Jornal dos Desportos

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Reportagens

Atletas custeiam viagem ao "Africano"

FRANCISCO CARVALHO - 07 de Abril, 2018

Yuri Paim orienta mais uma sessão de treinos

Fotografia: M. Machangngo | edições novembro

Sem olhar a dificuldades, os rostos suados espelham a dedicação e a entrega nos treinos. O grupo está apostado na dignidade de Angola. São homens e mulheres. Jovens de várias idades, mas com o mesmo propósito: conquistar medalhas. Os esforços no tapete terminam amanhã. Foram quatro meses de aprimoramento técnico sob o olhar atento de Yuri Paim e Hélder Camindo. O treinador principal e adjunto.
O ruído das buzinas e dos motores das viaturas e as fofocas da vizinhança não se intrometem no grupo. A concentração é total e completa. Os ouvidos estão lacrados pela esperança e desejos. A imagem da bandeira nacional a esvoaçar já faz morada na mente de cada judoca. São heróis anónimos. Tal como muitos que se sacrificaram pela independência nacional e pela Paz.
Os olhares de crianças, jovens e adultos curiosos são vencidos pelos bichos e poeira que "diambulam" em busca de abrigo nas chapas de vedação. Cansadas como o próprio bairro, as chapas de zinco estão cravadas de furos. É a Escola Comunitária de Judo do Rangel.
Divididos em dois grupos, pela exiguidade do espaço, a selecção nacional de judo apresenta um mar de problemas. Enquanto um está no tapete, outro busca repouso em escombro de uma residência em construção. Erguida na parte frontal do espaço, a obra inacabada não tem tecto. Também é labirinto de meliantes e delinquentes.
Na hora de desanuviar a água bebida, cada um procura ocupar um dos aposentos. Homens e mulheres. Os espaços estão transformados em "quartos de banho" improvisados. Tudo fica difícil na hora de fazer "as maiores". Qualquer indisposição é uma questão séria. Os sacos servem para conservar os dejectos. A única retrete é um atentado à saúde pública.
A selecção nacional encontrou naquele espaço como a última alternativa para preparar a participação no Africano da Tunísia. Todos os esforços feitos para encontrar um lugar condigno continuam a aguardar a actuação das instituições de direito.
O presidente de direcção da Federação Angolana de Judo, Paulo Nzinga "Mestre Apoló", assegurou que "a Escola de Judo de Rangel é um lugar propício para exercitar a força pela valência dos seus equipamentos improvisados". Para associar a força à técnica, a Fajudo colocou os tapetes.
Paulo Nzinga sustentou que a Selecção Nacional tem as péssimas condições de alojamento, porque um dos responsáveis da Academia Uragan e antigo judoca do Interclube, de nome Caetano Domingos, está na posse da autorização do ginásio número dois da Escola Nzinga Mbandi cedido pelo Ministério da Educação. O judoca recusa ceder o espaço à Federação Angolana de Judo e faz uso próprio.
"Caetano Domingos apropriou-se de uma autorização do Ministério da Educação, via Casa Civil do Presidente da República. Alega que não foi o Ministério da Juventude e Desportos que pediu a cedência, mas a Casa Civil do PR", disse Paulo Nzinga.
O ginásio do Nzinga Mbandi faz parte da história de judo nacional. Treinaram naquele espaço, enquanto atletas, o presidente da Fajudo, Paulo Nzinga, presidentes das Associações provinciais da Huíla, Benguela e Cunene, mormente, Carlos Pinto, Fidel da Silva e Catche Pedro. Outro nome sonante com impressão digital lá é Antónia de Fátima "Faia".
Perante o cenário da Escola de Rangel, Paulo Nzinga está apreensivo sobre a preparação das selecções nacionais para os Jogos da SADC e Africanos da Juventude, que se avizinham. Os treinos começam nos próximos dias. Sem espaço condigno como o da Escola Nzinga Mbandi, como era no passado, vai ser difícil para o país obter as medalhas. As duas selecções são formadas por adolescentes, que podem desistir face aos constrangimentos do local de treino actual.
"Apelo às instituições do Estado a rever a cedência do ginásio da Escola Nzinga Mbandi. Foi a Federação Angolana de Judo que procedeu à limpeza do espaço, quando estava sujo. O espaço era da Fajudo para dar cabimento aos interesses nacionais. Angola é mais importante que um clube que busca título provincial", clamou.

