Jornal dos Desportos

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Reportagens

Augusto Silva defende seleccionador para longo prazo

Leonel Libório - 02 de Março, 2010

Secretário-geral da FAF Augusto Silva (Alvarito)

Fotografia: Jornal dos Desportos

O Girabola vai entrar na 3ª jornada, numa prova com 16 equipas. Como é que a Federação Angolana de Futebol o preparou?
Pela experiência que a federação possui em termos de organização, que já vem de há muitos anos, criou rotinas próprias que já não criam dificuldades para se efectuar um sorteio para 16, 18 ou 20 equipas, desde que assim seja aprovado. O Girabola é uma organização que já está delineada há muitos anos. É só fazer o enquadramento que tudo corre sob feição.

O facto de algumas sensibilidades, independentemente da prova estar já a decorrer, se mostrarem contra o aumento para 16, número de equipas que,como se sabe, foi aprovado em Assembleia Geral em que estiveram presentes as Associações Provinciais querepresentam os clubes, não preocupa a federação?
De forma alguma. Somos uma instituição de direito privado que tem os seus associados que definem as regras do jogo que à federação compete executar. Foi decidido que o campeonato seja realizado por 16 equipas e é o que está a acontecer. Há quem seja de opinião que se deve organizar um campeonato com 12 equipas. Há os que pensam que 12 seria o número ideal, e existem ainda os que pensam que é o 16. Fala-se muito da falta de jogos das nossas equipas. As pessoas que advogam a falta de jogos são por vezes as que estão contra o aumento de número de equipas no Girabola. Respeitamos todas as opiniões, mas a que prevalece é a dos associados.

A FAF tem garantias de que todas as equipas vão chegar até ao fim do campeonato, uma vez que, antes da prova começar,
surgiram algumas a evidenciarem indícios de não possuírem condições financeiras para tal?
Isso preocupa-nos. Estamos em crer que todas as equipas hão-de chegar até ao fim. Não quero acreditar que algumas desistam a meio da prova. Com maior ou menor dificuldade, todas vão chegar até ao fim.

Para quando a institucionalização de outros campeonatos de que muito se fala, como o de reservas, para conferir maior índice de competitividade aos jogadores que nem sempre são utilizadospelas equipas principais, não só do Girabola como em escalões inferiores?
Se há equipas que apresentam dificuldades financeiras para cumprirem no Girabola, o que seria se tivessem de alocar verbas para uma segunda equipa. Aí seria o descalabro. Em minha opinião, o campeonato de reservas deveria passar primeiro por uma organização provincial. As associações provinciais, onde estão filiados os clubes da 1ª divisão, podem e devem criar campeonatos locais de seniores de reservas em que possam evoluir outras equipas que não sejam as que estão no Girabola. Isto é uma questão de organização a nível das associações provinciais em colaboração com os clubes. Tem de se saber se as equipas possuem o número suficiente de jogadores que as permita fazer uma equipa de reservas. É necessário saber-se igualmente se os orçamentos, que já são exíguos na maioria dos casos para manter um plantel com 22, 23 ou 24 jogadores, são suficientes para se ter uma segunda equipa.Já se imaginou que depois de se tirar os 18 atletas do jogo do fim-de-semana, com quantos fica para construir a equipa de reservas?
É utópico pensar-se na realização, a curto prazo, de campeonatos de reservas, devido as condições financeiras, pois não tenho conhecimento de equipas que possuam planteis com mais de 32 jogadores.

Assimetrias desportivas dificultam
o desenvolvimento do futebol jovem


Como está o sector da federação que se ocupa do futebol jovem, uma área que tem sido alvo de algumas criticas por parte de especialistas que dizem que não funciona?
O futebol jovem tem sido motivo de uma atenção muito especial. Vamos fazer um trabalho de antecipação ao que deve ser feito pelas células de base do futebol que são os clubes. O desenvolvimento do futebol dos escalões de formação deve constituir, em primeira instância, preocupação dos clubes que com as associações provinciais devem criar outros programas para depois a federação organizar os campeonatos nacionais. A nível do país,não temos ainda um nível de desenvolvimento desportivo equilibrado. Temos algumas assimetrias. O desenvolvimento que o Moxico tem não é o mesmo que o de Luanda. O desenvolvimento desportivo da Huíla não possui as mesmas proporções que o do Kuando-Kubango. Isto implica que a federação, ao analisar este factor, tem em conta o salto qualitativo e quantitativo que o futebol jovem necessita para não se correr o risco de, num ciclo de quatro a oito anos, se baixar o nível de qualidade que os seniores já atingiram. O propósito da federação é o de materializar, no menor espaço de tempo possível, um programa que vai enquadrar cerca de 2000 (duas mil) crianças a nível de todo o país.

