Jornal dos Desportos

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Reportagens

As retumbantes conquistas desportivas

Matias Adriano - 25 de Março, 2015

Angola atingir a excelência desportiva a nível do continente

Fotografia: Jornal dos Desportos

Angola é, e  sempre foi,  um país com forte potencial desportivo.  Daí que, logo após a  ascensão à independência,  a 11 de Novembro de 1975, o desporto tivesse  procurado ganhar  espaço, numa altura em que a política de Unidade Nacional constituía  prioridade para as autoridades da época.

Os torneios de amizade Angola/Cuba  de futebol  (1977) a que se seguiu  o celebérrimo torneio “Ano da Agricultura” (1978), espelhavam a necessidade de Angola atingir a excelência desportiva a nível do continente . Convém recuar no tempo para lembrar que no que toca ao basquetebol,  organizou-se o campeonato nacional em 1978, cujo título foi meritoriamente conquistado pelo Clube Ferroviário de Angola. A partir desse evento,  o país  passou  a participar  em diferentes torneios internacionais como as Universíadas  e os jogos da SKDA. E a  primeira presença num campeonato africano foi como um estalar de dois dedos.

Em 1980, o  ano  que Angola organizou  e conquistou o primeiro campeonato africano de juniores, numa final escaldante na Cidadela Desportiva,  venceu a República Centro Africana no prolongamento, fazia então a sua  estreia em Afrobasket’s.  Aconteceu em 1980 em Marrocos. Nessa época, eram fortes e temidas as  selecções como as do Egipto, Senegal e Costa do Marfim, pelo que  pouco ou nada se podia esperar do “cinco” angolano que se quedou  na nona posição.

Em desfavor do combinado nacional, para lá da inexperiência própria de quem se inicia na alta roda do basquetebol continental, pesava  a condição morfológica, sendo que entre os seus jogadores contavam-se os que “vendiam altura e peso” recomendáveis,  para a alta competição a nível de uma modalidade super-exigente.
Um ano mais tarde, em 1981 quando a Somália chamou a si a organização do certame, os representantes de Angola voltaram a ombrear com os pares de outras geografias e foram a Mogadíscio. Dessa vez melhor preparada e com a ambição de superar a classificação da edição anterior, levados por Vitorino Cunha, os angolanos mostraram ao continente os índices de crescimento meteóricos. Os nossos atletas não  voltaram mais  a ser o “bombó” da festa de Rabat e evoluíram de nono para o  honroso quinto lugar.

Ficou no ar, por todo o continente, o alerta de que em Angola se estava a trabalhar fortemente  na modalidade,  e que a qualquer momento o quadro dos principais “garanhões” podia ser baralhado. Quem assim pensou não se enganou. Em 1983 quando a prova foi sedeada no Egipto,  Angola  apareceu  com  pinta de campeão. Aliás, até aí a sua juventude que tinha sido campeã de juniores em (Luanda’80 e Maputo’82) estava crescida e com maturidade competitiva quanto bastava, para também ela  expressar-se na mesma toada em relação aos outros senhores do basquetebol africano.

No campeonato de 1983, Angola fez o aviso à África basquetebolista. Na prova superou tudo e todos, fracassou  diante da selecção anfitriã na final. A nossa selecção começou então a conquistar a atenção da família do basquetebol africano, embora para os mais atentos observadores, as vitórias nos campeonatos de juniores já tinham deixado evidências do que pudesse vir a ser o “day after” do basquetebol angolano.

Em Luanda, festejou-se à brava a conquista da medalha de prata,  os jornais da época JDM-Jornal Desportivo Militar e Jornal de Angola, assim como a única agência noticiosa, a  Angop,  reportaram  em largas manchetes o destaque  do feito. Sidrak da Conceição, Adriano Baião, Nijó Júnior e outros encantaram o continente numa prova em que José Carlos Guimarães foi a grande ausência do combinado angolano.

A epopeia do Cairo voltou a repetir-se em 1985 desta feita na Costa do Marfim. As selecções anfitriãs tornaram-se  algozes para os angolanos. Pois, a exemplo do que tinha acontecido dois anos antes, a selecção voltou a quedar-se em segundo lugar e mais uma vez perdeu o título em favor da selecção caseira. Mas já estava  escrito que a África basquetebolista  ganhava uma outra potência.