INTERFERÊNCIA
Clubes boicotam treinos do grupo


O presidente da Associação de Judo de Luanda, Edilson Júlio, manifestou-se constrangido pela interferência de alguns clubes de Luanda nos trabalhos da selecção nacional que se prepara para o Campeonato Africano. O dirigente revelou que as instituições desportivas privam os atletas seleccionados para o objectivo do país.
"Temos informações que os treinadores obrigam os atletas pré-seleccionados a treinar nos clubes de origem, mesmo com as cargas que recebem da selecção. Isso é inadmissível. O número de atletas presentes é inferior ao dos que estão a treinar. Isso prejudica o judo e o futuro dos atletas", comentou.
Mestre Cheno, como também é conhecido nas lides desportivas, disse que as dificuldades no trabalho da selecção nacional juntam-se à falta de material desportivo, de sítio de treinamento apropriado, de tapete adequado, assistência médica e trabalho psicológico
Edilson Júlio queixou-se da falta de acompanhamento de um médico e de um psicólogo. Para o Mestre Cheno, "o judo é desporto de luta e as lesões podem surgir a qualquer momento". Por outro lado, "a motivação psicológica é imprescindível nessa fase final de treinos". A gestão da ansiedade dos atletas só é feita pelos profissionais. Na ausência de um, "o presidente da Federação deve dialogar com os atletas".
O presidente da Associação de Judo de Luanda reiterou que "os treinadores são heróis por trabalharem sem remuneração desde Dezembro último". As deslocações para treinos e vice-versa são custeadas por eles mesmos. Estende o reconhecimento aos atletas. A dedicação e a entrega nos treinos evidenciam a "sede pela vitória".
"Estou feliz pela qualidade e desempenho dos atletas. A escolha foi bem feita e difícil para os treinadores. Estou com esperança de melhorarmos a última participação", disse.
As esperanças de Cheno estão na Janeth Alberto, Neide Diassonema, Priscila Marta, Emma Inácio, Juliana NKutxi, Casimiro Bento, Nayr Garcia, Edmilson Pedro, Acácio Cassule e Jorge Miguel.
"Nesse grupo há campeões dos Jogos da SADC, Lusofonia e com participações em campeonatos mundiais e africanos", sustentou
             
DESIDRATAÇÃO
Atletas treinam sem água todos os dias

A Selecção Nacional está a treinar sem apoio das instituições afins. O que deixa intrigado a equipa técnica é a falta de água para os atletas. O judo é um desporto que exige consumo de água constantemente para evitar a desidratação. Os treinos são duros e os atletas despendem muita energia através do calor.
O seleccionador nacional Yuri Paim afirmou que "os amigos do judo oferecem a água para os atletas por falta de apoio da Federação Angolana de Judo". O gesto cinge-se "no pensamento na selecção nacional".
A falta de água também é corroborada por Hélder Camindo, adjunto de Yuri Paim. O também treinador da Escola de Judo de Ndalatando, província do Cuanza Norte, fundamenta que "fica difícil aplicar outras cargas, porque se teme no estado físico do atleta".
Os treinadores sustentam que o lote de males estende-se à falta de fisioterapeuta, controlo alimentar e transporte dos atletas. Yuri Paim fundamenta que Isabel Lopes, da categoria -57kg, teve problema de saúde. Uma dor no peito deixou-a desconfortada. O capitão da selecção nacional, Casimiro Bento, da categoria de -100kg, apresentou problema na virilha.
"Não temos um fisioterapeuta para acompanhar e orientar o grupo. O serviço alternativo é feito pelo treinador. Não temos conhecimento sobre a matéria e tememos que estejamos a fazer mal o exercício de recuperação", esclareceu.
Yuri Simão esclareceu que "tudo isso acontece por não haver comunicação com a Fajudo".
Em resposta às questões, Paulo Nzinga esclareceu que é um "presidente de campo" e o seu trabalho assenta "na confiança depositada nos treinadores e nos atletas escolhidos".
"Todos os dias, reunimos com a equipa técnica", disse.
Sobre os apoios, Paulo Nzinga justificou que a Fajudo "depende das verbas do Orçamento Geral do Estado por via do Ministério da Juventude e Desportos".
"Sem dinheiro não é possível contratar um fisioterapeuta. Cada atleta custeia as suas deslocações de casa para treino e vice-versa. Tão logo seja desbloqueada a verba, vão ser ressarcidos", prometeu.
A concentração do grupo é "impensável" nesse momento. A Federação não tem patrocinadores. As conversações com a Refriango vão retomar para que volte a apoiar as selecções nacionais com água.
Paulo Nzinga disse que a empresa Ákwa está a patrocinar nesse momento a selecção com água. Nos próximos dias, pode haver um acordo entre as duas instituições.
 