Está legislado a obrigatoriedade de todas as equipas do Girabola possuírem no activo escalões de formação que devem participar em campeonatos nacionais, cabendo às Associações Provinciais a organização dos respectivos campeonatos.Até que ponto esta medida está a ser cumprida?
Ao fazermos uma análise verdadeira da situação, temos de dizer que há muita inverdade neste processo. Há a obrigatoriedade dos clubes que militam na 1ª Divisão contarem no activo com os escalões de formação. Isso é fácil. Entre o inscrever e ter uma participação efectiva em campeonatos provinciais a distância é muito grande, além do facto de na maior parte das províncias não ser possível organizar um campeonato local.

Porquê?
Temos como exemplo a província do Moxico que tem na 1ª Divisão o FC Bravos do Maquis.
Que outras equipas possui o Moxico? Aqui reside o grande problema.Com quem vão disputar os campeonatos provinciais, as equipas de juniores e juvenil do FC Bravos do Maquis?Quais são as equipas que possuem juniores e juvenis e mesmo de seniores no Kuando-Kubango, que não possui nenhuma equipa noGirabola, assim como nas províncias do Uíje, Malanje, Kwanza-Norte, Lunda-Sul, Bié e outras?As províncias do Kwanza-Norte, Zaire, Lunda-Sul, Uíje, Malanje e outras, não possuem equipas estruturadas por questões financeiras e organizativas em alguns casos. Os Pólos de Desenvolvimento Desportivo, na área do futebol, onde se podem encontrar equipas com algum nível de organização e capacidade financeira, são os de Luanda, Cabinda, Benguela e Huíla. No Huambo, onde o Petro local, que durante muito tempo nos habituou com uma equipa de alta-roda no futebol nacional, foi forçada a encerrar os escalão seniores, optando por trabalhar apenas com os de formação. A maioria das associações provinciais necessita de melhor organização, pois são poucas as que desenvolvem um trabalho desportivo sério, com um nível de qualidade aceitável, porque a maior parte também vive o espectro das diiculdades financeiras.

"É preciso melhor planificação
dos clubes para as Afrotaças "


Qual é o seu vaticínio para a participação das equipas angolanas nas Afrotaças?
Nos últimos anos, as nossas equipas têm sido eliminadas no princípio da competição por outras com rankings inferiores. As equipas que eliminaram o 1º de Agosto e o Petro de Luanda, na época passada, a nível do continente africano não possuem a mesma prestação que as angolanas. É necessário que os nossos clubes façam uma planificação cuidada e tenham uma preparação desportiva que permita subir mais do que tem acontecido para continuarmos a manter as quatro equipas nos campeonatos africanos. O 1º de Agosto, o Petro de Luanda e o Recreativo do Libolo reforçaram-se bem. Os erros do passado serviram para tirar as ilações necessárias e corrigir o que esteve mal. O Libolo ficou pelo caminho, com azar. O futebol é assim. Vamos esperar que as outras equipas cheguem o mais longe possível.

Continuam as opiniões segundo as quais existem desajustes no calendário das provas nacionais em relação a de alguns países africanos, o que influi nos resultados menos conseguidos que por vezes temos nas Afrotaças. Um comentário...
Respeitamos as opiniões. É preciso que essas pessoas tenham em linha de conta que as provas em todos os países não começam no mesmo mês. Para alguns países e algumas pessoas, o nosso calendário é o melhor. Para outros não, porque já fizemos uma auscultação ao nível de vários clubes e do G-8, em particular. A grande maioria dos clubes diz que o nosso calendário está bom. As equipas que no ano passado eliminaram o Petro de Luanda e o 1º de Agosto, fizeram-no sem qualquer jogo, enquanto as equipas angolanas já tinham realizado três. Alguma coisa não está bem. O problema não se coloca na calendarizarão das provas, mas na planificação das equipas técnicas dos clubes.

