Jornal dos Desportos

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Reportagens

Ausência de Equipa no " Gira" provoca debate

Júlio Gaiano,em Benguela - 26 de Fevereiro, 2010

Estádio de O mbaka não será palco de jogos do Girabola-2010

Fotografia: Jornal dos Desportos

O Girabola 2010 começou oficialmente há quase uma semana e, pela primeira vez, os benguelenses vão acompanhar a festa à distância durante meses. As rádios, televisões, jornais e outros meios de comunicação social vão ser alternativas dos prosélitos da bola em terras de O mbaka.Vai ser duro para muitos aficionados da modalidade rainha por estas paragens, obrigados a contentar-se com a nova realidade crua e nua.

Não é por acaso que já se vão criando grupos de amigos com o propósito de, aos fins-de-semana, deslocarem-se às cidades vizinhas do Huambo e Lubango e à cidade capital (Luanda), para assistirem aos jogos do Girabola. Um dos grupos formados na cidade do Lobito é coordenado por Jorge Baú "Badokas", chefe da claque da Académica do Lobito, ao passo que na vizinha cidade de Benguela, Leão Ngoma, dirigente desportivo, coordena a comitiva que já esteve presente no duelo entre o Petro de Luanda e 1º de Agosto, em que os "militares"venceram por 1-0.

Na verdade, a iniciativa é bem-vinda por estas paragens, mas de longe se tornaria solução para colmatar o vazio. Por isso, há que se traçar uma estratégia para tirar o futebol do estado menos bom em que se encontra, como aconselham os críticos da modalidade na província, que não se cansam de pregoar pelo reencontro dos benguelenses com a sua cultura desportiva, estando o futebol no centro das atenções de todos.

Em comparação com as outras quatro províncias que acolheram o CAN´2010, Benguela é a que mais saiu beneficiada dos investimentos infraestruturais aplicada pelo Governo Central. Além da construção de um estádio novo (O’mbaka), foram reabilitados quatro estádios de futebol, designadamente, Buraco, na cidade do Lobito, Comandante Fragoso de Matos, na vila da Catumbela, São Filipe e Municipal, ambos na cidade de Benguela.

Para a manutenção das relvas aí colocadas foram construídos dois viveiros, no Estádio Raimundo Ferrão, afecto ao Electro Sport Clube do Lobito e no Quintalão da Base Aérea Operacional da Catumbela (BAOC).A par das infra-estruturas desportivas que a província ganhou nas principais cidades (Lobito, Benguela, Cubal e Ganda) e vilas (Catumbela, Baía-farta, Caimbambo, Bocóio, Balombo e Chongorói) foram recuperadas as principais rodovias.

 ferrovias, avenidas, ruas, passeios e jardins, dando outro aspecto físico às principais localidades da província. A luz e a água deixaram de constituir preocupação nas principais zonas dos municípios e comunas da província. Ainda assim, na província não tem uma equipa sequer a competir no presente Girabola.

Associação projecta "Provincial"
com equipas dos municípios


A direcção da Associação de Futebol de Benguela (APFB) está a projectar a organização de um campeonato provincial de futebol seniores masculinos com a participação de oito equipas de diferentes municípios.A esse número podem juntar-se mais equipas, bastando que, para tal, se inscrevam junto da secretaria da Associação, segundo informou o secretário-geral da referida instituição desportiva, Mário José Luvambo, quando abordado sobre o assunto.

Mário Luvambo mostrou-se preocupado com o facto de as direcções de alguns clubes inscritos na APF continuarem com certas situações por resolver, como a questão da documentação e pagamentos de taxas de filiação da parte dos seus atletas, o que pode inviabilizar a utilização dos mesmos na jornada inaugural da prova, que no seu entender já vai atrasado.

"O número de clubes que se encontram nessa situação leva-nos a ponderar o arranque da prova, para darmos tempo necessário para concluírem o que lhes é exigido. É uma posição que em nada nos abona, se levarmos em conta que este ano pretendemos organizar uma prova exemplar e mais abrangente em termos de participação de equipas", comentou Mário Luvambo.O JD apurou junto da secretaria da APFB que para o “Provincial", cujo arranque está agendado para a segunda quinzena de Março, foram inscritos as formações da Académica do Lobito, União da Catumbela, do 1º de Maio, Nacional, 17 de Maio e FC Marítimo, todas de Benguela, Recreativo do Cubal e a do Representante da Ganda.

Benguelenses esboçam regresso
à alta-roda do futebol nacional


O regresso de uma equipa de Benguela ao Girabola já a partir de 2011 constitui prioridade das autoridades governamentais, dos empresários e clubes da província. Resgatar a mística perdida é o desafio traçado pelos benguelenses amantes do futebol.
É um desafio difícil que todas as pessoas por nós contactados pretendem abraçar, pois acreditam vencer.

Ainda assim, não descartam a necessidade da participação directa do Governo e da classe empresarial, que devem apoiar financeira e materialmente a causa do futebol local, já que os clubes estão despidos de recursos para fazer frente aos desafios que os esperam na empreitada desportiva.Esse facto ficou patente no último encontro com os agentes desportivos, promovido pela Direcção Provincial da Juventude e Desporto, que aconteceu em Novembro passado.