  EQUIPAMENTO
Selecção Nacional viaja sem quimones


Um dos maiores constrangimentos da delegação angolana é a falta de equipamentos para o Campeonato Africano. O seleccionador nacional Yuri Paim teme pela imagem do país na Tunísia. Anualmente, a Federação Internacional estabelece selos nos quimones para as competições oficiais das Confederações continentais e provas mundiais. A falta de quimones pode dificultar a exibição dos atletas.
Em declarações ao Jornal dos Desportos, Yuri Paim apelou à direcção de Paulo Nzinga a proceder com urgência à aquisição dos quimones para evitar a desqualificação do treinador.
"Se vestirmos os quimones atribuídos aos atletas participantes na competição, ficamos privados da presença do treinador no banco para orientar os atletas", justificou.
Outro elemento que muito se debate na preparação da selecção nacional é a falta de uma balança para monitorar o peso dos atletas. A direcção técnica da Fajudo não tem verbas para comprar o equipamento avaliado em 20 mil kwanzas.
"Fica-me difícil saber qual é o peso real de um atleta antes e depois dos treinos. Temo que tenhamos de sofrer desqualificação do atleta por causa de peso", disse.
O treinador adjunto Hélder Camindo sustentou que "o controlo alimentar do atleta é fundamental na gestão de peso". Os treinadores desconhecem "o alimento gerido pelos atletas e o que fazem, quando saem dos treinos". A concentração dos atletas permite o controlo de peso.
O presidente da Fajudo, Paulo Nzinga, esclareceu que a sua direcção está a rogar ao Ministério da Juventude e Desportos para liquidar a dívida contraída na edição anterior do Campeonato Africano. Caso o país não pague a cota de participação avaliada em 2,4 mil dólares, pode ser impedida de jogar. O email enviado pela União Africana de Judo confirma a cobrança. Assim, o valor total ascende a 4,8 mil dólares norte-americanos.
"Fomos autorizados na edição anterior com a promessa de liquidarmos a dívida. Infelizmente, ainda não conseguimos fazê-lo", disse.

VIAGEM
Atletas custeiam deslocação


A Selecção Nacional de Judo viaja na próxima segunda-feira para o palco da competição. Os custos de deslocação são suportados individualmente pela maioria do grupo. O presidente da Federação Angolana de Judo, Paulo Nzinga, confirmou a garantia de três homens, dos quais um árbitro, e duas mulheres.
"Há um grupo de atletas com bilhetes garantidos, mas outros não. Os dois treinadores, director técnico, estatístico e 11 atletas estão sem bilhetes. A Fajudo está a envidar esforços para a aquisição de verbas para que todos possam representar o país", disse.
Sobre a ausência do presidente nas sessões de treinamento, uma constatação manifestada pelos atletas, o Mestre Apoló sustentou que dedicou o tempo à questão administrativa para evitar as "incompreensões" publicadas nas redes sociais. Os ataques dirigidos à sua direcção levou-o a evitar as pessoas que "procuram desgastar a imagem de judo nacional".
"Houve um clima de agitação na selecção nacional e achamos que o melhor é evitar contacto pessoal. Gosto de lutar e não é salutar. O código moral é importante nas relações pessoais", justificou.
Paulo Nzinga esclareceu também que a nova estratégia da selecção nacional é levar o maior número de atletas jovens para que ganhem experiência nas competições internacionais.
"Angola é respeitada em África pelas conquistas de medalhas. O nosso foco é os Jogos Olímpicos. No passado, não havia isso. Hoje, o nosso resultado é Made in Angola, mesmo com as condições precárias de preparação", disse.
            

OBJECTIVO
Casimiro Bento espreita pódio

O capitão da selecção nacional, Casimiro Bento, é o mais experiente do grupo e com maior desejo de chegar a Tóquio'2020. Empenhado na campanha para chegar às terras de Sol Nascente, o angolano vai a Tunísia para obter pontos para o ranking mundial.
A certeza de pontuação é sustentada pela boa participação recentemente no Open da América do Sul, que decorreu na Argentina. Casimiro Bento foi "atropelado" nas meias-finais por um norte-americano, que "não treina em escombro de uma residência".
O capitão está motivado que vai fazer "boa figura" no Campeonato Africano, depois dos sucessos nas diferentes provas africanas.
"O meu objectivo é atingir o pódio e tenho tudo a meu favor", disse.
Casimiro Bento vai participar de dois eventos nas terras do Mediterrâneo. No primeiro, vai combater na prova de pesados na categoria de -100kg e no segundo, na de +100kg.
"A possibilidade de alcançar pontos para o ranking mundial é muita alta", disse com alegria.   
                                                       
ELIMINATÓRIA
Neide teme  costa-marfinense

A medalha de bronze e a esperança do país na classe feminina, Neide Diassonema, revelou que teme pela presença de uma atleta da Costa de Marfim pela valência competitiva que apresenta nas competições internacionais.
"É uma adversária difícil de vencer; tem muita experiência por participar de muitos campeonatos internacionais como Mundiais e tem apoios do seu país. É medalha de bronze do Mundial do Brasil", disse.
Apesar de manifestar temor à atleta consta-marfinense, Neide Diassonema estabeleceu como meta chegar ao pódio à semelhança da edição anterior.
"O meu objectivo é conquistar pontos para o ranking mundial. Estou focada para os Jogos Olímpicos de Tóquio'2020 e vou dar o meu melhor no campeonato africano. Estou determinada que tudo é possível", disse animada.