevista em Brasília. “O problema é que não podemos fazer o campo quatro anos antes”, acrescentou. O presidente garantiu que as obras já começaram “em vários estádios” e avaliou que os membros do comité do São Paulo para o Mundial deveriam ter insistido para que o estádio no Mundial fosse o Morumbi.

A arena são-paulina foi descartada pela FIFA e pelo Comité Organizador Local, após não ter apresentado as garantias financeiras para as reformas necessárias. Um novo estádio a ser construído pelo Corinthians, equipa do coração de Lula, foi anunciado como o palco do Estado do São Paulo para os jogos do Mundial, mas as obras ainda não começaram. “Não sei porque o governo de São Paulo não batalhou para manter o Morumbi”, disse Lula. “O Morumbi está pronto... Desde pequeno, frequento o Morumbi. Já fui ao Morumbi com 100 mil pessoas, com 80 mil pessoas; já vi o Corinthians a ser campeão, a apanhar um monte do Santos e nunca tive problema de trânsito. Daqui a pouco vão querer que coloquemos um teleférico para deixar o espectador sentado”, ironizou.

Um dos pontos vistos como vulnerável pelos críticos do Morumbi é o problema de acesso ao estádio e as dificuldades de se construir um estacionamento próximo à arena. Nenhuma das 12 cidades que vão receber jogos do Mundial no Brasil tem estádios dentro dos padrões exigidos pela FIFA. Em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Natal as obras estão dentro do programado, mas locais como Recife e São Paulo preocupam. Além das arenas, também existem problemas nos aeroportos. O ministro brasileiro do Desporto, Orlando Silva, reconheceu que se as obras dos terminais não forem aceleradas, o país pode passar por um “constrangimento” na realização do Mundial. O Rio de Janeiro, que será o palco da final do Campeonato do Mundo, vai receber os primeiros Jogos Olímpicos da história na América do Sul em 2016.

Estados e municípios
buscam financiamentos

O Senado Federal Brasileiro aprovou, na última quarta-feira, a medida provisória que autoriza o aumento do limite de endividamento dos Estados e municípios para financiar as obras de infra-estruturas para a realização do Campeonato do Mundo de 2014 e para os Jogos Olímpicos e Jogos Paralímpicos de 2016. A medida provisória amplia a margem de endividamento dos entes federativos mesmo que a dívida seja maior que a sua Receita Líquida Real A matéria segue sanção do presidente Lula da Silva.

A medida provisória prevê, ainda, a renegociação das dívidas e da margem para endividamento dos Estados e dos municípios também para obras de saneamento e mobilidade urbana nas cidades que vão receber os jogos do Campeonato do Mundo e as competições dos Jogos Olímpicos. De acordo com o relatório aprovado, a medida não altera a Lei de Responsabilidade Fiscal nem interfere na transparência da gestão fiscal dos Estados e dos municípios. “A Lei de Responsabilidade Fiscal obriga todos os municípios a dar ampla publicidade aos dados contáveis e financeiros, o que, aliás, é feito electronicamente pela Secretaria do Tesouro Nacional”, segundo o deputado brasileiro.

Jogos olímpicos 
A medida provisória também regulariza e transfere o domínio das áreas e dos imóveis geridos pela União para a cidade do Rio de Janeiro - sede dos Jogos Olímpicos e dos Jogos Paralímpicos - para incentivar investimentos. No total, a União detém a posse de 25 mil imóveis que poderão abrigar obras das infra-estruturas para os jogos. Como a maioria dos imóveis detidos pela União é ocupada por famílias de baixa renda, a medida provisória propõe a extinção das dívidas das pessoas que moram nessas áreas. Outros terrenos chamados da marinha - no litoral - serão transferidos para a Companhia das Docas do Rio de Janeiro.

A medida provisória propõe ainda a amnistia dos débitos dessas áreas. O parecer da matéria argumenta que a medida permite a regularização de um conjunto “significativo” de imóveis, incentivando o recebimento de investimentos para os jogos do Campeonato do Mundo e dos Jogos Olímpicos.

Cidade do Rio de Janeiro
aprova pacote legislativo

O Presidente da Câmara do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, sancionou um pacote de leis a pensar no Campeonato do Mundo de 2014 e nos Jogos Olímpicos de 2016. O evento teve como palco o Palácio da Cidade e testemunhado pelo ministro do Turismo, Luiz Barreto, e os presidentes do Comité Rio’2016, Carlos Arthur Nuzman, e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira. Uma das medidas tem como foco estimular a rede hoteleira com mudanças de parâmetros urbanísticos e incentivos fiscais. O Rio de Janeiro precisa de 50 mil quartos de hotel e, actualmente, dispõe somente de 29 mil. Além disso, o pacote cria a Empresa Rio 2014/2016, para monitorar a aplicação dos recursos para os eventos.

Uma área que deve passar por mudanças é o Sambódromo, que será ampliado para receber as competições de tiro com arco e a maratona. A Companhia de Bebidas das Américas, Ambev, vai responsabilizar-se pela construção de um novo conjunto de bancadas e camarotes na Marquês de Sapucaí. Além de benefícios fiscais, o pacote libera áreas da cidade para a construção de empreendimentos hoteleiros, como as avenidas das Américas, Ayrton Senna e Salvador Allende, na Barra da Tijuca, e áreas dos bairros do Alto da Boa Vista, Guaratiba, Ilha do Governador e Flamengo.

Senado vota
isenção fiscal

O plenário do Senado Federal aprovou a medida provisória, que concede isenção de contribuições sociais e do Imposto sobre Produtos Industrializados na compra de bens e serviços usados na modernização, construção, reforma e ampliação dos estádios que receberão jogos da Taça das Confederações de 2013 e do Mundial de 2014. Os benefícios também vão ser destinados aos chamados estádios de apoio - para treino das selecções durante as competições. O texto segue para sanção presidencial.

A estimativa é que o governo renuncie a um total de 206 milhões de dólares em impostos com o incentivo fiscal - dinheiro que deixa de arrecadar com os incentivos fiscais e redução de impostos. Nessa conta não estão incluídas as desonerações dos estádios de apoio.
A renúncia fiscal será compensada pelo aumento da arrecadação decorrente da diminuição do redutor das alíquotas do Imposto de Importação para peças automotivas.

Na medida provisória aprovada, a alíquota redutora de 40 por cento foi válida até 31 de Agosto do corrente ano; o redutor de 30 por cento vai valer até 30 de Novembro; a redução de 20 por cento será válida até 31 de Maio de 2011. O relatório aprovado determina que o governo encaminhe ao Congresso e publique a prestação de contas do Mundial até 1 de Agosto de 2016. No documento, deverá ser especificado o valor total de recursos renunciados, o total de turistas estrangeiros que foram aos estádios assistir aos jogos, custo total das obras, empregos directos e indirectos, entre outros dados.

A medida provisória também prevê isenção de PIS-Cofins para a empresa concessionária do Comboio de Alta Velocidade, que vai ligar Campinas ao Rio de Janeiro, sobre a receita obtida com a venda de passagens. O texto aprovado também determina as regras mais claras para a aplicação de faixas de renda previstas na lei do programa “Minha Casa, Minha Vida”. Pelo relatório, além da comprovação da renda, a concessão do financiamento habitacional deverá levar em consideração as políticas estaduais e municipais do sector e tempo de residência ou trabalho do candidato.