O director da referida instituição, Pedro Garcia, prometera apoiar os clubes e as associações desportivas locais, no sentido de minimizarem a crise que enfrentam.Todavia, já se passaram três meses e os clubes continuam a queixar-se dos mesmos problemas, sem que o professor Garcia viesse a público ou, no mínimo, reunisse com as direcções dos clubes para explicar as razões que estão na base de, até à data, não se materializar a promessa deixada no encontro que reuniu pessoas ligadas a distintas área do dirigismo desportivo.

O Governo Provincial
e os desafios do futuro


A nossa reportagem apurou, de uma fonte ligada ao executivo de Armando da Cruz Neto, que está em curso um projecto para relançar o desporto na província, estando na ordem das prioridades o futebol, o andebol, o basquetebol, o ténis (de mesa e de campo), o atletismo, a natação, o voleibol (de salão e de praia), o ciclismo e os desportos de luta.

Mas, tendo em conta a sua história e cultura no seio da população benguelense, o futebol vai continuar a merecer uma atenção especial das autoridades de Benguela, havendo daí a necessidade de se mobilizar a classe empresarial da província a juntar-se aos esforços do Governo, comparticipando nas despesas dos clubes que vão participar no torneio de apuramento à primeira divisão, a chamada "Segundona".O objectivo é colocar uma equipa no Girabola já na próxima temporada.

Tais iniciativas do Governo Provincial mereceram reacções favoráveis dos agentes desportivos da província, que a consideraram oportuna, nesta altura em que o desporto, o futebol em particular, merece o apoio de todas as forças vivas da província."É uma decisão louvável e que merece os maiores agradecimentos da nossa parte", comentaram algumas pessoas por nós contactadas, que, ainda assim, esperam ver que a mesma se materialize para crerem.

Afinal, é um projecto que, para muitos, vai revolucionar o desporto local, fazendo voltar aos velhos tempos de glórias e alegrias para todos os que se orgulham de ser naturais e amigos desta parcela do território angolano.José Granada, presidente do Nacional Sport Clube de Benguela, disse que o apoio do Governo e da classe empresarial aos clubes é necessário, já que os mesmos, sobretudo aqueles que não possuem patrocínios de empresas estatais ou mesmo privadas, vivem dificuldades estremas, o que os impossibilita de cumprir os programas traçados para determinadas campanhas desportivas em que estejam envolvidas.

No entender de José Granada, o futebol move paixões e dinheiros. Por isso, sozinho, o clube não consegue suportar os encargos que se lhe impõem."A nossa massa associativa não contribui com regularidade para as despesas do clube. Logo, não podemos contar muito com as suas contribuições, até porque a cultura de associativismo no desporto aos poucos vai se perdendo no nosso país, tornando-se imprescindível o apoio do Governo", sublinhou.

"Apoio deve ser
efectivo e directo"


O vice-presidente para o futebol de Benguela do Estrela Clube 1º de Maio de Benguela, Rui Araújo, disse que é dever do governo apoiar material e financeiramente o desporto da província, visto que os clubes não têm dinheiro e, para sobreviver às dificuldades, precisam de ser ajudados.Em face dessa realidade, que considerou triste, o vice-presidente do 1º de Maio defende que o governo não se deve pôr à margem das dificuldades que vive a maioria dos clubes da província. E, diz mais, "o apoio deve ser efectivo e directo".

"Não devemos ter falsas ilusões de que os clubes se devem auto-financiar. O governo precisa de criar e definir políticas para o desenvolvimento do desporto local. Caso contrário, continuaremos a viver situações menos boas, onde os clamores por apoios disto ou daquilo se tornarão o pão nosso de cada dia, para a tristeza de todos nós", pressagiou o carismático dirigente desportivo benguelense.

Na mesma senda, o director provincial da Juventude e Desportos do Huambo, Bernardo Suka, defendeu recentemente, na cidade de Benguela, o regresso de equipas benguelenses ao Girabola, pedindo, para o efeito, o apoio e entrega de todas as forças vivas da província.Aquele responsável sublinhou que, pela potencialidade socio-económica que a província possui, não se justifica que fique por muito tempo sem uma equipa no Girabola.
 
"Acredito que as autoridades locais, a classe empresarial e os desportistas de Benguela estão preocupados com isso, pelo que tudo fazem para que, nos próximos tempos, volte a haver uma equipa na prova maior do futebol nacional. Se for mais cedo, melhor será para o bem do desporto em Benguela, que no passado foi considerada uma das potências do país, rivalizando com as províncias de Luanda e do Huambo", disse Suka.

O facto de a província ter um novo estádio de futebol, além de ver reabilitadas as principais infra-estruturas desportivas, nomeadamente os quatro estádios de futebol, dezenas de unidades hoteleiras e outros empreendimentos, que serviram o CAN´2010, pode servir de catalizador para todos os benguelenses pensarem com optimismo no futuro do futebol e do desporto local.