Mais uma vez com Vitorino Cunha no comando técnico, Angola tinha feito um campeonato a todos os títulos brilhante, passava como uma moto niveladora em terreno ondulado por todas as outras selecções, incluindo a República Centro Africana, que tendo ganho pela última vez em 1974 quando a prova se disputou em Bangui, andava inconformada com o jejum,  como se não bastasse com uma grande armada, em que se destacavam Frederic Goporo, Anicet Lavodrama e Mamadou Bat.

É a reviver os momentos inolvidáveis do nosso desporto, em todas as suas modalidades,  que se propôs este espaço que hoje se estreia no nosso jornal, no quadro da retrospectiva que se impõe aos 40 anos de independência que o  país celebra este ano. Está assumido o compromisso.

FIGURA
Antiga estrela do futebol
Akwá


Fabrício Alcebiades Maieco "Akwá", a última estrela mais cintilante do nosso futebol, mereceu a nossa escolha como figura de estreia da coluna "Testemunha". Dono de uma visão periférica sobre o fenómeno desportivo, falou, em breves palavras , daquilo que foram os passos evolutivos do nosso desporto nestes 40 anos que estamos a assinalar. O Mundial de futebol da Alemanha, cujo golo que qualificou Angola foi de sua autoria, no dia 8 de Outubro de 2005, em Kigali, não faltou à conversa. Como era descabido perguntar onde se encontrava no dia 11 de Novembro de 1975, sendo que ele vem a nascer muito depois dessa data, começamos assim.

Que acontecimento desportivo mais lhe marcou nestes 40 anos de independência?

Sem margens para dúvidas a nossa qualificação para o Campeonato do Mundo Alemanha '2006, sem esquecer a forma eufórica como fomos recebidos aquando da nossa chegada de Kigali após a vitória de 0-1. Para mim foram três momentos único: a qualificação ao mundial, a recepção calorosa de todos angolanos e a participação de Angola no Mundial.

A par deste acontecimento haverá outro, no futebol, no basquetebol ou noutra modalidade qualquer, que lhe terá também marcado e que mereça registo nestes 40 anos?
Todos os Campeonatos Africanos que foram realizados cá, desde os Afrobasket, CAN de Andebol, CAN 2010 e o Mundial de hóquei em patins, também marcaram-me bastante.

O que esperava que tivesse acontecido no nosso desporto, mas que não aconteceu?

Um título de Campeão Africano de futebol sénior. O de 2010 seria perfeito porque tínhamos tudo para ganhar e deixamos escapar. Por outra, esperava ver Angola recheada de muitos talentos em todas as modalidades, em especial no futebol, porque é a modalidade mais cara, onde a maior fatia do bolo recai, mas que infelizmente a cada dia que passa mais enfraquece. Esperava ver várias academias de futebol espalhadas pelas 18 províncias de Angola e não só em Luanda, pois entendo que talentos não estão só em Luanda.

Futebolista de referência que foi, como avalia o seu contributo nesse processo evolutivo do nosso desporto?
É complicado falar de nós, há quem pode interpretar como se estivesse a puxar a brasa toda para minha sardinha, mas respondendo à pergunta que me coloca e tentando ser mais claro possível, considero que foi um contributo positivo, quer a nível colectivo quer a nível individual. Quando se atinge metas como foi qualificar a Selecção para um mundial, qualificar Angola para três CANs, fazer parte a lista dos jogadores que participaram pela primeira vez num Campeonato Africano das Nações, assim como no primeiro Mundial, devo admitir que é Obra. Ter jogado em todas as selecções e até hoje ser o melhor marcador de todos os tempos da nossa Selecção, ter sido capitão da Selecção no meio de jogadores mais velhos e mais experientes e conseguir segurar o balneário e consequentemente bons resultados, considero super positivo.

Na sua opinião em termos de balanço, o nível de evolução do nosso desporto nos 40 anos, pode ser considerado positivo? Ou nem por isso?

Falando no seu todo considero super positivo, se olharmos para a realidade do nosso País. Pois os 40 anos de independência não foram totais, em face do conflito vivido. Portanto, só há 13 anos é que vivemos em paz e numa verdadeira reconciliação nacional. Mas mesmo com todos os problemas vividos conseguimos ganhar vários títulos africanos no basquetebol, andebol, um título africano de Sub 20 de futebol, vários títulos africanos e mundiais no atletismo adaptado, várias participações nos Jogos Olímpicos, Mundiais, Panafricanos, Lusofonia, etc. Considero o balanço positivo.