Um seleccionador a longo prazo

Já é possível saber-se quem será e de que nacionalidade é o novo seleccionador nacional, uma vez que os compromissos dos Palancas Negras se aproximam e aumenta a expectativa das pessoas?
Nos próximos dias serão revelados os dados sobre o novo seleccionador nacional. É um assunto que está a ser coordenado pelo presidente da FAF. Estamos a analisar cerca de 15 currículos de técnicos que podem treinar os Palancas Negras.

Pode-se saber o perfil que o novo seleccionador deverá obedecer?
O ideal é um técnico bastante experiente, fundamentalmente conhecedor do futebol africano. Não basta se pensar que é um bom técnico, que chega aqui e que vai conseguir fazer muita coisa. Tem de ser ambicioso, qualificado e que tenha um projecto que se adapte ao nosso futebol. Se não for assim não vamos a lado algum, tendo em conta a necessidade de termos um técnico a longo prazo para fazer um trabalho de renovação na Selecção Nacional que já sente a necessidade de renovação de algumas pedras nucleares. Precisamos de um técnico para criar uma nova selecção.

Que opinião tem sobre o emparcelamento do grupo de Angola na fase de apuramento ao CAN-2012 que terá lugar, em simultâneo, no Gabão e na Guiné Equatorial?
Temos o exemplo do passado, onde teoricamente Angola era apontada como a vencedora da série que apurava as selecções para o Mundial da África do Sul. Contra todas as expectativas, Angola foi eliminada ao ficar em 3º lugar. Desses erros tem-se que se extrair ilações suficientes para não se voltar a cometer. O futebol em África está cada vez mais nivelado. As selecções preparam-se bem para este tipo de competições. Temos de respeitar os adversários, mas fazendo as coisas de modo que sejamos os melhores.

Que comentários tece sobre o desempenho dos Palancas Negras, no CAN-2010?
A todos os títulos positiva. Em todos os jogos a nossa selecção demonstrou possuir em campo a personalidade que durante muito tempo lhe faltou. Tivemos um período em que se notava que quando os nossos jogadores entrassem em campo, davam a impressão de que ninguém queria ficar com a responsabilidade. Assim que algum recebesse o esférico, procurava largá-lo o mais rápido possível para não se sentir responsável por qualquer falha. Neste CAN os nossos jogadores assumiram-se, responsabilizaram-se e jogaram futebol com confiança e certeza. Defrontamos todas as equipas, de igual para igual. Faltou-nos sorte contra o Ghana, pois as melhores e o maior número de oportunidades foram nossos.

Há quem diga que o plano desportivo foi mal concebido. Concorda?
Não sei qual dos "experts" esteve à altura de fazer uma análise desse tipo.

Fala-se, entre outras coisas, da exiguidade de tempo (seis meses), uma vez que o técnico era novo. Fala-se também do local da realização e o escolhido para a preparação, a região do Algarve (Portugal), onde o clima era muito diferente ao de Angola, o palco da competição.
Das selecções que estiveram no CAN, nenhuma trabalho mais tempo do que a nossa. A nossa selecção teve tempo e condições de trabalho.

"Precisamos de mais espaço"

Alguns críticos são de opinião que o Gabinete das Selecções Nacionais não acompanha a dinâmica do futebol nacional. Dizem haver choques de competências. Qual o seu comentário?
O nível de organização é bom. Queremos melhorar sempre e, se possível, atingir a excelência. As actuais estruturas físicas já são pequenas para o desenvolvimento que a federação atingiu. Precisamos de um espaço duas ou três vezes maior, não obstante termos construído mais quatro gabinetes. O Conselho Técnico e os vários departamentos do Gabinete das Selecções Nacionais precisam de espaços novos para trabalharem à vontade. Possuímos dois excelentes autocarros.

"Aproveitar o Mundial para rendimentos
financeiros"


Que benefícios poderão advir para Angola, com a realização na África do Sul, em Junho próximo, do Campeonato do Mundo de Futebol?
O Governo de Angola fez um grande investimento em termos de infra-estruturas desportivas que criou um grande impacto na necessidade de se aumentar a rede hoteleira. Deve existir um programa atraente que faça com que a maioria das selecções que vão participar no Mundial utilizem Angola como ponto de aclimatização para o período de treinamento. O Ministério do Turismo tem um papel muito grande, no sentido de fazer com que haja mais publicitação para que as pessoas conheçam as condições climatéricas e de infra-estruturas que Angola tem para oferecer. Ainda há tempo para atrair algumas selecções, o que traria alguns rendimentos financeiros para compensar os grandes investimentos que o país fez.